sexta-feira, 6 de novembro de 2026

JOAQUIM MELLO DA CUNHA ## Um empresário, uma liderança e uma vida dedicada ao Vasco da Gama

# Na história do Club de Regatas Vasco da Gama, muitos personagens tiveram sua importância reconhecida pelos cargos que ocuparam, pelas conquistas esportivas ou pelos serviços prestados à instituição. Outros, entretanto, exerceram uma influência que ultrapassou as funções administrativas, tornando-se referências na vida política e associativa do clube. Joaquim Mello da Cunha pertence a esse segundo grupo. Empresário do ramo de calçados, homem de reconhecida posição social e uma das principais lideranças da política vascaína de seu tempo, Joaquim Mello da Cunha construiu uma trajetória profundamente ligada ao Vasco. Grande Benemérito da instituição, foi vice-presidente em diferentes administrações, chegou a exercer interinamente a presidência e teve participação importante em iniciativas relacionadas à preservação da memória e ao desenvolvimento do clube. De origem portuguesa, estabeleceu-se no Brasil, onde se tornou brasileiro naturalizado e desenvolveu suas atividades empresariais. Industrial do setor de calçados, esteve ligado às empresas Polar e D.N.B., alcançando posição de destaque no meio comercial carioca. Seu perfil foi retratado em uma reportagem da revista *Manchete*, que apresentou um homem de hábitos refinados, educado e integrado à vida social do Rio de Janeiro. Era sócio do Jockey Club, do Itanhangá Golf Club e do Ginástico Português. Gostava de praticar golfe, jogar voleibol e realizar frequentes viagens à Europa. Aos sábados, costumava reunir os cunhados para partidas de voleibol em sua quadra particular. Apesar dos compromissos empresariais e sociais, mantinha uma rotina de presença em São Januário, onde comparecia diariamente, geralmente entre 18h30 e 19h30. Sua ligação com o Vasco, entretanto, vinha de muito antes de alcançar os postos de direção. Entre 1920 e 1935, participou diversas vezes de regatas íntimas promovidas pelo clube, demonstrando que sua identificação com a instituição estava associada às próprias raízes esportivas do Vasco, ainda fortemente ligadas ao remo. ### A vida administrativa e a contribuição ao clube A participação de Joaquim Mello da Cunha na administração vascaína ganhou maior expressão a partir da década de 1950. Ocupou a vice-presidência nos períodos de 1952–1953 e 1967–1968, além de ter exercido interinamente a presidência do clube, substituindo Ciro Aranha. Sua atuação não se limitava às questões administrativas. Em 1955, teve participação de destaque na construção do Museu do Vasco, iniciativa de grande significado para a preservação da memória institucional e das conquistas esportivas do clube. A importância dessa contribuição merece ser lembrada, pois demonstra sua preocupação com a história vascaína e com a transmissão de seu patrimônio às gerações seguintes. Também esteve envolvido em decisões importantes para o fortalecimento esportivo da instituição. A reportagem da *Manchete* o aponta como um dos grandes responsáveis pela aquisição do jogador Pinga, contratação que marcou uma fase de importantes investimentos no futebol vascaíno. Em reconhecimento aos serviços prestados, recebeu o título de Grande Benemérito, distinção que expressava o respeito e a consideração conquistados ao longo de sua trajetória. ### A Tradição Vascaína e a liderança política Talvez uma das dimensões mais importantes de sua história esteja relacionada à política interna do Vasco da Gama. Joaquim Mello da Cunha foi uma das principais lideranças da Tradição Vascaína, corrente política que exerceu influência significativa na vida institucional do clube entre 1958 e 1979. Sua formação esteve ligada ao movimento de reorganização administrativa que buscava renovar o Conselho Deliberativo e estabelecer uma nova orientação para a presidência vascaína. Nesse processo, Joaquim esteve ao lado de Ciro Aranha e Antônio Ceppas, dois personagens de grande expressão na vida política do clube. Sua relação com Antônio Ceppas era particularmente próxima, assim como a amizade e a confiança que mantinha com Ciro Aranha. A crônica intitulada *Uma pedrinha na chuteira*, assinada por Álvaro Nascimento e publicada no *Jornal dos Sports* em setembro de 1969, constitui um dos testemunhos mais importantes sobre essa atuação. Ao recordar a trajetória de Joaquim, o jornalista destacou sua participação ao lado de Ciro Aranha e Antônio Ceppas na campanha de reorganização do Vasco. Segundo o cronista, Joaquim foi um dos principais sustentáculos da Tradição Vascaína desde seus primeiros anos, contribuindo para a consolidação de uma corrente que reunia figuras representativas da comunidade vascaína. Álvaro Nascimento ressaltou seu idealismo e sua maneira particular de exercer a liderança. Embora fosse uma figura de grande influência, Joaquim não era descrito como um dirigente autoritário ou impositivo. Sua força estava na serenidade, na capacidade de articulação e na confiança que inspirava entre seus companheiros. A crônica revela também uma característica importante de sua personalidade política: Joaquim acreditava no trabalho coletivo e na força dos grandes grupos vascaínos. Sua liderança não dependia de ocupar permanentemente o primeiro plano, mas de participar ativamente das decisões e contribuir para os rumos da instituição. A Tradição Vascaína permaneceria influente até 1979, uma década depois de sua morte. Assim, embora não tenha acompanhado o encerramento daquele ciclo político, Joaquim foi um dos personagens fundamentais de sua formação e consolidação. ### O reconhecimento de seus contemporâneos A dimensão humana e institucional de Joaquim Mello da Cunha também ficou registrada em outra homenagem publicada em setembro de 1969, desta vez por José Araújo, em *O Jornal*. O jornalista destacou a perda representada por seu falecimento, ressaltando sua condição de Grande Benemérito e os serviços inestimáveis prestados ao Vasco da Gama. Recordou suas passagens pela vice-presidência e sua atuação como presidente interino. Ao descrevê-lo, José Araújo ressaltou a serenidade e a tranquilidade de Joaquim, qualificando-o como um autêntico líder, que não precisava impor sua autoridade para ser respeitado. Destacou também o homem dedicado à família, aos negócios e ao Vasco. A homenagem ganhou um significado especial quando o jornalista propôs que o Conselho Deliberativo sugerisse à diretoria administrativa a inclusão do nome de Joaquim Mello da Cunha no Museu de Troféus de São Januário. Era uma maneira de perpetuar a memória de alguém que havia contribuído para a própria construção daquele espaço de preservação histórica. As duas manifestações jornalísticas, publicadas por ocasião de sua morte, oferecem testemunhos complementares. Enquanto José Araújo enfatizou o homem, o dirigente e sua dedicação ao Vasco, Álvaro Nascimento procurou explicar a importância de sua liderança na política interna do clube. ### Família e memória Por trás do empresário e do dirigente havia também um homem de família. Joaquim Mello da Cunha foi casado desde 1939 com Maria Elisa Pádua Soares Mello da Cunha com quem teve filhas ( uma delas Ana Lucia Soares Mello da Cunha 1942-1988) e um filho, Joaquim Soares Mello da Cunha, nascidem 1940 e falecido em 2025. Faleceu em setembro de 1969, aos 74 anos, e foi sepultado no Cemitério de São João Batista, no Rio de Janeiro. Sua morte representou uma perda significativa para o ambiente vascaíno, que naquele período também lamentava o desaparecimento de outras importantes figuras ligadas à instituição. A dimensão de sua importância pode ser percebida justamente pelas homenagens publicadas por ocasião de seu falecimento. Não se tratava apenas da despedida de um ex-vice-presidente ou de um Grande Benemérito, mas da perda de uma liderança que havia participado ativamente da construção política e institucional do Vasco. Joaquim Mello da Cunha foi um personagem de múltiplas dimensões: empresário de sucesso, homem de hábitos sociais refinados, esportista, dirigente e articulador político. Sua participação na construção do Museu do Vasco, sua presença na administração do clube, sua proximidade com Ciro Aranha e Antônio Ceppas e, sobretudo, sua liderança na Tradição Vascaína constituem elementos fundamentais para compreender sua contribuição. Resgatar sua trajetória é também recuperar parte de uma época em que a vida do Vasco da Gama era construída por dirigentes cuja atuação ultrapassava os limites do futebol, alcançando o associativismo, a política institucional e a preservação da memória histórica. Grande Benemérito, Joaquim Mello da Cunha deixou sua marca em São Januário e na história política do Club de Regatas Vasco da Gama. Seu nome merece ocupar um lugar de destaque entre aqueles que ajudaram a construir a identidade e a grandeza da instituição.

Marcadores:

0 Comentários:

Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]

<< Página inicial