sábado, 3 de outubro de 2026

DOMINGOS RAMALHO, O “BAIANO DA CORNETA”: UMA HISTÓRIA SOCIAL DA TORCIDA VASCAÍNA - Torcedores, sociabilidades, memória e formas de organização coletiva nas arquibancadas do Vasco da Gama

1. RESUMO Este artigo analisa a trajetória de Domingos do Espírito Santo Ramalho, conhecido como “Baiano da Corneta” ou “homem do talo de mamona”, personagem de destaque nas arquibancadas do Vasco da Gama entre as décadas de 1940 e 1970. Mais do que reconstruir uma trajetória individual, procura-se compreender Ramalho como expressão de um processo histórico mais amplo de formação das culturas coletivas de torcer no Rio de Janeiro. O estudo parte do diálogo entre pesquisa histórica, imprensa esportiva, memória oral e documentação do Acervo Digital do Vasco, articulando a investigação desenvolvida por Jorge Medeiros sobre a formação das torcidas uniformizadas cariocas nos anos 1940 com as contribuições de João Antero de Carvalho, Bernardo Buarque de Hollanda, Silvio Ricardo da Silva e Luiz Henrique de Toledo. A trajetória de Ramalho permite observar a constituição de lideranças informais, práticas sonoras e corporais, símbolos materiais e redes de sociabilidade que antecederam ou acompanharam a institucionalização das torcidas organizadas. Sua condição de migrante baiano, trabalhador e torcedor negro também permite problematizar a diversidade social da torcida vascaína. Sustenta-se que o talo de mamona, mais que uma curiosidade individual, tornou-se um signo de pertencimento e uma marca sonora da cultura torcedora. Palavras-chave: Vasco da Gama; torcidas; futebol; sociabilidade; memória; Ramalho; cultura popular. 2. INTRODUÇÃO A história das torcidas de futebol no Rio de Janeiro ainda pode ser enriquecida quando deslocamos o olhar dos grandes clubes, dos jogadores e dos dirigentes para aqueles que, situados nas arquibancadas, construíram formas próprias de participação no espetáculo esportivo. A torcida não constitui apenas uma massa passiva que acompanha o jogo. Ao longo do processo de popularização do futebol, seus integrantes desenvolveram códigos, linguagens, instrumentos, gestos, símbolos, deslocamentos e formas específicas de organização. O estádio tornou-se, assim, espaço de sociabilidade e produção de identidades coletivas. A pesquisa de Jorge Medeiros Braga sobre as torcidas uniformizadas do Rio de Janeiro nos anos 1940 demonstrou que essas organizações possuíam códigos culturais, formas próprias de organização e projetos específicos, não podendo ser reduzidas a simples instrumentos de mobilização dos clubes. O estudo também chamou atenção para a dimensão carnavalesca das torcidas, aspecto fundamental para compreender suas práticas. (Periódicos UFF) É nesse processo histórico que a trajetória de Domingos do Espírito Santo Ramalho adquire particular interesse. Baiano, trabalhador, negro e morador de áreas populares do Rio de Janeiro e posteriormente da Baixada Fluminense, Ramalho tornou-se uma das figuras mais reconhecíveis da torcida vascaína. Sua presença era marcada por um instrumento rudimentar: o talo de mamona, posteriormente associado de maneira inseparável à sua imagem. A pergunta que orienta este artigo, portanto, não é simplesmente quem foi Ramalho, mas: O que a trajetória de Ramalho nos permite compreender sobre a formação histórica da torcida vascaína e sobre as transformações das formas coletivas de torcer no Rio de Janeiro? 3. DA TORCIDA ESPONTÂNEA À TORCIDA ORGANIZADA Uma das contribuições mais importantes para esse debate é evitar a ideia de que as torcidas organizadas surgiram de forma repentina. A documentação sobre o futebol carioca permite observar a existência de diferentes formas de associação entre torcedores antes da consolidação das organizações posteriores. A pesquisa sobre os anos 1940 demonstra justamente esse processo de transformação. Nesse sentido, a torcida deve ser compreendida como um fenômeno histórico em movimento. Existiam: grupos de amigos; turmas de torcedores; lideranças individuais; agrupamentos vinculados aos bairros; torcedores que se destacavam por sua presença; instrumentos musicais; bandeiras e faixas; festas e cortejos; formas de deslocamento coletivo; e, posteriormente, organizações mais estruturadas. A pesquisa de Jorge Medeiros Braga identifica, nos anos 1940, o fortalecimento das primeiras formas organizadas de torcer no Rio, dentro de um contexto marcado pela expansão do rádio esportivo, pela profissionalização do futebol e pelo crescimento do público nos estádios. (Periódicos UFF) O trabalho de Silvio Ricardo da Silva, Renato Machado Saldanha e Fábio Henrique França Rezende acrescenta outra dimensão ao problema ao compreender as torcidas como formas de associativismo recreativo e organização popular, aproximando-as historicamente das escolas de samba. (Periódicos UFF) É nessa perspectiva que Ramalho deve ser situado. 4. RAMALHO E A CONSTRUÇÃO DO TORCEDOR-SÍMBOLO A trajetória de Ramalho também pode ser relacionada ao trabalho de João Antero de Carvalho, que publicou, em 1968, Torcedores de ontem e de hoje. Bernardo Buarque de Hollanda demonstra como a obra de João Antero reuniu dezenas de personagens das torcidas cariocas, combinando crônica, memória e depoimentos. O livro ajudou a fixar publicamente uma determinada imagem do torcedor: indivíduos muitas vezes de origem popular, trabalhadores ou migrantes, que se tornavam conhecidos por sua fidelidade, por suas características pessoais e por objetos ou práticas que os distinguiam nas arquibancadas. (SciELO) Ramalho se enquadra perfeitamente nesse universo. Mas há uma diferença importante: ele não é apenas representado como personagem pitoresco. Sua trajetória revela uma função social dentro da torcida. Um documento de 1963, posteriormente reproduzido no blog Torcidas do Vasco a partir da pesquisa de 100 anos da Torcida Vascaína, apresenta uma verdadeira divisão de funções no interior da torcida: Dulce Rosalina aparece à frente da animação; Laerte Crema comandava a bateria; outros torcedores cuidavam de pratos, maracás e instrumentos; enquanto Ramalho produzia seu som característico com o talo de mamona. (Torcidas do Vasco) A arquibancada, portanto, apresentava uma organização interna da festa. Ramalho era parte dessa estrutura. 5. A MAMONA: OBJETO, SOM E IDENTIDADE Talvez nenhum elemento seja tão revelador quanto a mamona. Um instrumento improvisado, produzido com um elemento vegetal simples, transformou-se em uma marca individual e coletiva. A mamona: identificava Ramalho; produzia som; animava a torcida; marcava sua presença física no estádio; e tornou-se parte da memória vascaína. Em uma perspectiva sociológica, podemos dizer que ocorreu um processo de transformação de um objeto cotidiano em signo de pertencimento. O instrumento não possuía valor pela sofisticação material. Seu valor vinha da prática social que se construiu ao redor dele. Essa interpretação aproxima-se da antropologia das torcidas de Luiz Henrique de Toledo, para quem o torcer envolve práticas corporais, sonoras, visuais, espaciais e simbólicas. Assim, o som da mamona era também uma forma de presença social. 6. RAMALHO E DULCE ROSALINA Aqui o material reunido por sua pesquisa é particularmente significativo. A documentação não recomenda pensar a relação entre Ramalho e Dulce Rosalina simplesmente como uma competição pessoal pela popularidade. É mais produtivo compreender os dois como formas diferentes de liderança dentro da torcida. Dulce aparece associada à organização, à mobilização e à articulação coletiva. Ramalho, por sua vez, tornou-se especialmente reconhecido por sua presença física, pelo som da mamona e pela capacidade de animar a arquibancada. O material do Torcidas do Vasco registra inclusive a participação de ambos em momentos nos quais a torcida procurava ampliar sua organização. O resultado é uma imagem muito interessante: a torcida não possuía apenas um modelo de liderança. Existiam lideranças organizativas, simbólicas, musicais, afetivas e territoriais. 7. RAMALHO E A DIVERSIDADE SOCIAL DA TORCIDA VASCAÍNA Essa será, a meu ver, uma das partes mais originais do artigo. A presença de Ramalho permite questionar uma leitura excessivamente concentrada na origem portuguesa do Vasco. Sua trajetória como baiano, trabalhador e homem negro mostra que a identificação com o Vasco também se construiu através de trajetórias migratórias internas e de setores populares da sociedade brasileira. Não se trata de substituir uma narrativa por outra, mas de ampliar a composição social do personagem coletivo chamado “torcida vascaína”. A contribuição de Silvio Ricardo é importante justamente porque sua pesquisa sobre torcidas e associativismo popular chama atenção para os espaços de sociabilidade em que sujeitos negros, pobres e periféricos também produziram formas de identidade e pertencimento. (Periódicos UFF) Ramalho permite observar esse processo em escala biográfica. 8. RAMALHO ENTRE A ARQUIBANCADA E A ORGANIZAÇÃO DA TORCIDA É necessário, entretanto, evitar um anacronismo. Não devemos simplesmente transformar Ramalho em integrante de uma “torcida organizada” no sentido contemporâneo. Sua atuação pertence a uma história mais longa. Ele pode ser entendido como um personagem situado entre o torcedor-símbolo, as torcidas uniformizadas e as formas posteriores de organização coletiva. Essa distinção é fundamental. A própria pesquisa de Jorge Medeiros sobre os anos 1940 demonstra que as primeiras torcidas organizadas cariocas possuíam características próprias e estavam inseridas em um contexto histórico específico. (Periódicos UFF) Bernardo Hollanda, por sua vez, mostra que entre 1936 e 1968 ocorreu um processo de constituição de formas associativas de pertencimento clubístico e identidades coletivas de torcer, com crescente reconhecimento público de líderes e agrupamentos pela imprensa. (DOAJ) Ramalho atravessa esse processo. 9. A MEMÓRIA DE RAMALHO Aqui entra de maneira excepcional o recorte de 1999 que você acabou de apresentar. Décadas depois de sua presença mais intensa nas arquibancadas, Ramalho continua sendo lembrado como referência de uma determinada maneira de torcer. O texto recupera a expressão: “Ramalho e seu talo de mamona.” A frase possui enorme força documental. Ela demonstra que a memória de Ramalho não depende apenas de sua biografia. Seu nome passa a representar uma época da torcida. A mamona transforma-se, nesse processo, em uma espécie de objeto de memória. O torcedor desaparece fisicamente, mas o objeto permanece no relato. É justamente nesse ponto que o trabalho pode dialogar novamente com João Antero de Carvalho e Bernardo Hollanda: a imprensa não apenas registrou os torcedores; ela também participou da construção de personagens e de uma memória social das arquibancadas. (SciELO) 10. CONSIDERAÇÕES FINAIS A trajetória de Domingos do Espírito Santo Ramalho permite deslocar a história das torcidas vascaínas da simples sucessão de nomes de líderes para um problema mais amplo: como se formaram historicamente as maneiras de torcer no futebol carioca? Ramalho foi simultaneamente trabalhador, migrante, torcedor, personagem da imprensa e produtor de símbolos. Seu talo de mamona, aparentemente insignificante, tornou-se instrumento de comunicação, marca pessoal e signo coletivo. Sua trajetória também permite observar que a torcida vascaína foi construída por diferentes sujeitos sociais, atravessada por experiências migratórias, populares, territoriais e raciais diversas. Nesse sentido, Ramalho não deve ser compreendido apenas como um personagem pitoresco da história do Vasco. Ele constitui uma janela sociológica para a compreensão da formação das culturas torcedoras no Rio de Janeiro. A partir dele é possível acompanhar a passagem entre diferentes formas de participação no futebol: dos grupos informais e das primeiras manifestações coletivas, passando pelas torcidas uniformizadas e seus líderes, até as formas mais estruturadas de organização que se consolidariam posteriormente. Sua trajetória confirma, portanto, que a história das torcidas não é apenas a história das organizações que ganharam nomes, estatutos ou sedes. É também a história de homens e mulheres que, nas arquibancadas, inventaram maneiras próprias de produzir pertencimento. Referências fundamentais para a versão acadêmica BRAGA, Jorge Luiz Medeiros. As Torcidas Uniformizadas (Organizadas) de Futebol no Rio de Janeiro nos anos 1940. Esporte e Sociedade, v. 5, n. 14, 2010, p. 1-24. (Centro Esportivo Virtual) CARVALHO, João Antero de. Torcedores de ontem e de hoje. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1968. A obra reúne perfis de torcedores cariocas e é uma referência importante para compreender a construção memorialística desses personagens. (SciELO) HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. “A invenção do torcedor de futebol: imprensa esportiva, profissionalismo e a formação das torcidas organizadas no Rio de Janeiro (1936-1968).” História (São Paulo), v. 42, 2023, e2023026. (DOAJ) SALDANHA, Renato Machado; REZENDE, Fábio Henrique França; SILVA, Silvio Ricardo da. “Torcidas organizadas e escolas de samba: lazer e organização popular na Era Vargas.” Esporte e Sociedade, n. 37, 2023. (Periódicos UFF) TOLEDO, Luiz Henrique de. Torcidas organizadas de futebol: lazer e estilo de vida na metrópole. Campinas: Autores Associados/ANPOCS, 1996. TORCIDAS DO VASCO. Blog de pesquisa e memória das torcidas vascaínas. Diversos textos baseados no livro 100 anos da Torcida Vascaína, de Jorge Medeiros. Entre eles, os materiais de 1957 e 1963 que recuperam a atuação de Ramalho. (Torcidas do Vasco)

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