CYRO ARANHA O HOMEM QUE CONSTRUIU O EXPRESSO DA VITÓRIA
A trajetória de Cyro Aranha tem potencial para um filme histórico de grande alcance, porque permite cruzar três dimensões: a formação de um homem vindo do interior do Rio Grande do Sul, a transformação política do Brasil entre 1930 e 1945 e a construção de uma das maiores equipes da história do Vasco. Um ponto importante para o roteiro: as fontes consultadas confirmam que Cyro nasceu em Alegrete em 15 de abril de 1901, morreu no Rio de Janeiro em 17 de julho de 1985, foi presidente do Vasco em diferentes períodos e era irmão de Oswaldo Aranha e Luiz Aranha. O próprio Vasco registra sua primeira posse em 17 de dezembro de 1942. (Wikipédia) A documentação jornalística de 1942 também mostra Cyro apresentando um projeto de reorganização ampla do clube. (Hemeroteca Digital) Há, porém, alguns detalhes da juventude — especialmente a formação na Alemanha e sua atuação pessoal na Revolução de 1930 — que eu trataria no filme como elementos a serem aprofundados documentalmente antes da versão definitiva. CYRO ARANHA O HOMEM QUE CONSTRUIU O EXPRESSO DA VITÓRIA Roteiro para filme biográfico Gênero: Drama histórico / biografia / futebol Período: 1901–1985 Locações principais: Alegrete e interior do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Alemanha, São Januário Duração estimada: 120 minutos PRÓLOGO — 1985 CENA 1 — INT. HOSPITAL — NOITE Rio de Janeiro. 1985. Um homem idoso está internado. É CYRO ARANHA. A respiração é difícil. Sobre a mesa, ao lado da cama, há fotografias antigas. Uma delas mostra um time do Vasco. Outra mostra São Januário. Outra mostra Cyro ainda jovem. Ele segura uma pequena flâmula do Vasco. O som distante de uma torcida começa a aparecer. VOZ DE CYRO, EM OFF: "Enquanto houver um coração que bata pelo Vasco..." Silêncio. Corte para preto. LETREIRO: ALEGRETE — RIO GRANDE DO SUL — 1901 ATO I — O MENINO DO CAMPO CENA 2 — EXT. ESTÂNCIA — AMANHECER Paisagem do Rio Grande do Sul. Campos imensos. Cavalos. Gado. Um menino corre pela propriedade da família. É CYRO, ainda criança. A câmera acompanha o menino observando os adultos trabalhando. Seu pai, EUCLIDES EGYDIO DE SOUSA ARANHA, é um homem de prestígio na região. A família pertence a um universo rural tradicional, mas os filhos serão educados para viver num Brasil que está mudando. Cyro observa um trem ao longe. O pai se aproxima. PAI: — Um dia você vai conhecer o mundo, Cyro. O menino olha para o horizonte. ATO II — A CAPITAL CENA 3 — EXT. RIO DE JANEIRO — ANOS 1910 — DIA O Rio de Janeiro da Primeira República. Bondes. Rua do Ouvidor. Porto. Avenida Central. Palácio do Catete. Marinha. Jornais nas bancas. O jovem Cyro chega à capital federal. É outro mundo. Ele estudará no Rio e terá contato com uma sociedade muito diferente daquela em que cresceu. MONTAGEM Cyro lendo jornais. Cyro estudando. Cyro caminhando pelas ruas. Partidas de futebol. Remadores no cais. Clubes esportivos. A cidade começa a apresentar ao jovem gaúcho uma paixão que ainda estava se tornando fenômeno nacional: o esporte. ATO III — O MUNDO CENA 4 — EXT. EUROPA — ALEMANHA — ANOS 1920 Um navio. Cyro viaja. Depois: Berlim. Estações ferroviárias. Fábricas. Casas comerciais. Bancos. Portos. Um jovem brasileiro observa aquele mundo industrial. A formação ligada ao comércio internacional amplia sua visão. Ele percebe que o Brasil está inserido numa disputa econômica muito maior. NARRADOR: "Cyro Aranha não seria apenas um homem do esporte. Sua formação o colocaria em contato com um mundo em transformação, marcado pela industrialização, pelo comércio internacional e pelas grandes disputas políticas do século XX." ATO IV — 1930 CENA 5 — INT. SALA — RIO GRANDE DO SUL — 1930 Jornais anunciam: GETÚLIO VARGAS ALIANÇA LIBERAL WASHINGTON LUÍS REVOLUÇÃO Cyro acompanha os acontecimentos. Seu irmão OSWALDO ARANHA aparece em outra sala. Os dois conversam. Oswaldo é mais velho, experiente e profundamente envolvido com a política. OSWALDO: — O Brasil não vai continuar igual. Cyro permanece em silêncio. A tensão aumenta. MONTAGEM Trens. Soldados. Multidões. Getúlio Vargas. Porto Alegre. A marcha revolucionária. Rio de Janeiro. A queda de Washington Luís. A chegada de Vargas ao poder. A Revolução de 1930 muda definitivamente a história brasileira. ATO V — CYRO E OSWALDO CENA 6 — INT. CASA DA FAMÍLIA — NOITE Cyro e Oswaldo conversam sobre o futuro. Oswaldo já começa a se transformar numa das figuras mais importantes da política brasileira. Cyro segue outro caminho. OSWALDO: — Você poderia entrar para a política. Cyro sorri. CYRO: — Você já tem política suficiente para nós dois. Os dois riem. Pausa. CYRO: — Eu quero construir alguma coisa. OSWALDO: — E o que você quer construir? Cyro olha pela janela. CYRO: — Ainda não sei. Corte. ATO VI — NAIR CENA 7 — RIO DE JANEIRO — 1931 Uma festa. Cyro conhece NAIR DA CUNHA VASCONCELLOS. Os dois conversam. A relação se desenvolve. Casamento. LETREIRO: 1931 A câmera mostra fotografias de casamento. A vida familiar começa. Na década seguinte nascerão os três filhos: MYRIAM, LUIZA E OSWALDO EUCLYDES. O homem que começará a se tornar personagem público também constrói sua vida privada. ATO VII — O VASCO CENA 8 — EXT. SÃO JANUÁRIO — FIM DOS ANOS 1930 São Januário. Multidão. Bandeiras. Jogadores entrando em campo. Cyro está na arquibancada. Ele observa. Não olha apenas para o futebol. Observa a instituição. As pessoas. As famílias. Os trabalhadores. Os dirigentes. As crianças. O Vasco como fenômeno social. NARRADOR: "Para Cyro Aranha, o Vasco não era apenas uma equipe de futebol. Era uma instituição que reunia diferentes grupos sociais e que havia construído sua identidade em torno da luta pela afirmação esportiva e social." ATO VIII — 1942 CENA 9 — INT. SEDE DO VASCO — DEZEMBRO DE 1942 Reunião. Conselheiros. Dirigentes. Discussões. A política interna do Vasco está dividida. Cyro lidera uma corrente. A eleição acontece. LETREIRO: 17 DE DEZEMBRO DE 1942 Cyro é eleito presidente. A documentação jornalística da época descreve a posse como uma mudança importante na administração vascaína e registra sua promessa de uma verdadeira "revolução nos esportes". (Hemeroteca Digital) Cyro sobe ao palco. Silêncio. Ele olha para os presentes. CYRO: — O Vasco precisa de organização. Pausa. CYRO: — Precisamos trabalhar para o futuro. ATO IX — VARGAS E CYRO CENA 10 — PALÁCIO DO CATETE — 1942 Getúlio Vargas recebe dirigentes. O Brasil vive a Segunda Guerra Mundial. O país está em transformação. O Vasco cresce. Cyro circula nesse ambiente de grande política nacional. Em paralelo, seu irmão Oswaldo Aranha ocupa posição central no governo Vargas e na política internacional brasileira. Em 1942, Oswaldo presidiu a reunião interamericana realizada no Rio que levou ao rompimento das relações dos países americanos com as potências do Eixo. (Governo Federal) A narrativa pode estabelecer um contraste: GETÚLIO VARGAS — O ESTADO OSWALDO ARANHA — A POLÍTICA INTERNACIONAL CYRO ARANHA — O VASCO Três homens. Três espaços de poder. Uma mesma época histórica. ATO X — A REVOLUÇÃO VASCAÍNA CENA 11 — INT. SÃO JANUÁRIO — NOITE Cyro reúne seus colaboradores. Sobre a mesa: fotografias, nomes de jogadores, relatórios, documentos. Ele quer uma equipe competitiva. Mas não apenas uma equipe. Quer estrutura. Quer categorias de base. Quer outros esportes. Quer organização. A imprensa começa a questionar. DIRIGENTE: — Presidente, o torcedor quer título. Cyro responde: CYRO: — E nós vamos dar títulos. Pausa. CYRO: — Mas primeiro precisamos construir o Vasco que vai ganhar esses títulos. ATO XI — NASCE O EXPRESSO CENA 12 — MONTAGEM Jogadores chegam. BARBOSA. AUGUSTO. JAIR. LELÉ. ISAÍAS. ELY. DJALMA. CHICO. O técnico: ONDINO VIEIRA. Treinamentos. Preparação física. Jogadas ensaiadas. São Januário lotado. O time entra em campo. A torcida canta. O Vasco começa a vencer. Surge o nome: EXPRESSO DA VITÓRIA ATO XII — MAIS QUE FUTEBOL CENA 13 — SÃO JANUÁRIO Cyro caminha pelo estádio. Entra numa sala onde crianças treinam. Ele observa. Uma criança corre. Cyro sorri. A criação do Departamento Infanto-Juvenil, em 1943, torna-se uma das marcas de sua administração. A tradição vascaína atribui a Cyro a frase posteriormente associada ao projeto: "Enquanto houver um coração infantil, o Vasco será imortal." A câmera acompanha as crianças. Cyro observa. O futebol profissional é importante. Mas o futuro está ali. Nas crianças. ATO XIII — O PRESIDENTE VITORIOSO CENA 14 — MARACANÃ / SÃO JANUÁRIO — ANOS 1940 Montagem acelerada. Vasco. Taças. Torcida. Remo. Basquete. Atletismo. Natação. Tênis. Vôlei. A administração de Cyro é apresentada como um projeto esportivo amplo. Uma reportagem de 1942 já registrava justamente essa preocupação em reorganizar diversos departamentos do clube, e não apenas o futebol. (Hemeroteca Digital) ATO XIV — O TEMPO PASSA CENA 15 — MONTAGEM — 1944–1950 Cyro deixa a presidência. Volta. Participa. Observa. Conversa. O Vasco continua fazendo parte de sua vida. Ele não é mais apenas presidente. É conselheiro. É referência. É memória viva do clube. ATO XV — O HOMEM E O MITO CENA 16 — SÃO JANUÁRIO — ANOS 1950 Cyro, já mais velho, caminha pelo estádio. Um garoto o reconhece. GAROTO: — O senhor é o Cyro Aranha? Ele sorri. CYRO: — Depende. GAROTO: — O presidente? Cyro olha para o campo. CYRO: — Isso já faz muito tempo. GAROTO: — Mas o senhor ainda vem ao Vasco? Cyro responde: — Enquanto eu puder. ATO XVI — O CONSELHEIRO CENA 17 — SÃO JANUÁRIO — ANOS 1960–1970 Cyro participa das reuniões. É um homem mais velho entre dirigentes mais jovens. Ele fala pouco. Quando fala, todos escutam. O Vasco passa por crises. Trocas de presidentes. Disputas políticas. Mudanças no futebol brasileiro. Televisão. Maracanã. Novas torcidas. Novos tempos. Cyro permanece. ATO XVII — O ÚLTIMO CICLO CENA 18 — SÃO JANUÁRIO — ANOS 1980 O Vasco vive uma nova disputa política. Surge uma nova geração de dirigentes. Entre eles, Eurico Miranda. Cyro, já idoso, acompanha as movimentações. O passado encontra o futuro. Ele manifesta apoio a Eurico nas disputas políticas internas do clube. Não é mais o homem que entra em campo. É o patriarca. O conselheiro. O grande benemérito. Aquele que representa uma ponte entre o Vasco dos anos 1940 e o Vasco que entrará numa nova era. ATO XVIII — 1985 CENA 19 — INT. HOSPITAL — NOITE Cyro está muito debilitado. Eurico Miranda está ao lado dele. Os dois conversam. CYRO: — O Vasco... Eurico se aproxima. EURICO: — Pode deixar. Cyro segura sua mão. Silêncio. CENA 20 — A FLÂMULA Cyro olha para a bandeira vascaína. A câmera aproxima-se do escudo. Ele fecha os olhos. Corte para: São Januário. Vazio. Depois: São Januário lotado nos anos 1940. O Expresso da Vitória. Barbosa. Ademir. A torcida. As crianças. O estádio. Cyro jovem. Cyro presidente. Cyro velho. Tudo se mistura. EPÍLOGO CENA 21 — EXT. SÃO JANUÁRIO — AMANHECER O estádio está vazio. Uma bola rola pelo gramado. Uma criança entra em campo. Ela olha para as arquibancadas. Ouvimos novamente a voz de Cyro: "Enquanto houver um coração infantil, o Vasco será imortal." A criança corre. A câmera sobe. São Januário aparece inteiro. LETREIRO: CYRO DE SOUSA ARANHA 1901–1985 Dirigente esportivo. Presidente do Club de Regatas Vasco da Gama. Conselheiro. Grande Benemérito. Seu nome permanece ligado à construção do Expresso da Vitória e à formação de gerações de vascaínos. Fade out. FIM Observação histórica para a pesquisa do filme Eu faria uma segunda versão mais documental e menos ficcional antes de transformar esse roteiro em roteiro cinematográfico definitivo. Há material muito rico para isso. A própria lista oficial de presidentes do Vasco confirma que Cyro teve uma trajetória presidencial mais extensa do que a simples passagem de 1942: 1942–44, novo período em 1946–47 e novamente 1952–54. (Vasco da Gama) Também vale explorar como personagem central a relação Cyro–Oswaldo–Vargas. Oswaldo foi um dos principais articuladores da Revolução de 1930 e figura central do governo Vargas; isso permite colocar Cyro dentro do ambiente político de uma das grandes transformações da história republicana, sem transformar o filme numa biografia de Oswaldo. (FGV CPDOC) E há uma cena final particularmente forte para o filme: uma fonte ligada à memória de Eurico relata que, já internado em 1985, Cyro pediu para ser enterrado com uma flâmula do Vasco nas mãos, e que Eurico Miranda teria ajudado a cumprir esse desejo. É uma cena cinematograficamente muito poderosa, embora eu a trataria no roteiro como memória/testemunho a ser confrontado com fontes primárias, e não ainda como fato documental definitivo. (As Verdades de Eurico) Título alternativo que considero ainda mais forte: CYRO — ENQUANTO HOUVER UM CORAÇÃO Esse título permite que o filme seja menos uma simples biografia de presidente e mais uma história sobre memória, pertencimento, poder e paixão clubística, tendo Cyro como personagem que atravessa quase todo o século XX vascaíno. Sim. Essas novas informações melhoram muito o roteiro, porque deixam de apresentar Cyro apenas como dirigente e permitem construir um personagem com relações familiares, dilemas políticos, derrotas, festas populares e, finalmente, uma despedida profundamente vascaína. E há um cuidado histórico importante: a sequência de 1944–45 deve ser apresentada com precisão. O próprio Vasco registra que Cyro declinou de reassumir em janeiro de 1944; Castro Filho assumiu em abril de 1944 e renunciou em 1945; Jayme Fernandes Guedes o sucedeu. (Vasco da Gama) Há fonte secundária que relaciona a crise à realização de um comício de Luís Carlos Prestes em São Januário e à reação política interna do clube. (Kike da Bola) Eu acrescentaria estas seis grandes sequências ao filme: CYRO — ENQUANTO HOUVER UM CORAÇÃO Novas sequências para o roteiro 1. CYRO E NAIR — O CASAL DOS CAVALOS RIO DE JANEIRO — DÉCADA DE 1930 Não mostrar Nair apenas como "a esposa de Cyro". Ela precisa ter personalidade própria. Cyro e Nair compartilham uma paixão: os cavalos. CENA — JOCKEY CLUB Os dois chegam ao Jockey Club. Homens e mulheres elegantemente vestidos. Cavalos sendo preparados. Cyro conversa sobre um animal. Nair conhece os cavalos, observa as corridas e participa daquele universo. A câmera acompanha os dois. Eles não estão ali apenas por obrigação social. É um espaço de prazer compartilhado. NARRADOR: "Antes de ser lembrado como dirigente do Vasco, Cyro Aranha também foi um homem de seu tempo. E ao lado de Nair encontrou uma companheira com quem dividia, entre outras coisas, a paixão pelos cavalos." Corte para: CASA — NOITE Nair e Cyro conversam. Os filhos ainda pequenos brincam pela casa. A vida familiar contrasta com a crescente exposição pública de Cyro. 2. O PAI E O FILHO — COPA DE 1950 MARACANÃ — 16 DE JULHO DE 1950 O estádio está lotado. Brasil e Uruguai. Cyro está no Maracanã acompanhado de um dos filhos. É um momento íntimo. O homem que conheceu a política, a Europa, o Vasco e tantas vitórias agora está simplesmente sentado ao lado do filho, como um pai diante de uma decisão histórica. O Brasil perde. Silêncio. A multidão começa a deixar o estádio. O filho olha para o pai. FILHO: — Pai... Cyro não responde imediatamente. Olha para o gramado. Depois olha para o filho. CYRO: — Futebol é assim. Pausa. CYRO: — A gente perde hoje. Amanhã começa tudo de novo. Os dois caminham juntos pelas arquibancadas. CORTE Fotografias do Vasco. Barbosa. Ademir. São Januário. O Expresso da Vitória. A derrota de 1950 ganha outro significado. O futebol brasileiro perde uma final. Mas Cyro sabe que o futebol não termina naquela noite. 3. A FESTA CAIPIRA — GETÚLIO VARGAS EM SÃO JANUÁRIO SÃO JANUÁRIO — NOITE — DÉCADA DE 1940/1952 Bandeirinhas. Fogueiras. Barracas. Música. Comida. Famílias. Crianças. O estádio se transforma completamente. Não é apenas futebol. É uma festa popular. Cyro aparece usando roupa caipira. Está descontraído. Ri. Conversa. A câmera percorre a multidão. Então alguém avisa: ASSESSOR: — Presidente! O Getúlio está chegando. Cyro para. Olha para a própria roupa. CYRO: — Assim? Corre para o gabinete. Troca a roupa caipira por um terno. Volta. Getúlio Vargas chega acompanhado. Cyro o recebe. A festa continua. A documentação jornalística sobre os arraiais vascaínos registra a dimensão extraordinária dessas festas e a presença de Vargas; uma crônica relata que Cyro, ao saber da chegada do presidente, trocou a roupa caipira pelo terno antes de recebê-lo. (Jornal de Brasília) CENA 1952 Repetir o ambiente. Agora Cyro está novamente presidente do Vasco. Getúlio aparece na festa. Cyro observa a multidão. Vargas olha para São Januário. É uma imagem poderosa: o presidente da República dentro da casa do presidente do Vasco. 4. 1945 — O COMÍCIO DE PRESTES Esta deve ser uma das cenas políticas mais importantes do filme. SÃO JANUÁRIO — 1945 — FIM DE TARDE São Januário está sendo preparado. Palco. Microfones. Faixas. Multidão. O nome de: LUÍS CARLOS PRESTES aparece. Cyro acompanha tudo. Não é uma cena simples de "direita contra esquerda". É uma crise dentro do próprio Vasco. O estádio é uma instituição esportiva. Mas também é um dos maiores espaços públicos do Rio de Janeiro. INT. SALA DA PRESIDÊNCIA Cyro conversa com CASTRO FILHO. Os dois estão tensos. CASTRO FILHO: — O estádio foi cedido. Cyro permanece calado. CASTRO FILHO: — Agora temos que responder por isso. Do lado de fora, ouve-se a multidão. A política entrou em São Januário. A decisão provoca reação. MONTAGEM Jornais. Conselheiros discutindo. Associados protestando. Telefone tocando. Cartas. Reuniões. Finalmente: CASTRO FILHO RENUNCIA. Cyro também deixa a direção que ocupava naquele momento. O episódio deve ser mostrado como um dilema entre a autonomia do clube, a pressão política e a utilização de São Januário como espaço público. A sucessão é documentada pelo próprio Vasco: após a renúncia de Castro Filho, Jayme Fernandes Guedes assumiu em maio de 1945. (Vasco da Gama) CENA FINAL DA SEQUÊNCIA Cyro sai de São Januário. Olha para o estádio. Ele está vazio. O mesmo estádio que recebera multidões esportivas agora carrega as marcas de uma disputa política. Cyro entra no carro. Fecha a porta. Corte. 5. 1985 — A BANDEIRA QUE NÃO ESTAVA LÁ Esta precisa ser uma das cenas finais do filme. SEDE NÁUTICA — MADRUGADA O corpo de Cyro está sendo velado. Poucas pessoas. Silêncio. Eurico Miranda observa o caixão. De repente, percebe alguma coisa. Não há a flâmula do Vasco. Ele lembra do pedido de Cyro. FLASHBACK Cyro internado. Eurico ao lado da cama. CYRO: — Eurico... EURICO: — Sim? CYRO: — Quero uma coisa. Pausa. CYRO: — Quero ser enterrado com uma flâmula do Vasco nas mãos. Volta ao velório. Eurico olha para os presentes. EURICO: — Não tem uma bandeira? Ninguém responde. Então surge: MARIA EMÍLIA VIEIRA, Grande Benemérita do Vasco. Eurico pede: — Dona Maria Emília, precisamos de uma flâmula. Ela entende imediatamente. Sai. CORTE — SÃO JANUÁRIO — MADRUGADA Maria Emília chega ao estádio. São Januário está fechado e silencioso. Ela consegue entrar. Procura. Encontra um galhardete. Abraça-o. Volta. SEDE NÁUTICA Maria Emília entrega a flâmula a Eurico. Ele a coloca nas mãos de Cyro. O relato publicado sobre a despedida registra justamente essa sequência: Eurico percebeu a ausência da flâmula, contou com Maria Emília para buscar um galhardete em São Januário e colocou-o nas mãos de Cyro. (As Verdades de Eurico) Silêncio. A câmera fica nas mãos de Cyro. A cruz de malta aparece. CORTE PARA: Cyro menino no campo. Cyro adolescente no Rio. Cyro na Alemanha. Cyro com Nair. Cyro com os filhos. Cyro no Jockey Club. Cyro entrando em São Januário. Cyro presidente. O Expresso da Vitória. A festa caipira. Vargas. Prestes. O Maracanã de 1950. E finalmente: A flâmula. 6. A ÚLTIMA IMAGEM SÃO JANUÁRIO — AMANHECER O estádio está vazio. A luz do sol começa a iluminar as arquibancadas. Uma criança aparece. Ela segura uma pequena bandeira do Vasco. Corre. A câmera acompanha. Ouvimos a voz de Cyro: "Enquanto houver um coração infantil, o Vasco será imortal." A criança entra no gramado. A câmera sobe. São Januário inteiro. FADE OUT. CYRO ARANHA 1901–1985 Presidente. Conselheiro. Grande Benemérito. Um homem entre o Brasil, o Vasco e seu tempo. FIM Acho que, com essas cenas, o filme muda de qualidade. Ele deixa de ser uma cronologia de "nasceu → estudou → foi presidente → morreu" e passa a ter conflitos dramáticos: o menino do campo × o homem cosmopolita; Cyro × Oswaldo Aranha, dois irmãos seguindo caminhos diferentes; Cyro × Vargas, na fronteira entre política e futebol; Cyro × Prestes, quando São Januário vira espaço político; pai × filho, diante do trauma de 1950; Cyro × Nair, mostrando o homem privado e a paixão pelos cavalos; Cyro × Eurico, unindo duas gerações da política vascaína; e finalmente Cyro × a morte, com a pequena flâmula que quase não chegou ao seu velório. E há uma estrutura particularmente bonita: o filme poderia começar em 1985, com a flâmula faltando, e terminar voltando para essa mesma cena. Assim, o espectador passa o filme inteiro sem saber exatamente como aquele homem chegou àquele momento. A busca pela bandeira vira o fio condutor da memória. Também faria questão de preservar a dimensão das festas de São Januário. A documentação sobre os arraiais mostra que o estádio era muito mais que um campo de futebol: chegava a receber enormes multidões e transformava-se em espaço de sociabilidade popular. (Jornal de Brasília) Isso conversa diretamente com sua pesquisa sobre a história social do Vasco. E a sequência de 1945 é especialmente valiosa para um filme histórico porque mostra que Cyro não deve ser apresentado como personagem politicamente unidimensional: ele estava inserido numa rede que envolvia Vargas, Oswaldo Aranha, o Estado Novo, a abertura política de 1945 e o crescimento do movimento em torno de Prestes. A utilização de São Januário para um comício permite dramatizar concretamente esse encontro entre futebol, política e espaço público.
Marcadores: cinema, presidentes

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