Memórias de uma Pioneira Bracarense: Josepha Pereira, o Grupo Lasca o Pau e as Raízes da Paixão Vascaína
Reconstituir a trajetória de uma torcedora de futebol na década de 1910 é um desafio complexo. Além da escassez de fontes, há a dificuldade de estruturar uma narrativa coerente com os poucos dados disponíveis. Este cenário analítico mudou a partir de 1950, quando as arquibancadas e seus personagens mais destacados ganharam grande visibilidade na imprensa e em livros de memórias dos clubes. Embora Dulce Rosalina seja frequentemente apontada como pioneira, muitas outras mulheres que construíram a história do Vasco da Gama e de outras agremiações permaneceram esquecidas. Resgatar essas trajetórias permite propor novas possibilidades de narrar a história do futebol a partir da perspectiva daqueles que animam o espetáculo. Foi justamente o resgate dessas memórias que serviu de base para um estudo memorialista da família vascaína de Josepha Maria Pereira, torcedora emblemática do clube no início do século XX. Nascida em 1892, segundo levantamento apresentado pelo historiador Walmer Peres Santana em sua tese de Doutorado intitulada O “lamentavel” Club de Regatas Vasco da Gama: futebol, imigração e antilusitanismo na cidade do Rio de Janeiro (1915–1927), defendida na UERJ em 2025, Josepha e seu irmão, Manoel Félix Pereira, eram imigrantes portugueses naturais da cidade de Braga. Embora não se saiba ao certo a data em que desembarcaram no Brasil, a trajetória dos irmãos confunde-se com a própria consolidação da identidade luso-brasileira do clube. Antes de se consolidar no comércio local, uma reportagem da época revela que Josepha trabalhou como operária em um estabelecimento na própria Região da Leopoldina. Essa vivência fabril antecedeu sua transição para o setor de serviços, quando abriu com o irmão o "Meu Bazar Armarinho", focado em produtos variados. O comércio ficava situado no bairro de Olaria — uma localização estratégica pela proximidade com São Cristóvão e o bairro de Vasco da Gama, colado ao terreno onde seria erguido e inaugurado o futuro Estádio de São Januário em 1927. Boa parte das informações coletadas sobre Josepha foi preservada por duas figuras marcantes do ecossistema cruzmaltino. O primeiro é o jornalista Álvaro Nascimento, o "Cascadura" (ou "Zé de São Januário"), que registrou em suas crônicas, desde os anos 1940, a transformação do Vasco em um gigante do esporte. Nas crônicas de Cascadura, Josepha é exaltada como uma das principais figuras da torcida nos primórdios do futebol do clube, iniciado em 1915. Suas lembrancas recuperam um tempo em que poucos acompanhavam o time pelos campos da segunda e terceira divisões. Para se proteger em contextos hostis, a comunidade vascaína criou o grupo "Lasca o Pau" — possivelmente a primeira torcida organizada do clube. Composto por jovens destemidos, muitos de seus membros eram, na verdade, atletas do remo do próprio Vasco. Dentre eles, destacava-se Antônio Rodrigues Tavares, que viria a ser presidente do clube no final dos anos 1940. Décadas mais tarde, Tavares fez questão de ressaltar a importância crucial daqueles jovens defensores da instituição em seu depoimento para o livro de João Antero de Carvalho, lançado em 1968, intitulado Torcedores de Ontem e de Hoje. O jornalista Cascadura relata que Josepha participava ativamente das frentes de defesa do grupo, brigando literalmente nas arquibancadas contra torcedores rivais que desferiam xingamentos xenofóbicos aos portugueses, protegendo com brio a sua comunidade de origem. [1] Outro cronista a registrar a importância de Josepha foi o benemérito Milton de Castro Menezes. Em crônicas publicadas em jornais no final dos anos 1950, ele resgatou memórias de sua adolescência e fez questão de homenagear os irmãos Josepha e Manoel Pereira. Segundo o benemérito, a dupla bracarense foi responsável por despertar sua paixão pelo Vasco na Enseada de Botafogo, época em que o remo era o esporte mais popular da cidade. A busca por mais dados biográficos avançou na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, onde o registro mais recente sobre as atividades de Josepha localiza a posterior divisão de bens entre os sócios do bazar de Olaria. Pouco antes disso, em dezembro de 1957, um incêndio destruiu completamente a loja. A reportagem da época destaca que, felizmente, o local possuía seguro e que o comércio já funcionava há três décadas. O dado coincide com os registros de 1926, ano em que os irmãos Pereira fundaram o negócio, consolidando sua presença na Zona Leopoldinense. Embora celebrados pelos cronistas na esfera esportiva, Manoel e Josepha não eram comumente identificados nas páginas de esportes dos jornais cotidianos. O nome dos irmãos só aparece formalmente em 1945, por ocasião do falecimento de Manoel. O anúncio fúnebre foi publicado exclusivamente no periódico Diário de Notícias, onde a família registrou suas homenagens em três notas distintas. Como Manoel aparentemente não se casou nem deixou filhos, os textos são assinados por sua irmã, que faz questão de homenagear seu saudoso irmão, além de mensagens de seus afilhados e dos empregados de sua firma, a M. F. Pereira & Cia. O falecimento de Manoel não foi registrado por Álvaro Nascimento, que na ocasião dedicava sua coluna diária no Jornal dos Sports às glórias do "Expresso da Vitória" — o elenco avassalador que colecionava títulos e encantava os vascaínos. Manoel não viveu para ver o tão sonhado título do Campeonato Carioca daquele ciclo vitorioso, mas testemunhou o Vasco levantar as taças do Torneio Municipal e do Torneio Relâmpago. Se teria morrido do coração, não há confirmação documental; contudo, diante de tamanha paixão clubística, a hipótese permanece como parte do imaginário dessa linhagem de torcedores.
