domingo, 6 de setembro de 2026

Guiomar Marques da Silva: uma memória centenária (1926-2026)

Em 25 de setembro de 2026, completam-se 100 anos da morte de Guiomar Marques da Silva, uma das grandes torcedoras e figuras femininas dos primeiros anos do Club de Regatas Vasco da Gama. Poucas mulheres tiveram papel tão relevante na história do clube quanto ela. Esposa de Francisco Marques da Silva — presidente do Vasco em três ocasiões (1919 a 1921) — Guiomar esteve sempre na linha de frente das atividades sociais e esportivas da instituição. Embora seu legado ainda seja pouco conhecido, a consulta aos jornais da época revela o quanto sua presença foi decisiva para a consolidação do clube e para o fortalecimento da torcida vascaína. Ao lado de Avelina Portela (primeira mulher benemérita de um grande clube) e Josefa Pereira (primeira chefe de torcida do Vasco, segundo o jornalista Álvaro Nascimento), Guiomar — reconhecida como a primeira sócia remida do Vasco — compõe o “trio de ouro feminino” que marcou os principais momentos da história vascaína antes da construção de São Januário. A presença feminina no Vasco sempre foi marcante: nas arquibancadas acompanhando as regatas, nos piqueniques em Paquetá ou nas festas na sede da Rua Santa Luzia. Essa geração cresceu vendo o clube brilhar no remo, mas ainda como “primo pobre” do futebol. Francisco Marques da Silva, comerciante português e dirigente ousado, foi um dos responsáveis pela criação do departamento de futebol, abrindo espaço para jogadores vindos dos clubes suburbanos — muitos deles negros e operários — que se tornaram craques do time. O casal também se destacava na vida cultural e religiosa da cidade. Francisco presidiu o Orfeão Português, uma das várias associações luso-brasileiras da época, enquanto Guiomar atuava como diretora de noviças na Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores. Entre 1921 e 1923, viveram em Portugal, retornando ao Brasil para celebrar o título inédito de futebol conquistado em 1923. A convivência com atletas e dirigentes era constante, seja na sede de Santa Luzia, no campo da Tijuca (Rua Morais e Silva) ou em sua residência na Rua Barão de Mesquita. Pouco se sabe sobre detalhes pessoais de Guiomar, como sua data de nascimento ou se teve filhos. Mas sua paixão pelo Vasco foi registrada nos jornais: “a distinção dispensada aos vascainos, a fidalgia com que eram recebidos em seu lar, deixam indelével recordação e imperecível saudade”. Sua popularidade ficou evidente no dia do enterro, acompanhado por mais de 100 automóveis até o cemitério. Em 1927, Francisco doou ao clube o automóvel do casal, alegando que o veículo trazia muitas lembranças das viagens às regatas e aos campos de futebol. Um gesto simbólico de uma história de amor que uniu paixão esportiva e afetiva. A memória de Guiomar foi preservada com o batismo de um barco de remo em sua homenagem nos anos 1940, além de sua inclusão no livro *Polyanthea Vascaína* (1927), no volume comemorativo do cinquentenário (1948) e em diversas crônicas de Álvaro Nascimento no *Jornal dos Sports*.

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