sábado, 3 de outubro de 2026

Lasca o Pau: os pioneiros da torcida vascaína entre o remo, o futebol e o carnaval

Desde 1917, uma turma de amigos acompanhava as competições do Vasco, organizava festas e excursões e participava das rivalidades esportivas. Sua história ajuda a compreender as origens da torcida vascaína e a intensa vida social dos clubes de remo do Rio de Janeiro. Por Jorge Medeiros Uma turma de amigos apaixonados pelo Vasco Muito antes do surgimento das grandes torcidas organizadas, o Club de Regatas Vasco da Gama já contava com grupos de torcedores que acompanhavam suas competições esportivas, organizavam atividades recreativas e participavam intensamente da vida social do clube. Entre essas primeiras manifestações coletivas da torcida vascaína, destacou-se uma turma conhecida pelo curioso e provocativo nome de Lasca o Pau. Reunido a partir de 1917, o grupo era formado por amigos que acompanhavam o Vasco nas competições de remo e futebol. Seus integrantes frequentavam as regatas e os campos onde o clube disputava suas partidas, demonstrando entusiasmo e disposição para defender as cores vascaínas. O Lasca o Pau surgiu em uma época de profundas transformações no esporte carioca. O remo ainda ocupava posição de destaque na vida esportiva da cidade, enquanto o futebol conquistava um público cada vez maior. Nesse ambiente, os torcedores começavam a desenvolver novas formas de organização e de identificação com seus clubes. A turma reunia características que posteriormente seriam encontradas nas torcidas organizadas: a presença coletiva nas competições, a identificação com o clube, a convivência entre seus integrantes e a rivalidade com os adversários. Entretanto, sua atuação não se limitava aos acontecimentos esportivos. O Lasca o Pau também organizava festas, passeios, excursões e atividades carnavalescas, constituindo um importante espaço de sociabilidade entre os vascaínos. A rivalidade esportiva e os primeiros grupos de torcedores O nome Lasca o Pau traduzia o espírito provocador de seus integrantes. Em uma época em que as rivalidades esportivas frequentemente ultrapassavam os limites das competições, a turma também se envolvia em brigas com torcedores adversários. A atuação desses primeiros grupos deve ser compreendida no contexto das disputas esportivas do início do século XX, quando os confrontos entre clubes mobilizavam associados, atletas e torcedores. As lembranças preservadas pelo jornalista e memorialista Álvaro Nascimento são especialmente importantes para recuperar esse universo. Em suas crônicas, o jornalista registrou histórias de antigos vascaínos e personagens que participaram da formação da torcida do clube. Entre os nomes associados àqueles primeiros grupos aparecem Rafael Verri, Aquiles Astuto, Adão Brandão e Edgar Lody Batalha. A identificação precisa de todos os integrantes do Lasca o Pau, entretanto, ainda depende de pesquisas complementares. Mais do que simplesmente assistir às competições, aqueles torcedores faziam da defesa do Vasco uma experiência coletiva, marcada pela amizade, pela paixão esportiva e, por vezes, pelos confrontos com os adversários. O carnaval e a vida social da Rua Santa Luzia Uma das características mais interessantes do Lasca o Pau era sua intensa participação nas festividades carnavalescas. Na década de 1920, os clubes de remo instalados na região da Rua Santa Luzia desempenhavam papel importante na organização do carnaval carioca. Além das competições esportivas, promoviam bailes, batalhas de confetes, banhos de mar à fantasia e outras atividades recreativas. O Vasco participava ativamente desse ambiente festivo, e o Lasca o Pau era uma das expressões dessa tradição. Os recortes de jornais da época permitem documentar algumas dessas atividades e revelam que a turma possuía uma organização própria para promover seus eventos. Uma notícia publicada na imprensa carioca informa que a comissão do Lasca o Pau pretendia realizar um banho de mar à fantasia, convidando os associados do Vasco a participar da iniciativa. O anúncio é particularmente significativo porque demonstra a existência de uma comissão responsável pela organização das atividades do grupo. Também evidencia sua integração à vida social do clube. O Lasca o Pau, portanto, não era apenas uma reunião informal de torcedores que acompanhavam as competições. Seus integrantes também promoviam acontecimentos recreativos que mobilizavam outros associados e contribuíam para fortalecer os vínculos de amizade entre os vascaínos. As excursões e a convivência com outros clubes A participação do Lasca o Pau nas atividades carnavalescas não se restringia à sede vascaína. Uma notícia de 1923 registra a presença do grupo entre os participantes de uma excursão carnavalesca organizada pelo bloco Espanta Secos, com destino a Guaratiba. A programação incluía banho de mar e atividades recreativas, reunindo representantes de diferentes associações. O documento revela um aspecto interessante da sociabilidade esportiva daquele período: apesar das rivalidades existentes nas competições, integrantes de diferentes clubes também participavam de atividades recreativas conjuntas. As excursões, os passeios e as festividades contribuíam para ampliar as relações sociais dos associados, aproximando o universo esportivo das manifestações populares do carnaval carioca. Uma noite de festa até o nascer do sol Outro documento especialmente interessante anuncia uma grande batalha de confetes na Rua Santa Luzia, promovida pelos clubes de regatas locais em homenagem ao prefeito Antônio Prado Júnior. A programação previa quatro bandas de música militares, distribuição de prêmios e uma comissão julgadora formada por senhoritas, presidida pela esposa do prefeito. Entre as atrações, destacava-se uma festa organizada pelo Lasca o Pau na sede do Vasco. Segundo a notícia, a turma promoveria um baile animado por uma jazz-band, destinado a alegrar os associados até o nascer do sol. O documento menciona ainda um personagem conhecido pelo curioso apelido de "Lord Só na Brahma", que exerceria a função de secretário da comissão. A notícia oferece um retrato da atmosfera descontraída dessas festas, nas quais música, humor e convivência social se misturavam ao entusiasmo esportivo. A identificação desse personagem constitui uma pista interessante para futuras pesquisas sobre os integrantes e a organização interna do Lasca o Pau. O carnaval dos clubes de remo em 1925 Uma reportagem publicada em 1925 permite compreender melhor a importância dos clubes de remo da Rua Santa Luzia na organização das festividades carnavalescas. Sob o título A César o que é de César, o jornal descrevia os preparativos de uma festa organizada conjuntamente pelos quatro clubes náuticos da região. A programação incluía banho de mar à fantasia, brincadeiras e distribuição de prêmios. O texto também destacava a participação de senhoritas e dirigentes na organização das atividades. Essas notícias ajudam a situar o Lasca o Pau em um ambiente no qual a prática esportiva e as atividades recreativas estavam profundamente relacionadas. É importante distinguir as iniciativas promovidas diretamente pelo grupo daquelas organizadas conjuntamente pelos clubes de remo. Os documentos demonstram que o Lasca o Pau participava desse universo festivo, mas nem todas as atividades anunciadas podem ser atribuídas exclusivamente à turma. O Lasca o Pau na memória do carnaval carioca Décadas depois, o grupo continuaria presente na memória dos antigos vascaínos. Em 1964, uma crônica publicada na coluna Uma Pedrinha na Chuteira, assinada por Zé de São Januário, lamentava o desaparecimento de antigas tradições carnavalescas ligadas ao Vasco. O cronista recordava o Lasca o Pau e o Bloco das Baianas da Orgia, manifestações que haviam marcado o carnaval dos clubes de remo. Também mencionava a marchinha Teu Cabelo Não Nega, de Lamartine Babo, associada às antigas rivalidades carnavalescas entre o Vasco e o Batalhão Naval. A crônica é um testemunho importante da permanência dessas manifestações na memória vascaína. Embora não permita determinar exatamente quando o Lasca o Pau encerrou suas atividades, demonstra que sua lembrança ainda estava viva na década de 1960. Outra reportagem, publicada em 1977, voltou a recordar a participação dos clubes de remo no carnaval carioca. O texto mencionava os blocos Lasca o Pau e Baianas da Orgia, ligados ao Vasco, além de agrupamentos carnavalescos de outras associações esportivas. Esses registros demonstram que as festas organizadas pelos clubes náuticos constituíram uma tradição importante na vida cultural do Rio de Janeiro. Uma página da história da torcida vascaína A história do Lasca o Pau permite recuperar uma dimensão pouco conhecida das origens da torcida do Vasco. Formado por amigos que acompanhavam o clube nas competições de remo e futebol, o grupo também participava ativamente da vida recreativa e carnavalesca da cidade. Suas atividades demonstram que a identidade vascaína era construída não apenas nos momentos de disputa esportiva, mas também nas festas, nas excursões, nos encontros entre amigos e nas experiências compartilhadas pelos associados. O Lasca o Pau pertence a uma geração de torcedores que antecedeu o aparecimento das grandes organizações das arquibancadas. Sua trajetória ajuda a compreender as transformações da cultura de torcida, desde os pequenos grupos de amigos até as manifestações coletivas que posteriormente ganhariam maior visibilidade no futebol brasileiro. Recuperar sua história significa também preservar a memória de personagens e tradições que contribuíram para a formação da identidade popular do Vasco da Gama.

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