RAUL DA SILVA CAMPOS: O HOMEM QUE AJUDOU A CONSTRUIR O VASCO MODERNO
Do jovem imigrante português ao presidente de São Januário: a trajetória de um dos principais dirigentes da história vascaína. Por Jorge Medeiros | Memória do Torcedor Vascaíno O jovem imigrante português No final do século XIX, milhares de jovens portugueses atravessaram o Atlântico em busca de oportunidades no Brasil. Entre eles estava Raul da Silva Campos, nascido em 2 de outubro de 1886, na cidade de Póvoa do Varzim, em Portugal, terra natal do escritor Eça de Queiroz. Em 1898, aos 12 anos, Raul desembarcou no Rio de Janeiro. Sua chegada coincidiu com o ano de fundação do Club de Regatas Vasco da Gama, instituição à qual dedicaria grande parte de sua existência. Pouco se conhece sobre sua infância em Portugal e os primeiros anos na capital brasileira. Entretanto, sua trajetória revela um jovem interessado nas práticas esportivas que conquistavam espaço entre a juventude carioca. Em 1903, ingressou no Vasco, dedicando-se inicialmente à ginástica e ao remo. Naqueles tempos, as regatas estavam entre os espetáculos esportivos mais populares do Rio de Janeiro. O Vasco começava a conquistar prestígio nas competições náuticas, alcançando os títulos de 1904 e 1905. Raul também incentivou a vinda de seu irmão mais novo, Antonio da Silva Campos, que chegou ao Brasil em outubro de 1902. Os dois jovens portugueses encontrariam no clube um ambiente de convivência, amizade e participação esportiva. Ao longo das décadas seguintes, os irmãos Campos se tornariam personagens fundamentais da história vascaína. O comerciante e os irmãos Campos Enquanto frequentava o Vasco, Raul desenvolvia suas atividades comerciais. Tornou-se proprietário da Casa Campos e, posteriormente, adquiriu a Casa Sportman, estabelecimento especializado em artigos esportivos. O crescimento do comércio de materiais esportivos acompanhava a popularização das atividades físicas e a expansão do futebol no Rio de Janeiro. Raul e Antonio possuíam personalidades distintas. Os relatos memorialísticos apresentam Raul como um homem racional, pragmático e habilidoso nos negócios. Antonio, por sua vez, era conhecido pelo temperamento emotivo e pela dedicação quase ilimitada às atividades vascaínas. Essas diferenças também se manifestaram em suas trajetórias profissionais. Enquanto Raul alcançou prosperidade comercial, Antonio enfrentou dificuldades financeiras que culminaram na falência de seu estabelecimento. Posteriormente, encontrou apoio no irmão, que lhe ofereceu trabalho na Casa Sportman. Apesar dos temperamentos diferentes, os dois compartilhavam uma profunda identificação com o Vasco. Juntos, participariam da transformação de uma agremiação essencialmente dedicada ao remo em um dos grandes clubes de futebol do Brasil. A primeira presidência e a introdução do futebol Aos 29 anos, Raul Campos assumiu pela primeira vez a presidência do Vasco, em 7 de outubro de 1915, após a renúncia de Alfredo Rebello Nunes. Seu mandato duraria poucos meses, mas seria decisivo para o futuro da instituição. Naquele momento, o futebol conquistava rapidamente a preferência da juventude carioca. Apesar disso, parte expressiva dos associados vascaínos, especialmente os ligados ao remo, resistia à introdução da modalidade. Raul compreendeu a importância do novo esporte para a expansão do clube. Uma de suas estratégias foi defender a incorporação do Lusitania Sport Club, agremiação futebolística formada por integrantes da comunidade portuguesa. Em 26 de novembro de 1915, uma reforma estatutária oficializou a prática do futebol no Vasco. No ano seguinte, o clube disputaria seu primeiro campeonato oficial, na terceira divisão carioca. Vasco +1 O futebol começava a conquistar seu espaço na instituição, e Raul Campos seria um dos principais responsáveis por essa transformação. Os Camisas Negras e a ascensão vascaína A década de 1920 representou um período de profundas mudanças na história do Vasco. Com a crescente popularização do futebol, o clube passou a investir na formação de equipes competitivas. Raul Campos e seu irmão Antonio tiveram participação importante nesse processo. Em 1923, durante a presidência de Antonio Campos, o Vasco conquistou o Campeonato Carioca com os históricos Camisas Negras, equipe formada por jogadores de diferentes origens sociais e raciais. A conquista representou um marco esportivo e social. O sucesso vascaíno incomodou parte das agremiações tradicionais, que no ano seguinte organizaram uma nova entidade, a Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (AMEA). Em abril de 1924, o presidente José Augusto Prestes encaminhou à entidade a célebre Resposta Histórica, recusando as exigências que implicavam afastar jogadores vascaínos de suas competições. 11/2024 +1 Raul Campos permaneceu atuante na política interna e participou da mobilização que daria origem ao projeto mais ambicioso da história do clube: a construção de um estádio próprio. A campanha financeira para São Januário Uma das contribuições mais importantes das crônicas de Álvaro Nascimento é demonstrar que a construção de São Januário resultou de um processo coletivo, iniciado antes da segunda passagem de Raul Campos pela presidência. Segundo o memorialista, Raul participou da organização das campanhas financeiras desenvolvidas a partir do final de 1924, quando Antonio de Almeida Pinho presidia o clube. A iniciativa envolveu a mobilização dos associados, a distribuição de listas de arrecadação e a emissão de debêntures, títulos que permitiam financiar a construção. Álvaro Nascimento menciona aproximadamente 500 listas distribuídas entre os associados e debêntures de 100 mil-réis, pagáveis em prestações mensais e sem juros. O projeto contou com a participação de diferentes segmentos da comunidade vascaína. Comerciantes, trabalhadores, dirigentes e torcedores contribuíram de acordo com suas possibilidades. A documentação oficial do Vasco confirma que a campanha reuniu doações, empréstimos internos e bancários, emissão de debêntures e a ampliação do quadro associativo, conhecida como Campanha dos 10 Mil. Vasco Em 28 de março de 1925, o clube adquiriu o terreno de São Cristóvão onde seria erguido o estádio. A construção começava a deixar de ser apenas um sonho. O presidente de São Januário Eleito em dezembro de 1925, Raul Campos assumiu novamente a presidência em 15 de janeiro de 1926. Encontrou diante de si a responsabilidade de conduzir uma das maiores realizações da história do esporte brasileiro. Astuto e dinâmico, soube reunir dirigentes, empresários e associados em torno da construção do estádio. Em 17 de abril de 1926, assinou o contrato com a construtora Christiani & Nielsen. Pouco depois, em 6 de junho, foi lançada a pedra fundamental da obra. Vasco A construção mobilizou milhares de vascaínos, que acompanharam com entusiasmo o desenvolvimento dos trabalhos. Em menos de um ano, o projeto estava concluído. No dia 21 de abril de 1927, São Januário foi inaugurado diante de uma multidão, com a presença do presidente da República, Washington Luís, e de importantes autoridades esportivas brasileiras e portuguesas. O estádio se tornou o maior do Brasil naquele momento e representou uma extraordinária conquista para a comunidade vascaína. Vasco Raul Campos passava definitivamente à história como o presidente que conduziu a construção da nova casa do Vasco. O reconhecimento foi imediato. Em 9 de outubro de 1927, ainda durante sua administração, o clube inaugurou um busto de bronze em sua homenagem, obra do escultor Rodolfo Bernardelli. O monumento seria reinaugurado em agosto de 1942. Vasco O título de 1929 e a excursão europeia Raul Campos continuou à frente do Vasco durante os anos seguintes, sendo sucessivamente reeleito. Em 1929, o clube conquistou novamente o Campeonato Carioca, encerrando um período de cinco anos sem o título principal. Dois anos depois, o presidente participou de outro acontecimento histórico: a primeira excursão do futebol vascaíno à Europa. A viagem de 1931 ampliou a projeção internacional do Vasco, mas também provocou controvérsias. O clube deixou o Brasil quando liderava o Campeonato Carioca, circunstância que contribuiu para o descontentamento de parte dos associados. Durante a excursão, dois importantes jogadores, Jaguaré e Fausto, permaneceram na Europa, desfalcando a equipe. A experiência demonstrou tanto a capacidade esportiva do Vasco quanto as dificuldades enfrentadas pelo futebol brasileiro em uma época de transição entre o amadorismo e o profissionalismo. A luta pelo profissionalismo Em novembro de 1932, Raul Campos renunciou à presidência, sendo sucedido por Antonio de Almeida Pinho. Desde janeiro de 1926, havia exercido sete mandatos consecutivos, período marcado pela construção do estádio, pelo título carioca de 1929 e pela excursão europeia. Vasco Sua saída da presidência, entretanto, não significou o afastamento da política esportiva. Em 1933, participou ativamente do movimento que implantou o profissionalismo no futebol carioca, tornando-se o primeiro presidente da Liga Carioca de Football. A nova entidade reuniu clubes como Vasco, Fluminense e América, inaugurando uma nova etapa na organização do futebol brasileiro. Vasco Raul havia participado de três transformações fundamentais: a introdução do futebol no Vasco, a construção de um grande estádio e a consolidação do profissionalismo. Uma liderança além de São Januário A atuação de Raul Campos não se limitou ao Vasco. Uma reportagem publicada em 1966 recuperou episódios de sua participação em outras instituições esportivas, destacando sua presença na delegação brasileira que participou do Campeonato Sul-Americano de Remo de 1930, em Montevidéu. O texto também recordou sua trajetória empresarial e seus vínculos com entidades esportivas e recreativas. Embora não tenha voltado à presidência vascaína depois de 1932, Raul permaneceu influente na vida política do clube. Seu prestígio também se manifestava no relacionamento com antigos companheiros e dirigentes, que reconheciam sua contribuição para a expansão patrimonial e esportiva da instituição. A homenagem de 1954 Em abril de 1954, por ocasião do aniversário da inauguração de São Januário, Raul Campos recebeu uma nova demonstração de reconhecimento. Uma reportagem intitulada Homenagem aos grandes do progresso vascaíno anunciava a iniciativa de realizar um almoço em sua homenagem na sede do clube, na Rua Jardim Botânico. A matéria apresentava Raul como símbolo da fase de grandes realizações materiais do Vasco, destacando a construção do estádio e outras obras realizadas durante seus mandatos. A homenagem demonstrava que, mais de duas décadas depois de deixar a presidência, Raul continuava sendo uma referência para os associados. Seu nome permanecia associado ao período em que o Vasco consolidara sua posição entre as grandes instituições esportivas brasileiras. Os 80 anos de Raul Campos Em outubro de 1966, Raul da Silva Campos completou 80 anos. Na ocasião, uma extensa reportagem recordou sua trajetória, apresentando-o como sócio nº 1 do Vasco e destacando suas realizações esportivas. A publicação recuperou sua participação nos primeiros tempos do remo, a introdução do futebol, a construção de São Januário e suas atividades fora do clube. O octogenário ainda era uma personalidade conhecida e respeitada no ambiente esportivo. A homenagem representava o reconhecimento a uma geração de imigrantes portugueses que havia participado da transformação do esporte carioca nas primeiras décadas do século XX. A amizade com Álvaro Nascimento Entre os personagens que preservaram a memória de Raul Campos, destacou-se Álvaro Nascimento, o popular Zé de São Januário. O jornalista dedicou diversas crônicas ao antigo presidente, recuperando acontecimentos administrativos, episódios pessoais e lembranças de uma amizade construída ao longo de décadas. Em uma dessas crônicas, Álvaro recordou a participação de Raul na campanha financeira iniciada em 1924, ressaltando sua contribuição para a construção do estádio. Também revelou um episódio pouco conhecido: Raul Campos foi responsável pela construção do altar e do piso da Capela de Nossa Senhora das Vitórias, em São Januário. A informação demonstra que seu envolvimento com a instituição ultrapassava as atividades administrativas e esportivas. Álvaro também recordou uma visita à família de Raul, ocasião em que recebeu do antigo presidente uma pequena reprodução em bronze da estátua de Vasco da Gama. A amizade entre os dois se prolongaria até os últimos anos de vida do dirigente. A despedida de Raul Campos Documento histórico — setembro de 1969 A missa de sétimo dia Em setembro de 1969, o Vasco publicou um anúncio convidando associados, desportistas, parentes e amigos para a missa de sétimo dia de Raul Campos. A cerimônia foi marcada para segunda-feira, 15 de setembro, às 11 horas, no altar-mor da Igreja de São Francisco de Paula, no centro do Rio de Janeiro. A família publicou outro anúncio, agradecendo as manifestações de pesar recebidas. Raul da Silva Campos faleceu em setembro de 1969, aos 82 anos. Sua morte encerrou uma trajetória de mais de seis décadas de participação na vida vascaína. O clube prestou-lhe homenagens religiosas e destacou sua condição de Grande Benemérito e antigo presidente. Álvaro Nascimento, que acompanhara grande parte de sua trajetória, registrou em uma de suas crônicas uma homenagem particularmente pessoal: a construção do túmulo de Raul Campos no Cemitério de São João Batista. A lembrança do memorialista revela uma dimensão humana da relação entre o dirigente e aqueles que compartilharam com ele os momentos de crescimento do Vasco. O legado de um construtor Raul da Silva Campos pertence a uma geração de dirigentes que participou diretamente da transformação do Vasco da Gama. Chegou ao Brasil ainda menino, quando o clube dava seus primeiros passos. Tornou-se associado durante os tempos gloriosos do remo, incentivou a introdução do futebol e participou da formação da estrutura administrativa que sustentaria as conquistas dos Camisas Negras. Sua atuação na construção de São Januário permanece como um dos capítulos centrais de sua trajetória. Ao lado de outros dirigentes, associados e milhares de torcedores, contribuiu para transformar o sonho de um estádio próprio em realidade. Posteriormente, participou da organização do futebol profissional e continuou ligado ao ambiente esportivo brasileiro. As homenagens recebidas em vida, especialmente em 1954 e 1966, demonstram o reconhecimento que sua geração lhe dedicou. Mais do que um presidente de muitos mandatos, Raul Campos foi um dos protagonistas da passagem do Vasco de um clube de regatas para uma instituição esportiva de projeção nacional. Seu nome permanece associado à construção de São Januário, às primeiras grandes conquistas do futebol vascaíno e à história dos imigrantes portugueses que ajudaram a construir o Vasco moderno. Fontes e documentação histórica Esta versão reúne seu artigo publicado em junho de 2024, as crônicas de Álvaro Nascimento e os recortes de imprensa que você compartilhou, incluindo as homenagens de 1954 e 1966 e os anúncios religiosos de setembro de 1969. A cronologia presidencial e os dados relativos à construção de São Januário foram confrontados com a relação oficial de presidentes e o histórico de São Januário publicados pelo Vasco. Para a versão definitiva destinada ao blog, restam apenas algumas verificações documentais: identificar os jornais e as datas exatas dos recortes, confirmar o dia do falecimento de Raul e conferir integralmente os trechos das crônicas de Álvaro Nascimento que aparecem cortados nas imagens.
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