segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Francisco Marques da Silva – Um ex-presidente marcante na história do Vasco

Em 1948, quando o Club de Regatas Vasco da Gama celebrava meio século de existência, ergueram-se homenagens que buscavam cristalizar sua memória. Entre quadros e retratos de ex-presidentes, surgia a figura de um comerciante português, vindo de Ovar, no norte de Portugal: **Francisco Marques da Silva**. Não nascera vascaíno, nem fora fundador, mas cedo se tornaria um dos pilares da instituição. Seu coração, inicialmente voltado ao América — clube que atraía a colônia portuguesa —, foi conquistado pelo Vasco em meados da década de 1910. Em dezembro de 1917, assumiu a presidência, e a partir de 1918 sua presença se tornaria constante, até o retorno definitivo à terra natal em 1927. Em 1920, viveu uma eleição acirrada contra Marcílio Telles, disputa que dividiu o clube em duas alas: portugueses ao lado de Marcílio, brasileiros ao lado de Francisco. José da Silva Rocha, memorialista apaixonado, registrou essa batalha como um marco da vida política vascaína. Por razões econômicas e familiares, Marques regressou a Portugal em 1921, mas voltou em 1923, a tempo de testemunhar a consagração do futebol cruzmaltino com o título carioca. Desde sua primeira gestão, empenhou-se em fortalecer o departamento de futebol, enfrentando a resistência dos remadores que viam o Vasco como um clube essencialmente náutico. Com aliados influentes, como o lendário **José Ribeiro de Paiva**, o “Almirante”, abriu espaço para operários e negros, excluídos dos grandes clubes, formando um elenco que mudaria a história. Na Tijuca, Marques e sua esposa Guiomar viviam intensamente: esportes, religião, carnaval. Presidiu clubes sociais como o Everest, o Orfeão Português e o Grupo Dramático do Andaraí, onde Guiomar também brilhava. Engajaram-se em campanhas solidárias, mobilizando recursos para soldados portugueses na Primeira Guerra Mundial. Foi um dos principais articuladores da compra do terreno de São Januário e colaborador ativo na construção do estádio, figurando entre os quinze maiores contribuintes. Recebeu, por isso, o título de **Grande Benemérito**, honraria concedida a apenas três pessoas até 1948. Mas sua vida sofreu um golpe em 1926, com a morte de Guiomar, considerada por muitos como uma das mais fervorosas vascaínas. “Sua casa era uma extensão da sede do clube”, escreveu José da Silva Rocha. Pouco depois da inauguração de São Januário, em 1927, Marques partiu para Portugal, sem jamais retornar ao Brasil. Antes da despedida, doou ao clube seu automóvel para transportar jogadores. Em 1931, quando o Vasco excursionou pela Europa, uma das partidas foi em Ovar, sua cidade natal, onde ele se envolveu com o futebol local e ajudou a erguer um estádio. Em 1948, o Vasco buscou reunir ex-presidentes e fundadores. Marques, debilitado, recusou o convite, mas recebeu homenagens em crônicas de Álvaro Nascimento e José da Silva Rocha. Nascimento descreveu-o como “coração bem formado, tolerante, respeitador das convicções alheias, querido até por adversários”. Em resposta, Marques escreveu: “Se é certo que trago sempre no coração o nome do glorioso Vasco da Gama, a carta evocadora do seu cinquentenário elevou ainda mais em mim a chama de uma amizade que se gerou”. Os últimos dez anos de sua vida foram marcados por problemas de saúde. Faleceu em 1959, aos 77 anos, em Ovar. No Rio de Janeiro, o Vasco lhe prestou homenagens com missas e anúncios nos jornais, perpetuando sua memória como um dirigente que ajudou a moldar o destino do clube.

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