Os Supimpas e a formação da cultura torcedora vascaína: esporte, sociabilidade e memória
Resumo Este artigo propõe uma investigação sobre o Grupo dos Supimpas, agremiação vinculada ao Club de Regatas Vasco da Gama que alcançou grande visibilidade entre o final da década de 1920 e os anos 1930. A partir de jornais e revistas da época, memórias de antigos vascaínos e da produção posterior de memorialistas, procura-se compreender o grupo como uma experiência de sociabilidade esportiva que articulava remo, natação, polo aquático, basquete, voleibol, carnaval e formas coletivas de identificação clubística. A pesquisa também examina a participação atribuída aos Supimpas na difusão do tradicional grito “Casaca!”, confrontando diferentes versões sobre sua origem. Em perspectiva historiográfica, o artigo estabelece um contraponto entre a narrativa de Mário Filho, especialmente sua interpretação da formação social das torcidas e da popularização do Vasco, e as crônicas de Álvaro do Nascimento, que registraram reiteradamente grupos e personagens da sociabilidade vascaína. A ausência dos Supimpas e de outros agrupamentos, como o Lasca o Pau, em narrativas posteriormente consagradas constitui um problema de pesquisa sobre os processos de seleção e construção da memória do futebol brasileiro. Palavras-chave: Vasco da Gama; torcidas; futebol; sociabilidade; memória; Mário Filho; Álvaro do Nascimento; Supimpas. 1. Introdução A história das torcidas de futebol no Rio de Janeiro costuma ser narrada a partir das grandes organizações que adquiriram visibilidade principalmente a partir da segunda metade do século XX. Essa perspectiva, entretanto, pode produzir um efeito retrospectivo: a impressão de que as formas coletivas de torcer surgiram apenas com as modernas torcidas organizadas. A documentação jornalística das primeiras décadas do século XX permite observar um processo bastante anterior. Grupos de sócios, atletas, amigos e torcedores já desenvolviam formas próprias de sociabilidade, organizavam festas, acompanhavam competições, produziam cânticos e ocupavam espaços públicos em nome de seus clubes. O Grupo dos Supimpas, vinculado ao Club de Regatas Vasco da Gama, constitui um caso particularmente significativo para compreender esse processo. Os documentos localizados indicam que os Supimpas atuavam em diferentes modalidades esportivas e possuíam uma intensa vida social. Em 1936, por exemplo, O Imparcial anunciava uma competição organizada pelo grupo, apresentado como “filiado ao C. R. Vasco da Gama”, reunindo provas de natação, provas de fantasia, salvamento e uma partida de water-polo. Entre as provas apareciam aquelas dedicadas a diferentes jornais da imprensa carioca, inclusive duas provas denominadas “Jornal dos Sports”. (Hemeroteca Digital) Esse conjunto documental permite formular uma hipótese central: os Supimpas não devem ser compreendidos simplesmente como uma torcida de futebol, mas como uma forma de sociabilidade esportiva através da qual diferentes dimensões do pertencimento vascaíno eram produzidas e compartilhadas. 2. Os Supimpas e a sociabilidade esportiva A trajetória do grupo situa-se em um momento no qual as fronteiras entre esporte, lazer, associativismo e carnaval eram particularmente permeáveis. A memória posteriormente registrada sobre os Supimpas os associa principalmente aos atletas e frequentadores do ambiente náutico vascaíno. O grupo teria reunido praticantes de remo e natação e, progressivamente, desenvolvido atividades em outras modalidades. A documentação jornalística confirma parte importante dessa trajetória. Em 1933, por exemplo, o Diario de Noticias registrou um torneio interno de basquetebol organizado pelos Supimpas e destacou que a diretoria do grupo ofereceria uma recepção às madrinhas e patronos das equipes e à diretoria do Vasco. (Hemeroteca Digital) A organização possuía, portanto, características que ultrapassavam a informalidade de uma simples “turma”. Havia competições, equipes, dirigentes, relações institucionais e atividades sociais. É nesse ponto que o estudo dos Supimpas permite observar uma característica importante da formação histórica do vascaísmo: o pertencimento ao clube era experimentado simultaneamente no esporte e na sociabilidade. 3. Carnaval, batucada e identidade vascaína O Carnaval constitui uma das dimensões mais expressivas dessa experiência. Um documento de 1930, apresentado neste estudo, registra uma composição intitulada “Symphonia – Grupo dos Supimpas”, de Carlos Martins, conhecido como Lord Ranheta. A letra apresenta os Supimpas como: “Os bambas da batucada” e termina com uma afirmação particularmente significativa: “Este grupo é supimpa / De coração / Nasceu no Vasco da Gama / Que é campeão.” O documento é importante porque evidencia uma forma de autoapresentação pública da identidade do grupo. Os Supimpas não aparecem apenas como indivíduos que torciam pelo Vasco; apresentam-se como uma coletividade cuja própria origem é associada ao clube. A referência à Praia das Virtudes, presente na composição, também permite relacionar a experiência dos Supimpas à geografia social do esporte carioca daquele período. Nesse sentido, o carnaval não deve ser tratado como elemento periférico. Ele constituía um dos espaços nos quais os grupos esportivos construíam vínculos, símbolos e formas de reconhecimento coletivo. 4. O “Casaca” e o problema da autoria A relação entre os Supimpas e o tradicional grito “Casaca!” constitui talvez o aspecto mais conhecido e, ao mesmo tempo, mais controverso dessa história. Uma crônica atribuída a Álvaro do Nascimento, publicada no Jornal dos Sports em 17 de outubro de 1945, oferece uma reconstrução particularmente importante. Segundo o jornalista, o Grupo dos Supimpas teria se formado em 1927 e posteriormente adquirido grandes proporções, chegando a “pesar até na balança política do Vasco da Gama”. A mesma crônica afirma que os Supimpas foram os primeiros a utilizar o “Casaca” na forma que posteriormente se tornou conhecida nos campos. (SuperVasco) Entretanto, a própria narrativa de Álvaro introduz uma distinção fundamental: a criação do grito não seria necessariamente atribuível aos Supimpas. Segundo sua versão, a expressão teria surgido no Departamento de Escoteiros do Vasco, dirigido por Paulo do Carmo, entre 1928 e 1929. O termo apareceria inicialmente como “Cazarca”, associado a uma canção cuja conclusão fazia referência à “Fuzarca”. Posteriormente, em 1930, os Supimpas teriam incorporado a expressão às suas competições, inicialmente no water-polo, depois no basquete e finalmente no futebol. (NetVasco) Essa distinção é fundamental para uma abordagem acadêmica. Em lugar de buscar simplesmente “quem inventou o Casaca?”, interessa investigar o processo pelo qual uma expressão foi produzida, apropriada, transformada e difundida. Assim, a hipótese deste artigo é que os Supimpas desempenharam papel decisivo não necessariamente como inventores individuais do grito, mas como agentes de sua circulação e institucionalização dentro da cultura esportiva vascaína. 5. Mário Filho e os silêncios da memória do futebol A análise dos Supimpas conduz inevitavelmente a uma discussão historiográfica sobre a maneira como a história social do futebol brasileiro foi construída. Mário Rodrigues Filho ocupa lugar central nessa historiografia. Sua produção jornalística e literária tornou-se referência para os estudos sobre o futebol brasileiro, especialmente a partir de O Negro no Futebol Brasileiro, publicado originalmente em 1947. A Biblioteca Nacional destaca sua importância para a consolidação da crônica esportiva moderna e para a colocação do torcedor e das arquibancadas no centro da narrativa sobre o futebol. (BNDigital) É justamente por reconhecer essa importância que se torna necessário interrogar seus silêncios. Uma pesquisa dedicada aos Supimpas encontra uma questão significativa: um grupo que aparece repetidamente na imprensa das décadas de 1920 e 1930, participa de competições, organiza eventos, possui dirigentes e constrói uma identidade própria não ocupa na narrativa posteriormente consagrada uma posição correspondente à sua presença documental. O problema não deve ser formulado como acusação de uma omissão deliberada. Não dispomos, neste momento, de elementos suficientes para atribuir a Mário Filho uma intenção específica nesse sentido. A questão historiográfica é outra: quais experiências do futebol foram selecionadas para compor as grandes narrativas e quais permaneceram nas margens dessas interpretações? Essa pergunta ganha importância quando se considera a interpretação social do Vasco presente na literatura sobre o período. A história do clube envolve, sem dúvida, uma forte presença da comunidade portuguesa. Entretanto, a documentação dos Supimpas revela uma sociabilidade que não pode ser reduzida a uma comunidade étnica ou econômica. O grupo articulava atletas, associados, jovens, praticantes de diferentes modalidades e participantes do carnaval e de outras manifestações culturais. A própria existência de grupos como os Supimpas sugere que o vascaísmo era socialmente mais complexo do que uma identificação exclusivamente fundada na comunidade portuguesa. 6. Álvaro do Nascimento e uma outra memória do Vasco O contraponto mais importante para esta discussão encontra-se justamente em outro jornalista do Jornal dos Sports: Álvaro do Nascimento Rodrigues, conhecido como Cascadura e, em suas crônicas, também identificado pelo pseudônimo Zé de São Januário. Enquanto Mário Filho produziu uma interpretação de grande alcance sobre o futebol brasileiro, Álvaro do Nascimento desenvolveu durante décadas uma espécie de memória cotidiana do Vasco, recuperando personagens, grupos, festas e práticas que poderiam desaparecer da narrativa oficial. A diferença é particularmente evidente em relação aos Supimpas. Em sua crônica de 1945, Álvaro não apenas registra a existência do grupo. Afirma que ele havia adquirido dimensão suficiente para “pesar até na balança política do Vasco da Gama”. (SuperVasco) Essa expressão merece ser interpretada com cautela, mas é sociologicamente significativa: sugere que os Supimpas constituíam não somente uma comunidade recreativa, mas um agrupamento capaz de adquirir capital social e influência dentro da própria instituição vascaína. Em outra memória posteriormente reproduzida a partir de sua coluna, Álvaro enumera diferentes tradições do Vasco e coloca lado a lado as “batucadas de Santa Luzia”, os “bailes do Lasca-o-Pau” e o “Grupo dos Supimpas”. (NetVasco) Essa perspectiva permite recuperar um Vasco diferente daquele que aparece quando a história do clube é observada exclusivamente através das suas diretorias, grandes jogadores ou conquistas esportivas. É o Vasco das festas, dos grupos de amigos, das excursões, da batucada, das praias, do remo, do carnaval e das primeiras formas coletivas de torcer. 7. Supimpas e Lasca o Pau: para além das grandes torcidas A inclusão do Lasca o Pau nessa análise é fundamental. Se os Supimpas demonstram a existência de um grupo estruturado em torno do esporte, da sociabilidade e da festa, o Lasca o Pau permite observar outra experiência coletiva anterior às torcidas organizadas modernas. Esses agrupamentos sugerem que a cultura torcedora vascaína foi sendo construída antes da institucionalização das grandes torcidas, por meio de redes informais e semiformais de sociabilidade. A comparação também permite questionar uma visão linear da história das torcidas: primeiro o espectador individual, depois a torcida organizada. A documentação sugere uma trajetória mais complexa: associativismo → grupos esportivos → grupos de sociabilidade → manifestações carnavalescas → cânticos e rituais coletivos → formas modernas de torcida. Os Supimpas ocupam um lugar importante nessa cadeia. 8. Considerações finais A recuperação da trajetória dos Supimpas permite ampliar significativamente a compreensão da formação histórica da torcida vascaína. Os documentos analisados mostram um grupo ligado ao Vasco que atuou simultaneamente em diferentes dimensões da vida social carioca: esporte, carnaval, amizade, competição, lazer e pertencimento clubístico. Sua importância não reside apenas na possível relação com o “Casaca”. O grupo constitui uma janela para compreender como os torcedores produziram, antes das grandes torcidas organizadas, formas próprias de sociabilidade e representação coletiva. A documentação também permite relativizar interpretações excessivamente centradas em uma única dimensão social do vascaísmo. A presença portuguesa foi fundamental na história do clube, mas os Supimpas demonstram que a cultura vascaína era constituída por redes sociais e práticas culturais mais amplas. O confronto entre Mário Filho e Álvaro do Nascimento deve ser compreendido nesse contexto. Não se trata de estabelecer quem produziu a “verdadeira” história do Vasco, mas de reconhecer que diferentes narradores selecionaram diferentes objetos, personagens e experiências. Mário Filho permanece uma referência fundamental para o estudo do futebol brasileiro. A própria Biblioteca Nacional o identifica como um dos principais responsáveis pela transformação da crônica esportiva e pela centralidade adquirida pelo torcedor na narrativa futebolística. (BNDigital) Mas a história dos Supimpas demonstra que nenhuma obra isolada pode esgotar a complexidade da experiência social do futebol. Álvaro do Nascimento, ao preservar em suas crônicas grupos como os Supimpas e o Lasca o Pau, oferece outro caminho metodológico: escutar a memória cotidiana dos clubes e recuperar personagens e coletividades que as grandes narrativas podem deixar em segundo plano. A pesquisa aqui proposta parte justamente desse cruzamento entre memória e documentação. Os jornais da época demonstram que os Supimpas existiram, organizaram competições e possuíam reconhecimento público. Em 1936, por exemplo, O Imparcial registrava uma competição aquática do grupo, explicitamente identificado como filiado ao Vasco. (Hemeroteca Digital) A crônica de Álvaro, quinze anos depois, demonstra que o grupo permanecia vivo na memória daqueles que acompanharam a história vascaína. É nesse intervalo entre o acontecimento e sua posterior lembrança que se encontra uma questão central para a Sociologia do Esporte: quem produz a memória de uma torcida, quais grupos são lembrados e quais precisam ser recuperados pela pesquisa histórica? Os Supimpas constituem, portanto, não apenas um capítulo esquecido da história do Vasco da Gama, mas um objeto privilegiado para compreender a própria formação social da cultura torcedora no Rio de Janeiro. Referências preliminares BIBLIOTECA NACIONAL DIGITAL. Mário Filho, o cronista esportivo “criador das multidões”. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional. (BNDigital) JORNAL DOS SPORTS. Grito de Guerra do Vasco. Rio de Janeiro, 17 out. 1945, p. 3. Crônica de Álvaro do Nascimento Rodrigues. A referência e a transcrição da crônica são reproduzidas em fontes posteriores. (CASACA! A Comunidade 101% vascaína.) O IMPARCIAL. Concursos aquáticos dos Supimpas. Rio de Janeiro, 28 mar. 1936, p. 7. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. (Hemeroteca Digital) DIARIO DE NOTICIAS. Registro do torneio interno de basquetebol dos Supimpas, 1933. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. (Hemeroteca Digital) MÁRIO FILHO. O negro no futebol brasileiro. Rio de Janeiro: diversas edições. [Na versão definitiva, vale indicar a edição efetivamente consultada.] NASCIMENTO, Álvaro do. Crônicas publicadas no Jornal dos Sports, especialmente a coluna Uma Pedrinha na Chuteira, assinada sob o pseudônimo Zé de São Januário. FONTES ICONOGRÁFICAS E HEMEROGRÁFICAS. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional; acervo histórico do Club de Regatas Vasco da Gama.
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