quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Antonio Ceppas: o grande amigo do Vasco e guardião de sua memória

# **Castanheira de Pêra, 26 de fevereiro de 1895 – Rio de Janeiro, 9 de outubro de 1979** A trajetória de Antonio Ceppas confunde-se com a história de uma geração de imigrantes portugueses que encontrou no Brasil oportunidades para construir uma vida de realizações empresariais, sociais e associativas. Empresário de sucesso, dirigente esportivo, benemérito da comunidade portuguesa e uma das figuras mais respeitadas do Club de Regatas Vasco da Gama, Ceppas dedicou décadas de sua existência à construção e à preservação de instituições que considerava parte de sua própria vida. Nascido em Castanheira de Pêra, em Portugal, em 26 de fevereiro de 1895, chegou ao Brasil em 1910. Iniciou sua trajetória profissional na Casa José Silva & Cia., empresa na qual construiu carreira sólida e alcançou posições de destaque, participando de sua expansão e consolidação entre as mais importantes organizações comerciais ligadas à colônia portuguesa no Rio de Janeiro. Sua ligação com o Vasco da Gama teve início ainda na década de 1910. Associado desde a juventude, acompanhou praticamente toda a evolução do clube ao longo do século XX. Viveu os anos pioneiros da agremiação, testemunhou a construção de São Januário e assistiu ao crescimento do Vasco como uma das maiores instituições esportivas do país. Muito antes de receber os títulos honoríficos pelos quais seria lembrado, Ceppas participou ativamente da administração vascaína. Em 1933, durante a gestão de Visconde de Morais, exerceu a Vice-Presidência do clube, demonstrando que sua dedicação ao Vasco ia além da condição de associado ou torcedor. Sua presença nos órgãos dirigentes refletia a confiança que inspirava entre os principais líderes da instituição. Em 1942, ingressou no Conselho Deliberativo, iniciando uma longa trajetória de participação na vida política do clube. O reconhecimento veio de forma natural. Em 1949 recebeu o título de Benemérito e, em 1954, foi elevado à condição de Grande Benemérito, uma das maiores distinções concedidas pelo Vasco da Gama. Embora tenha exercido funções administrativas relevantes, sua contribuição mais duradoura foi a preservação da memória vascaína. Em uma época em que poucos clubes brasileiros se preocupavam com seus acervos históricos, Antonio Ceppas compreendeu a importância de conservar os símbolos materiais da trajetória do Vasco. Essa visão se materializou nos trabalhos de reorganização e modernização da Sala de Troféus de São Januário. Inaugurado em 1951, o espaço passou por uma profunda reformulação concluída em agosto de 1960, conduzida principalmente por Antonio Ceppas e Joaquim Melo da Cunha. Mais do que organizar objetos e conquistas esportivas, o trabalho representava a preservação da identidade de uma instituição já então detentora de uma história excepcional. Graças a iniciativas como essa, parte importante da memória vascaína foi preservada para as gerações futuras. A dedicação à história do clube estava associada ao seu compromisso com as tradições vascaínas. Patrono da corrente Tradição Vascaína, era respeitado por diferentes grupos políticos e reconhecido como voz de equilíbrio e experiência. Apesar da influência que exercia nos bastidores, evitava protagonismos. Uma reportagem publicada em 1972, intitulada *Antonio Ceppas – Um Grande Amigo do Vasco*, registrou uma característica que marcaria sua imagem pública: “o trabalho silencioso era o seu lema”. A influência de Ceppas ultrapassava os limites do clube. Na comunidade portuguesa destacou-se por sua atuação na Real e Benemérita Sociedade Portuguesa de Beneficência. Como presidente da Comissão de Obras, desempenhou papel relevante nos esforços que resultaram na construção, ampliação e modernização do Hospital Santa Maria. Seu trabalho foi reconhecido com a concessão da Cruz Humanitária em 1960. O jornalista Pedro Nunes, em homenagem publicada no Jornal dos Sports após seu falecimento, definiu Antonio Ceppas como um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento do Hospital Santa Maria, destacando sua dedicação à Beneficência Portuguesa e às causas assistenciais da comunidade luso-brasileira. A mesma crônica revelou um aspecto importante de sua personalidade: a capacidade de reunir pessoas. Proprietário da Casa Benfica, uma ampla chácara em Teresópolis, Ceppas transformou o local em ponto de encontro de amigos, empresários, dirigentes esportivos e representantes da colônia portuguesa. Segundo Pedro Nunes, a propriedade recebia frequentemente companheiros vascaínos como Cyro Aranha, Cordinha, Oswaldo Moreira, Joaquim Melo da Cunha e Antônio Souza Lemos. Foi também em sua Casa Benfica que promoveu recepções para grupos folclóricos vindos de Portugal, fortalecendo os laços culturais entre sua terra natal e o Brasil. Esses encontros revelam um homem que valorizava tanto as instituições quanto as relações humanas construídas em torno delas. Entre suas paixões pessoais estava o golfe, esporte que praticava regularmente. Pedro Nunes recordou que, durante os encontros em Teresópolis, era comum que Ceppas se ausentasse para jogar enquanto os convidados desfrutavam da programação social organizada na propriedade. Frequentador dos círculos sociais mais tradicionais da cidade, mantinha igualmente vínculos com o Jockey Club Brasileiro, participando ativamente da vida social carioca. Sua residência no Leblon também ocupou lugar de destaque em sua trajetória. Projetada pelo arquiteto Jorge Machado Moreira, com paisagismo de Roberto Burle Marx e interiores de John Graz, a Casa Antonio Ceppas tornou-se referência da arquitetura moderna brasileira. Concluída em 1958, recebeu reconhecimento na VI Bienal Internacional de São Paulo, em 1961. A residência entrou igualmente para a história vascaína. Após a conquista do Super-Supercampeonato Carioca de 1958, um dos títulos mais marcantes da história do clube, foi ali que dirigentes, atletas e convidados se reuniram para as comemorações da conquista, evidenciando o prestígio de Antonio Ceppas no universo vascaíno. Antonio Ceppas faleceu no Rio de Janeiro em 9 de outubro de 1979. Sua morte mobilizou representantes do empresariado, do esporte, da comunidade portuguesa e do associativismo carioca. As homenagens prestadas por amigos e contemporâneos deixaram evidente a dimensão de sua trajetória. Mais do que empresário, dirigente ou benemérito, Antonio Ceppas foi um construtor de instituições. Participou da administração do Vasco, ajudou a preservar sua memória histórica, colaborou para o fortalecimento da Beneficência Portuguesa e cultivou uma extensa rede de amizades que aproximava o clube da comunidade portuguesa e da sociedade carioca. Seu legado permanece associado não apenas às realizações materiais que ajudou a construir, mas também aos valores que orientaram sua vida: discrição, generosidade, espírito associativo e dedicação permanente às instituições que amava. Entre elas, nenhuma ocupou lugar tão especial quanto o Club de Regatas Vasco da Gama, ao qual dedicou cerca de sete décadas de sua existência e parte significativa de seu trabalho silencioso.

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