Cândido José de Araújo (Candinho): entre o esquecimento e a memória na história do Club de Regatas Vasco da Gama
A trajetória de Cândido José de Araújo, conhecido como Candinho, ocupa posição singular na história do Club de Regatas Vasco da Gama. Eleito presidente da agremiação em 1904, é atualmente reconhecido como o primeiro dirigente negro a ocupar o cargo máximo do clube. Entretanto, a análise das fontes sugere uma dinâmica mais complexa do que aquela presente nas narrativas comemorativas contemporâneas. Este artigo investiga a trajetória de Candinho a partir de três dimensões complementares: sua participação no associativismo esportivo carioca do início do século XX, os relatos sobre seu posterior afastamento do Vasco e o processo de reconstrução de sua memória nas primeiras décadas do século XXI. Argumenta-se que a história de Candinho revela não apenas possibilidades de participação negra em espaços dirigentes, mas também os mecanismos pelos quais determinados personagens podem ser esquecidos, preservados em memórias restritas e posteriormente recuperados como símbolos institucionais. Palavras-chave: Vasco da Gama; memória; relações raciais; associativismo esportivo; Candinho. Introdução A história do Club de Regatas Vasco da Gama ocupa lugar privilegiado nas interpretações sobre raça e inclusão no esporte brasileiro. A incorporação de atletas oriundos das camadas populares e a defesa de princípios de igualdade tornaram-se elementos centrais da identidade histórica do clube. Contudo, a compreensão desse processo exige que se evite a projeção de valores contemporâneos sobre períodos anteriores e que se examine criticamente as experiências concretas de participação vividas por indivíduos e grupos ao longo do tempo. Entre essas trajetórias destaca-se a de Cândido José de Araújo, conhecido como Candinho. Sua eleição à presidência do Vasco, em 1904, constitui um acontecimento relevante para a história social do associativismo esportivo carioca. Nas últimas décadas, Candinho passou a ocupar posição cada vez mais destacada na memória institucional do clube, sendo frequentemente apresentado como símbolo da presença negra em cargos de liderança e precursor da tradição antirracista vascaína. Entretanto, a documentação disponível sugere uma trajetória mais complexa. Relatos posteriores indicam conflitos que teriam culminado com seu afastamento da agremiação. Além disso, sua morte, em 1935, aparentemente não foi acompanhada das homenagens públicas normalmente observadas em relação a outros ex-presidentes vascaínos. Em contraste, no século XXI sua figura passou a receber crescente valorização por parte de pesquisadores, torcedores e do próprio clube. Este artigo propõe analisar a trajetória de Candinho não apenas como dirigente esportivo, mas também como objeto de sucessivos processos de construção, esquecimento e reconstrução da memória histórica. A questão central consiste em compreender como um ex-presidente aparentemente pouco lembrado no momento de sua morte transformou-se posteriormente em um dos símbolos da memória negra vascaína. Candinho e a participação negra no associativismo esportivo A eleição de Candinho para a presidência do Vasco da Gama ocorreu em um contexto marcado pelas transformações da sociedade brasileira após a abolição da escravidão. Os clubes esportivos constituíam espaços fundamentais de sociabilidade, mas também reproduziam distinções de classe, prestígio e pertencimento social. Nesse contexto, a ascensão de Candinho ao principal cargo diretivo do Vasco possui inegável relevância histórica. Sua eleição demonstra que indivíduos negros podiam alcançar posições de destaque em determinadas associações esportivas da capital federal. Entretanto, a existência de um dirigente negro não deve ser interpretada automaticamente como evidência de igualdade racial plena ou ausência de mecanismos de exclusão. A importância histórica de Candinho não está em servir como prova de uma suposta democracia racial precoce, mas em revelar a complexidade das formas de inserção da população negra nas instituições esportivas da Primeira República. Entre o Vasco e o Boqueirão Outro aspecto relevante é a atuação de Candinho para além do Vasco da Gama. As evidências disponíveis indicam que sua ligação com o Clube Boqueirão foi mais longa e duradoura do que sua passagem pela presidência vascaína. Essa constatação sugere a necessidade de ampliar o foco da análise. Em vez de reduzir sua trajetória à condição de ex-presidente do Vasco, torna-se possível situá-lo em uma rede mais ampla de sociabilidades esportivas que articulava diferentes associações do Rio de Janeiro. A comparação entre essas experiências pode contribuir para compreender as possibilidades de mobilidade, liderança e reconhecimento disponíveis para homens negros no universo associativo carioca das primeiras décadas do século XX. A expulsão e a memória preservada por Joaquim Carneiro Dias Um dos elementos mais intrigantes da trajetória de Candinho é o relato de sua expulsão do quadro social vascaíno. A narrativa chegou à historiografia por intermédio do jornalista Álvaro Rodrigues, mas sua origem remonta ao testemunho de Joaquim Carneiro Dias, um dos mais importantes remadores da história do Vasco da Gama. Tal circunstância confere especial relevância à fonte. Embora o relato exija verificação documental, ele não se apresenta como mera tradição oral anônima, mas como memória transmitida por um personagem profundamente integrado à vida da instituição. A importância historiográfica desse testemunho não reside apenas na possibilidade de esclarecer um episódio específico. Ele demonstra que, décadas após a passagem de Candinho pelo clube, sua trajetória ainda circulava entre antigos associados e esportistas. Isso sugere que sua memória permaneceu viva em determinados círculos internos, ainda que não ocupasse posição central na narrativa oficial vascaína. A morte de Candinho e o silêncio institucional A análise da documentação referente à morte de Candinho, em 1935, revela um contraste significativo com sua valorização contemporânea. O anúncio de falecimento localizado na imprensa identificava Cândido José de Araújo como funcionário aposentado da Central do Brasil e divulgava informações sobre seu sepultamento. Não foram encontradas referências à sua condição de ex-presidente do Vasco da Gama nem manifestações públicas do clube em seu nome. Essa ausência ganha maior significado quando comparada ao falecimento de Alberto Carvalho, ex-presidente vascaíno e contemporâneo de Candinho, ocorrido em 1936. Nesse caso, a imprensa registrou homenagens públicas e a participação de dirigentes ligados ao clube nas cerimônias fúnebres. Não seria metodologicamente correto concluir que essa diferença decorreu diretamente de discriminação racial. Contudo, a discrepância documental levanta uma questão relevante: por que dois ex-presidentes da mesma geração parecem ter recebido reconhecimentos tão distintos? A resposta para essa pergunta constitui uma das principais contribuições possíveis desta pesquisa. A redescoberta de Candinho no século XXI Nas primeiras décadas do século XXI, a memória de Candinho passou por notável processo de valorização institucional. Em 2007, a Revista do Vasco publicou a reportagem intitulada Um gigante contra o preconceito, na qual Candinho foi apresentado como personagem fundamental da luta contra a discriminação racial e símbolo dos valores democráticos associados ao clube. Já em 2024, nova publicação institucional ampliou essa interpretação ao destacar sua eleição como marco inicial da presença negra em posições de destaque dentro da estrutura dirigente vascaína. Essas publicações demonstram que a memória de Candinho passou por um processo de ressignificação histórica. O dirigente que aparentemente ocupava posição secundária na memória pública dos anos 1930 tornou-se, mais de sete décadas depois, parte importante da identidade institucional do Vasco e de sua narrativa antirracista. Considerações finais A trajetória de Cândido José de Araújo revela uma questão mais ampla do que a simples biografia de um dirigente esportivo. Sua história permite observar os mecanismos pelos quais personagens históricos são lembrados, esquecidos e posteriormente recuperados por novas gerações. A eleição para a presidência do Vasco em 1904 demonstra possibilidades concretas de participação negra em espaços de liderança esportiva. Os relatos sobre sua expulsão revelam a existência de conflitos e tensões que ainda precisam ser melhor compreendidos. A ausência de homenagens identificáveis por ocasião de sua morte sugere que sua memória não ocupava posição central na narrativa institucional do clube nos anos 1930. Finalmente, sua redescoberta nas primeiras décadas do século XXI mostra como o passado é continuamente reinterpretado à luz das preocupações do presente. Mais do que um personagem da história vascaína, Candinho representa um caso exemplar para compreender a relação entre memória, identidade e associativismo esportivo no Brasil. Sua trajetória demonstra que a história não é feita apenas de acontecimentos, mas também das formas pelas quais esses acontecimentos são lembrados, silenciados e reconstruídos ao longo do tempo.
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