quarta-feira, 7 de outubro de 2026

# João Silva ## Empresário, dirigente e Grande Benemérito do Club de Regatas Vasco da Gama

A história de João Silva se confunde, em boa medida, com a própria história do Club de Regatas Vasco da Gama durante grande parte do século XX. Empresário, dirigente e vascaíno dedicado, construiu ao longo de décadas uma trajetória marcada pelo trabalho, pela participação na vida institucional do clube e pelo compromisso com suas tradições. Nascido fora do Brasil, João Silva chegou ao país em **24 de junho de 1927**, ainda criança, aos nove anos de idade. Veio acompanhado de sua irmã para reencontrar os pais, que já estavam estabelecidos no Brasil. Foi aqui que construiu sua vida pessoal e profissional e desenvolveu uma relação cada vez mais estreita com o Vasco da Gama. Desde jovem, aproximou-se do esporte e chegou a alimentar o sonho de ser jogador de futebol. Teve passagem pelas categorias de base do **São Cristóvão** e também pelo Vasco. Entretanto, o destino reservava-lhe outro papel dentro do clube. Em vez dos gramados, seria nos campos da administração, da política interna e da direção vascaína que João Silva deixaria sua marca. Sua participação efetiva na vida do Vasco ganhou força a partir da década de 1940. Ao longo dos anos, ocupou **diversos cargos no clube**, participando de sua administração e de seus órgãos representativos. Foi integrante do Conselho Deliberativo e exerceu funções importantes na área do futebol, chegando à vice-presidência. A experiência acumulada, sua capacidade de trabalho e a confiança conquistada entre os associados fizeram com que assumisse responsabilidades cada vez maiores. Em **1966, João Silva chegou à presidência do Club de Regatas Vasco da Gama**, passando a ocupar o posto máximo da instituição. Sua trajetória como dirigente ocorreu em períodos de diferentes desafios para o clube. João Silva acompanhou de perto disputas políticas, mudanças administrativas e momentos de dificuldade. Em seus depoimentos, demonstrava preocupação com a necessidade de preservar a união interna e a tranquilidade do Vasco, defendendo uma atuação dirigente voltada aos interesses da instituição. Para ele, ocupar uma posição de comando no Vasco significava, antes de tudo, assumir uma responsabilidade. O dirigente deveria trabalhar pelo clube, respeitar suas tradições e colocar os interesses vascaínos acima de questões pessoais. Essa concepção ajudou a definir a maneira pela qual construiu sua trajetória. ### Um homem identificado com o trabalho A personalidade de João Silva também foi registrada pela imprensa. Uma das matérias que retratou sua figura recebeu o título **“Título para quem faz e acredita em trabalho”**, destacando justamente essa característica de sua personalidade. A fotografia que acompanha a publicação mostra João Silva elegantemente vestido, sorridente e com seu inseparável cachimbo. A matéria o apresenta sob a expressão **“João Silva — Jeito do Cachimbo”**, uma referência que demonstra como sua imagem pessoal também se tornou reconhecida por aqueles que conviviam com ele. O cachimbo, nesse sentido, acabou se tornando uma espécie de marca registrada de João Silva. Mas, para além da imagem, os registros jornalísticos ressaltam o homem de trabalho, o empresário e o dirigente que construiu sua trajetória através da participação e da dedicação. ### Um vascaíno de várias gerações Uma das características mais marcantes de sua trajetória foi ter acompanhado diferentes gerações do Vasco da Gama. João Silva viveu épocas distintas do clube e conviveu com dirigentes, jogadores e personagens que fizeram parte da história vascaína. Em suas lembranças, demonstrava especial carinho pelos grandes times que viu jogar e pelos períodos em que o Vasco se afirmou como uma das grandes forças do futebol brasileiro. Ao mesmo tempo, sua experiência administrativa permitiu-lhe conhecer também os bastidores da instituição, suas dificuldades e os desafios de conduzir um clube da dimensão do Vasco. Essa combinação entre paixão pelo futebol e experiência administrativa fez de João Silva uma figura respeitada no ambiente vascaíno. ### Grande Benemérito Depois de décadas de participação, serviços prestados e dedicação ao Club de Regatas Vasco da Gama, João Silva recebeu uma das maiores demonstrações de reconhecimento que um vascaíno pode receber: tornou-se **Grande Benemérito do clube**. A distinção sintetiza sua trajetória. João Silva não foi apenas um torcedor que acompanhou o Vasco ao longo dos anos. Foi um homem que participou ativamente de sua vida institucional, exerceu cargos de responsabilidade, chegou à presidência e dedicou parte significativa de sua vida à construção e à preservação da história vascaína. Seu legado está, portanto, não apenas nos cargos que ocupou, mas na longa relação que estabeleceu com o clube. ### Um nome na história do Vasco Empresário por profissão, dirigente por vocação e vascaíno por paixão, João Silva construiu uma trajetória singular. Da juventude e do sonho de jogar futebol à participação nos mais importantes espaços administrativos do Vasco, percorreu um caminho marcado pelo trabalho e pela dedicação. Foi associado, dirigente, conselheiro, vice-presidente, presidente e, finalmente, reconhecido como **Grande Benemérito**. Sua história merece ser preservada como parte da memória do Club de Regatas Vasco da Gama. Uma história construída não em um único momento, mas ao longo de décadas de presença, trabalho e participação. **João Silva foi, acima de tudo, um homem que acreditou no trabalho e dedicou sua vida ao Vasco da Gama — um vascaíno que não apenas acompanhou a história do clube, mas ajudou a escrevê-la.**

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terça-feira, 6 de outubro de 2026

Pai Santana: futebol, religiosidade e a construção de um símbolo vascaíno

A história do futebol costuma ser contada a partir dos jogadores, dos grandes títulos e dos dirigentes que comandaram os clubes. Entretanto, uma instituição esportiva também é construída por personagens que atuam nos bastidores: médicos, preparadores físicos, roupeiros, funcionários, massagistas e tantos outros profissionais que estabelecem vínculos duradouros com jogadores e torcedores. Entre esses personagens, alguns ultrapassam os limites de sua função profissional e passam a integrar o imaginário coletivo de um clube. No Vasco da Gama, poucos alcançaram essa condição de maneira tão expressiva quanto Pai Santana. Sua trajetória permite discutir não apenas a história dos massagistas no futebol brasileiro, mas também questões relacionadas à cultura popular, à religiosidade, à identidade vascaína e à própria construção dos ídolos que não necessariamente entram em campo. Mais do que um profissional responsável pelo tratamento físico dos jogadores, Pai Santana tornou-se personagem do espetáculo, símbolo da torcida e uma das figuras mais reconhecíveis da história do Vasco. Uma tradição de massagistas Antes de Pai Santana, o futebol brasileiro já havia produzido importantes personagens nessa função. No próprio Vasco, um dos exemplos mais significativos foi Mário Américo. Ex-boxeador e profissional ligado à preparação e recuperação física dos atletas, Mário Américo chegou ao Vasco na década de 1940 e integrou a comissão técnica do célebre Expresso da Vitória. Sua trajetória no clube acompanhou algumas das maiores conquistas vascaínas daquele período. Posteriormente, tornou-se massagista da Seleção Brasileira e acompanhou a equipe em nada menos que sete Copas do Mundo, entre 1950 e 1974. Mário Américo ajudou a transformar a figura do massagista em um personagem reconhecido pelo público. Sua atuação demonstrava que os profissionais dos bastidores também podiam construir prestígio e estabelecer relações afetivas com jogadores e torcedores. Pai Santana pertence a uma geração posterior dessa mesma tradição. A diferença é que, no seu caso, a função profissional acabou se combinando de maneira particularmente intensa com a dimensão religiosa, simbólica e teatral do futebol. A chegada de Pai Santana Eduardo Santana, conhecido popularmente como Pai Santana, nasceu em 18 de agosto de 1934, em Andrelândia, Minas Gerais. Antes de se tornar uma das figuras mais conhecidas do Vasco, trabalhou em outros clubes brasileiros. Sua trajetória profissional incluiu passagens pelo futebol baiano e por clubes cariocas. Chegou ao Vasco em 1970, ano que se tornaria decisivo para sua trajetória. Naquele momento, o clube atravessava um longo período sem conquistar o Campeonato Carioca. O último título estadual havia ocorrido em 1958. A conquista de 1970, portanto, possuía enorme significado para uma torcida que aguardava havia mais de uma década pelo retorno ao primeiro lugar do futebol do Rio de Janeiro. Pai Santana estava entre os integrantes da comissão vascaína daquele campeonato. O título de 1970 seria posteriormente incorporado à memória construída em torno de sua figura. A partir daí, começou a ganhar força uma narrativa que associava sua presença a práticas espirituais e a uma suposta capacidade de interferir, por meios sobrenaturais, no destino das equipes. Historicamente, o mais importante não é afirmar ou negar esses poderes, mas compreender como essa crença foi construída socialmente. O sucesso esportivo ofereceu o cenário perfeito para o nascimento do mito. O massagista e o sagrado Pai Santana não era percebido apenas como um profissional da área médica ou física. Sua imagem estava associada a práticas religiosas e espirituais que despertavam curiosidade entre jogadores, jornalistas e torcedores. Com o tempo, passou a ser chamado de "Pai Santana", denominação que reforçava justamente essa dimensão de sua personalidade. A partir dos anos 1970, sua presença começou a ser incorporada ao universo simbólico do Vasco. O massagista passou a representar uma espécie de ligação entre o mundo concreto do futebol e aquilo que os torcedores percebiam como forças invisíveis. Essa característica precisa ser compreendida dentro de uma sociedade brasileira na qual diferentes formas de religiosidade sempre conviveram. No futebol, essa convivência tornou-se particularmente intensa. Orações, promessas, santos, amuletos, benzimentos, simpatias, religiões de matriz africana e outras práticas espirituais frequentemente fizeram parte da experiência dos jogadores e das torcidas. Pai Santana tornou-se uma das expressões mais conhecidas dessa dimensão religiosa do futebol. Nossa Senhora das Vitórias e a pluralidade religiosa vascaína A presença de Pai Santana adquire significado ainda maior quando observada ao lado da tradição católica do Vasco. O clube possui uma longa relação simbólica com Nossa Senhora das Vitórias, cuja devoção ocupa lugar importante na história vascaína. Festas, celebrações e homenagens religiosas fazem parte da memória institucional e afetiva do clube. Essa tradição não desapareceu com a presença de Pai Santana. Ao contrário, as duas referências passaram a coexistir. Esse é um ponto importante para a compreensão da cultura vascaína. Não é necessário afirmar que o Vasco, institucionalmente, seja um clube sincrético ou que tenha adotado religiões de matriz africana como parte de sua doutrina. A questão é outra: diferentes experiências religiosas puderam circular e encontrar espaço dentro da comunidade vascaína. A torcida que reverenciava Nossa Senhora das Vitórias também reverenciava Pai Santana. O estádio que recebia celebrações religiosas era o mesmo espaço no qual a entrada do massagista podia provocar uma reação entusiasmada das arquibancadas. Essa convivência revela uma dimensão importante da cultura popular brasileira: a capacidade de diferentes referências religiosas coexistirem na experiência cotidiana sem necessariamente se anularem. Jau e a presença afro-brasileira Essa história não começa com Pai Santana. Outro personagem que merece ser recuperado é Jau, ex-zagueiro do Vasco, também associado a práticas religiosas de matriz africana. Sua trajetória é importante porque demonstra que a relação entre futebol vascaíno e religiosidade afro-brasileira possui antecedentes. Jau e Pai Santana pertencem a gerações diferentes, mas podem ser aproximados como personagens que ajudam a revelar uma dimensão ainda pouco explorada da história social do Vasco: a presença de referências religiosas afro-brasileiras dentro de uma comunidade esportiva que também possuía forte tradição católica. Esse cruzamento é particularmente interessante quando lembramos a própria formação social do Vasco. Desde as primeiras décadas do século XX, o clube reuniu portugueses e seus descendentes, trabalhadores, negros, operários, comerciantes e diferentes setores das camadas populares do Rio de Janeiro. A diversidade social produziu também uma diversidade cultural. A religiosidade não ficou fora desse processo. Nesse sentido, Jau e Pai Santana podem ser estudados não como exceções exóticas, mas como personagens que ajudam a compreender a circulação de diferentes experiências religiosas dentro da cultura vascaína. A construção do mito de Pai Santana O campeonato de 1970 teve papel fundamental na consolidação de sua imagem. A coincidência entre sua chegada, as práticas espirituais que lhe eram atribuídas e o fim do longo jejum vascaíno ajudou a construir uma narrativa que rapidamente ganhou força. O futebol é particularmente fértil para esse tipo de construção. Quando uma equipe quebra uma sequência negativa depois da intervenção de determinado personagem, a memória coletiva tende a estabelecer relações entre os acontecimentos. Nasce então o mito. No caso de Pai Santana, esse mito foi alimentado pela própria personalidade do personagem. Ele não procurava permanecer invisível. Sua presença era performática. Suas roupas, seus gestos, seus rituais e sua maneira de circular pelo estádio faziam parte de sua identidade pública. O massagista transformou sua entrada no gramado em um acontecimento. O ritual da entrada em campo Poucos personagens do futebol brasileiro conseguiram transformar sua entrada no campo em um momento aguardado pela torcida. Pai Santana conseguia. Antes de muitas partidas, sua presença era recebida com gritos, aplausos e manifestações de carinho. Um dos gestos que ficaram associados à sua imagem era a entrada no gramado com a bandeira do Vasco, seguida de uma demonstração pública de devoção ao clube. A cena tinha enorme força simbólica. O massagista, teoricamente um personagem secundário do espetáculo, tornava-se momentaneamente protagonista. A torcida interrompia a lógica habitual do futebol: antes de celebrar o jogador que marcaria o gol, celebrava aquele que cuidava dos jogadores. Essa inversão é sociologicamente significativa. Ela demonstra que o processo de idolatria não depende exclusivamente da performance esportiva. Também pode nascer da presença, da personalidade, da memória e da relação afetiva construída entre o personagem e a torcida. Pai Santana como ídolo popular Pai Santana não marcou gols. Não conquistou títulos como jogador. Não comandou uma equipe. Mas esteve presente em algumas das grandes páginas da história do Vasco e acompanhou diferentes gerações de atletas. Essa permanência é fundamental. Enquanto os jogadores mudavam, Pai Santana permanecia. Ele atravessou diferentes gerações do futebol vascaíno e acabou se tornando uma espécie de elo entre elas. Jogadores como Roberto Dinamite, Romário e Edmundo conviveram com sua figura. Para muitos torcedores, Pai Santana fazia parte da experiência de assistir ao Vasco jogar tanto quanto a escalação, o uniforme ou a própria entrada dos jogadores. Por isso, sua imagem deve ser entendida como parte da cultura da torcida. Ele era um personagem reconhecido pela arquibancada. O Vasco para além dos jogadores A trajetória de Pai Santana permite questionar uma visão excessivamente centrada nos atletas quando estudamos a história do futebol. Um clube é uma comunidade. Sua memória é construída por jogadores, dirigentes, funcionários, jornalistas, torcedores e personagens que, por diferentes razões, tornam-se símbolos. Pai Santana pertence a essa última categoria. Sua trajetória também ajuda a recuperar a história dos trabalhadores do futebol. O massagista não é apenas alguém que trata uma contusão. Ele está dentro do vestiário, próximo aos jogadores, acompanha suas dores, suas inseguranças e suas conquistas. É um profissional que conhece o corpo do atleta e, muitas vezes, estabelece relações pessoais que atravessam décadas. Pai Santana levou essa proximidade a uma dimensão pública extraordinária. As excursões internacionais A fama de Pai Santana também ultrapassou as fronteiras brasileiras. Durante as excursões internacionais do Vasco, sua figura despertava curiosidade. O clube levava para outros países seus jogadores famosos, mas também carregava uma série de personagens que representavam a cultura futebolística brasileira. Pai Santana era um deles. Sua aparência, seus gestos e sua associação com práticas espirituais chamavam atenção e ajudavam a construir uma imagem peculiar do futebol brasileiro. Nessas viagens, ele funcionava quase como um embaixador informal do folclore futebolístico brasileiro. A expressão não deve ser entendida como cargo oficial, mas como uma forma de compreender sua capacidade de representar, aos olhos do público, uma dimensão popular e ritualizada do futebol brasileiro. Uma vida transformada em biografia A importância de Pai Santana também pode ser medida pelo fato de sua trajetória ter ultrapassado as notícias esportivas e recebido tratamento biográfico. O escritor Écio Salles dedicou uma biografia ao personagem, contribuindo para registrar uma trajetória que poderia facilmente desaparecer se permanecesse apenas na memória oral da torcida. A obra de Salles deve ser colocada em diálogo com outras fontes: jornais esportivos, fotografias, documentos do Vasco, entrevistas de jogadores, depoimentos de torcedores e registros das excursões internacionais. Esse cruzamento permitirá distinguir aquilo que pertence à documentação histórica daquilo que foi sendo incorporado ao folclore e à memória coletiva. Essa distinção é fundamental. O mito não precisa ser eliminado pelo historiador. Ele precisa ser estudado. Entre a fé e a memória A grande questão histórica colocada por Pai Santana não é saber se seus poderes espirituais eram "verdadeiros". Essa pergunta pertence ao campo da crença individual. Para a história social, a pergunta mais interessante é outra: por que milhares de pessoas passaram a acreditar que aquele homem possuía poderes especiais? A resposta está na combinação de vários elementos: sua personalidade, sua relação com os jogadores, suas práticas religiosas, o título de 1970, sua permanência no clube, sua exposição pública e, sobretudo, a disposição da própria torcida para transformar experiências esportivas em narrativas simbólicas. O mito de Pai Santana foi, portanto, uma construção coletiva. Ele foi construído por Santana, mas também pelos jogadores, pelos jornalistas e pela torcida. O reconhecimento da torcida Com o passar dos anos, sua entrada no estádio tornou-se uma espécie de ritual dentro do ritual. O jogo ainda não havia começado, mas Pai Santana já havia participado do espetáculo. A reação da torcida revelava que ele possuía um lugar próprio na hierarquia afetiva do Vasco. Não era simplesmente "o massagista". Era Pai Santana. Essa diferença é fundamental. O nome profissional designava sua função. O apelido designava sua persona. E a persona acabou sendo maior que a própria função. A morte e a permanência Pai Santana morreu em 1º de novembro de 2011, aos 77 anos. Sua morte encerrou uma trajetória de décadas dedicada ao futebol, mas não eliminou sua presença na memória vascaína. Pelo contrário. Sua imagem passou a ser cada vez mais recuperada em fotografias, vídeos, relatos de antigos jogadores e histórias contadas por torcedores. Essa é uma característica comum aos grandes personagens da cultura popular: a morte não encerra sua trajetória. Ela inicia uma segunda existência. A existência da memória. Considerações finais A história de Pai Santana permite recuperar uma dimensão pouco explorada da história social do futebol brasileiro. Ele foi massagista, mas foi também personagem. Foi funcionário do clube, mas tornou-se patrimônio afetivo da torcida. Foi associado ao tratamento físico dos atletas, mas sua imagem passou a estar ligada também ao mundo espiritual. Foi personagem de bastidores, mas acabou ocupando o centro do espetáculo em suas entradas no gramado. Sua trajetória também ajuda a compreender uma característica importante da cultura vascaína: a convivência de diferentes tradições culturais e religiosas. A devoção a Nossa Senhora das Vitórias pertence à memória católica do clube. A trajetória de Jau revela a presença anterior de personagens ligados às religiões de matriz africana. Pai Santana, décadas depois, transformaria essa dimensão em um dos elementos mais conhecidos de sua própria persona. Não se trata de afirmar que o Vasco tenha institucionalmente adotado uma religião sincrética. Trata-se de reconhecer que sua comunidade esportiva foi capaz de incorporar personagens de diferentes universos culturais e religiosos. Nesse sentido, a trajetória de Pai Santana possui uma dimensão que ultrapassa sua biografia individual. Ela revela uma história sobre pluralidade, pertencimento e reconhecimento. A torcida não precisou abandonar Nossa Senhora das Vitórias para abraçar Pai Santana. As duas imagens puderam coexistir na memória vascaína. Talvez seja justamente aí que esteja uma das características mais interessantes desse personagem: em um país marcado por tensões raciais e religiosas, Pai Santana foi transformado pela torcida em uma figura de reconhecimento coletivo. Seu poder histórico não está apenas naquilo que se dizia que ele fazia. Está naquilo que a torcida passou a enxergar nele. E foi assim que um massagista se transformou em um dos personagens mais singulares da história do Vasco da Gama.

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A família Portela e as raízes da tradição vascaína: associativismo, gênero e memória no Club de Regatas Vasco da Gama

Este artigo propõe uma reconstrução biográfica e social da trajetória da família Portela no Club de Regatas Vasco da Gama, com especial atenção a Avelina Fernandes Portela, seu marido Alberto Baltazar Portela, sua filha Rosa Portela e seu genro Adão Antônio Brandão. A partir de registros da imprensa esportiva, especialmente das crônicas de Álvaro Rodrigues publicadas no Jornal dos Sports, procura-se compreender a participação dessa família na formação institucional, simbólica e associativa do Vasco da Gama. A trajetória de Avelina permite ainda discutir a presença feminina nos primeiros anos do clube, bem como os processos de reconhecimento e construção da memória vascaína. Ao ser apresentada, por ocasião de sua morte, em 1977, como mulher que representava “as raízes da tradição vascaína”, Avelina aparece como uma personagem que ultrapassa a condição de esposa de dirigente, assumindo lugar próprio na memória institucional do clube. Palavras-chave: Vasco da Gama; família Portela; Avelina Fernandes Portela; mulheres; associativismo esportivo; memória social; história do futebol. 1. Introdução A história social dos clubes esportivos brasileiros não pode ser compreendida exclusivamente através de seus presidentes, jogadores e conquistas esportivas. A consolidação dessas instituições dependeu também de uma extensa rede de associados, dirigentes, famílias, comerciantes, beneméritos e personagens anônimos que participaram cotidianamente de sua construção. O Club de Regatas Vasco da Gama constitui um caso particularmente interessante para esse tipo de investigação. Fundado no final do século XIX por imigrantes portugueses e seus descendentes, o clube rapidamente ampliou sua atuação esportiva e social, tornando-se uma instituição de grande importância na sociedade carioca. Nesse processo, algumas famílias estabeleceram vínculos que ultrapassaram uma geração. É o caso dos Portela, cuja presença pode ser acompanhada através de Alberto Baltazar Portela, Avelina Fernandes Portela, Rosa Portela e Adão Antônio Brandão. A trajetória dessa família permite observar diferentes dimensões da experiência associativa vascaína. Alberto esteve ligado à administração e ao Tiro de Guerra do Vasco; Avelina tornou-se uma das primeiras mulheres a ocupar posição de destaque no quadro social; Rosa manteve a ligação familiar com o clube; e Adão Brandão construiu uma importante trajetória esportiva. O objetivo deste artigo é, portanto, reconstruir essa trajetória e discutir o significado social dessa presença familiar na história do Vasco. 2. Alberto Baltazar Portela e o Vasco dos primeiros tempos Alberto Baltazar Portela pertenceu à geração de vascaínos que participou da consolidação institucional do clube nas primeiras décadas do século XX. Sua trajetória é importante porque demonstra que o desenvolvimento do Vasco não dependia exclusivamente dos grandes nomes que ocupavam a presidência. Existia uma estrutura associativa composta por dirigentes e colaboradores que exerciam funções administrativas e contribuíam para a manutenção cotidiana da instituição. Alberto esteve ligado ao Tiro de Guerra do Vasco da Gama, atividade que possuía grande importância naquele período. Décadas depois, ao escrever sobre sua esposa, Álvaro Rodrigues o definiria como um “vascaíno dos tempos heróicos”, recordando sua atuação à frente do Tiro de Guerra. A expressão utilizada pelo cronista é significativa. Ela revela que, na memória construída posteriormente sobre o clube, Alberto pertencia à geração considerada fundadora da tradição vascaína. Sua trajetória também demonstra como o pertencimento ao Vasco poderia adquirir caráter duradouro. A ligação de Alberto com o clube não terminou com os primeiros anos do futebol vascaíno, mas prolongou-se durante décadas, contribuindo para a construção de uma memória familiar associada à instituição. 3. Avelina Fernandes Portela: uma mulher nas raízes do Vasco É, contudo, na trajetória de Avelina Fernandes Portela que a história da família ganha uma dimensão particularmente relevante para os estudos de gênero e da história social do esporte. Segundo a memória registrada posteriormente pelo jornalista Álvaro Rodrigues, Avelina acompanhava Alberto Portela em sua ligação com o clube desde aproximadamente 1915. Sua participação ocorreu em um momento no qual os clubes esportivos brasileiros eram instituições predominantemente masculinas. A presença feminina podia ocorrer através de atividades sociais, festividades e relações familiares, mas o reconhecimento formal das mulheres como integrantes do quadro associativo ainda estava em processo de formação. Avelina tornou-se, nesse contexto, uma personagem pioneira. Por ocasião de sua morte, em 1977, aos 85 anos, Álvaro Rodrigues publicou uma homenagem no Jornal dos Sports. O texto começa relatando que o grande vascaíno Ismael de Souza lhe comunicara, emocionado, o falecimento de Avelina. A caracterização feita por Ismael é particularmente significativa: Avelina seria um “símbolo” e representaria “as raízes da tradição vascaína”. Não se trata apenas de uma homenagem pessoal. A formulação transforma Avelina em personagem da própria memória coletiva do clube. 4. A primeira mulher benemérita? Um dos aspectos mais relevantes da crônica de Álvaro Rodrigues é sua afirmação de que Avelina teria sido “a primeira mulher a alcançar a benemerência” no Vasco. Essa informação deve ser tratada com cuidado metodológico. Em um trabalho acadêmico, é preferível apresentá-la como uma afirmação da fonte, até que seja possível confrontá-la com as atas e registros oficiais do clube. Assim, podemos escrever: Segundo Álvaro Rodrigues, Avelina Fernandes Portela foi a primeira mulher a alcançar a benemerência no Club de Regatas Vasco da Gama, permanecendo durante décadas em posição de honra na instituição. Essa formulação é mais rigorosa do que transformar imediatamente a afirmação jornalística em fato definitivo. Ainda assim, mesmo tomada como testemunho da memória esportiva, a informação possui grande importância. Ela indica que o reconhecimento feminino no Vasco possui raízes muito anteriores às figuras femininas que ganharam maior visibilidade a partir da segunda metade do século XX. 5. A mulher que bordou a primeira bandeira Outro elemento extraordinariamente rico da memória de Avelina é sua participação na confecção dos símbolos materiais do clube. Álvaro Rodrigues afirma que ela foi a mulher que bordou a primeira bandeira do Vasco e que também confeccionava os gorros de lã utilizados pelos jogadores nos chamados “tempos heróicos”. Essa informação permite deslocar a discussão sobre gênero no futebol. Avelina não aparece apenas como uma espectadora ou como esposa de um dirigente. Ela aparece como alguém que produzia materialmente os símbolos através dos quais o clube se apresentava publicamente. A bandeira, nesse sentido, não é apenas um objeto. Ela constitui um elemento fundamental da construção de uma identidade coletiva. A participação de Avelina na sua confecção permite pensar o trabalho feminino dentro da cultura esportiva de uma perspectiva diferente daquela tradicionalmente utilizada pelas narrativas do futebol. A história do esporte costuma registrar quem marcou gols, quem venceu campeonatos ou quem ocupou cargos administrativos. A experiência de Avelina chama atenção para outro tipo de trabalho: aquele realizado nos bastidores e que contribuiu para a construção dos símbolos, rituais e objetos que ajudaram a formar a identidade coletiva do clube. 6. O Tiro de Guerra e a família Portela A relação de Alberto e Avelina com o Tiro de Guerra do Vasco da Gama também merece investigação específica. Na crônica de 1977, Álvaro Rodrigues recorda que Alberto Portela dirigia o Tiro de Guerra vascaíno, de onde saíam regularmente turmas de reservistas. Essa informação coloca a família Portela em contato com uma dimensão da história do Vasco que ultrapassava o futebol. O clube participava de uma cultura esportiva e cívica mais ampla, na qual práticas físicas, militarização, patriotismo e formação da juventude estavam articulados. Avelina, nesse contexto, aparece novamente como participante de uma cultura institucional que combinava esporte, associativismo e valores cívicos. Sua atuação na confecção do pavilhão do Tiro de Guerra, também mencionada por Álvaro Rodrigues, reforça essa dimensão. 7. Rosa Portela e Adão Antônio Brandão A história dos Portela não termina com Alberto e Avelina. A filha do casal, Rosa Portela, manteve a ligação familiar com o Vasco e posteriormente casou-se com Adão Antônio Brandão. O casamento estabeleceu uma conexão entre duas importantes trajetórias vascaínas: a família Portela, ligada à estrutura associativa do clube, e Adão Brandão, integrante da geração esportiva que participou da expansão do Vasco no futebol e em outras modalidades. Álvaro Rodrigues dedica parte de sua homenagem a Avelina justamente à trajetória esportiva de seu genro. Segundo o cronista, Adão iniciou sua carreira esportiva em 1914, passou pelo Centro Português de Desportos e pelo Lusitânia e ingressou no Vasco em 1915. Em 1916, disputou pelo clube o campeonato de futebol da terceira divisão. Sua trajetória não se limitou ao futebol. Rodrigues destaca sua participação em futebol, remo, polo aquático, atletismo e tênis de mesa, apresentando-o como um atleta de múltiplas modalidades. A família Portela, portanto, reunia em seu interior diferentes dimensões da experiência vascaína: administração, associativismo, participação feminina e prática esportiva. 8. Uma família como unidade de transmissão da memória A história dos Portela permite levantar uma hipótese importante para a história social do futebol: a família funcionava também como mecanismo de transmissão do pertencimento clubístico. O vínculo com o Vasco não aparece como experiência individual e isolada. Alberto estava ligado ao clube; Avelina participou de sua vida associativa; Rosa manteve a ligação familiar; e Adão tornou-se atleta de destaque. Essa continuidade ajuda a compreender como identidades clubísticas são produzidas e transmitidas socialmente. O pertencimento ao clube podia ser construído através da convivência cotidiana, dos casamentos, das amizades, das atividades associativas e das experiências compartilhadas. Nesse sentido, estudar uma família como os Portela permite deslocar a análise da história institucional para a história social do pertencimento vascaíno. 9. Avelina e a história das mulheres no Vasco A trajetória de Avelina também permite ampliar significativamente a história das mulheres no Vasco. Durante muito tempo, as narrativas sobre a participação feminina no clube deram grande destaque às torcidas organizadas e, particularmente, a Dulce Rosalina, liderança da Torcida Organizada do Vasco a partir de meados do século XX. Dulce possui, evidentemente, importância fundamental nessa história. Entretanto, sua trajetória não deve apagar as experiências femininas anteriores. Avelina Fernandes Portela representa uma geração muito anterior. Ao lado de outras personagens, como Guiomar Corrêa Marques da Silva e Josepha Pereira, sua trajetória demonstra que as mulheres já estavam presentes na formação da comunidade vascaína muito antes da consolidação das torcidas organizadas modernas. Há, portanto, uma história feminina do Vasco que precisa ser reconstruída em perspectiva de longa duração. Avelina constitui uma de suas primeiras personagens documentadas. 10. A morte e a construção da memória A morte de Avelina, em 1977, constitui um momento particularmente importante para compreender a construção da memória vascaína. O fato de sua morte ter sido registrada por Álvaro Rodrigues no Jornal dos Sports demonstra que ela ainda possuía reconhecimento entre antigos membros da comunidade esportiva. Mais importante, porém, é a forma como foi lembrada. Ela não foi apresentada simplesmente como esposa de Alberto Portela. Foi lembrada como símbolo das raízes da tradição vascaína. Essa transformação de uma pessoa em símbolo constitui um processo típico da construção da memória coletiva. Avelina passou a representar uma determinada imagem do Vasco: o clube de seus primeiros tempos, das antigas famílias associativas, das solenidades, das bandeiras, do Tiro de Guerra e dos grandes personagens que participaram da construção institucional. Sua morte, portanto, não significou apenas o desaparecimento de uma antiga associada. Representou também a perda de uma testemunha viva de uma determinada fase da história do clube. 11. Considerações finais A trajetória da família Portela oferece uma perspectiva privilegiada para compreender aspectos ainda pouco explorados da história social do Club de Regatas Vasco da Gama. Alberto Baltazar Portela pertenceu à geração responsável pela consolidação institucional do clube. Avelina Fernandes Portela construiu uma trajetória própria dentro da instituição, tornando-se, segundo a memória registrada por Álvaro Rodrigues, a primeira mulher a alcançar a benemerência vascaína. Rosa manteve a continuidade dessa ligação familiar, enquanto Adão Antônio Brandão incorporou à família uma importante trajetória esportiva. Mais do que uma simples genealogia, a história dos Portela permite perceber como o Vasco foi construído através de redes familiares e associativas. Avelina ocupa lugar especial nesse processo. Sua trajetória permite recuperar uma dimensão frequentemente invisibilizada pela historiografia esportiva: o trabalho feminino realizado nos bastidores da formação das instituições esportivas. A mulher que bordou uma bandeira, confeccionou os gorros dos jogadores, participou da vida associativa e alcançou a benemerência não estava fora da história do futebol. Ela fazia parte de sua construção. Por isso, a frase atribuída a Ismael de Souza e registrada por Álvaro Rodrigues — Avelina como alguém que representava “as raízes da tradição vascaína” — pode ser tomada como uma chave interpretativa para compreender sua trajetória. A família Portela permite, finalmente, pensar o Vasco não apenas como um clube de futebol, mas como uma comunidade social, formada ao longo do tempo por indivíduos, famílias, relações de amizade, casamentos, práticas associativas e formas de transmissão da memória. É justamente nessa dimensão que a biografia de Avelina Fernandes Portela ganha relevância para as Ciências Sociais e para a História. Fontes primárias e referências para desenvolver o artigo RODRIGUES, Álvaro. Crônicas publicadas no Jornal dos Sports, especialmente por ocasião do falecimento de Avelina Fernandes Portela, 1977. CLUB DE REGATAS VASCO DA GAMA. Documentação institucional, atas, registros de associados e títulos de benemerência. HEMEROTECA DIGITAL DA BIBLIOTECA NACIONAL. Periódicos esportivos e jornais cariocas referentes às primeiras décadas do século XX. ACERVO DIGITAL DO VASCO. Documentação histórica e registros institucionais do Club de Regatas Vasco da Gama.

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sábado, 3 de outubro de 2026

GUIOMAR CORRÊA MARQUES DA SILVA: GÊNERO, SOCIABILIDADE E MEMÓRIA NOS PRIMEIROS TEMPOS DO VASCO DA GAMA

Resumo A trajetória de Guiomar Corrêa Marques da Silva permite investigar aspectos ainda pouco explorados da história social dos primeiros anos do Club de Regatas Vasco da Gama. Identificada pela imprensa de 1926 como sua primeira sócia remida, Guiomar aparece em diferentes registros jornalísticos entre 1923 e 1926, associada às excursões, aos banquetes, às atividades sociais e ao universo náutico do clube. Sua presença também permite observar a participação feminina na construção das redes de sociabilidade vascaínas em um período de transformação institucional, marcado pela expansão do futebol e pela permanência da tradição do remo. Após sua morte, em 1926, sua memória continuou sendo mobilizada pelo próprio clube: em 1944, uma embarcação recebeu seu nome e, em 1948, os memorialistas Álvaro Nascimento e José da Silva Rocha voltaram a evocá-la nas comemorações do cinquentenário do Vasco. O objetivo deste trabalho é analisar, a partir dessas fontes, a trajetória de Guiomar e o processo pelo qual sua presença passou da experiência vivida à memória histórica do clube. Palavras-chave: Vasco da Gama; mulheres; sociabilidade; futebol; remo; memória. 1. Introdução A história dos clubes esportivos costuma ser narrada principalmente a partir de presidentes, atletas, dirigentes, títulos e grandes acontecimentos esportivos. Essa perspectiva, embora importante, pode deixar em segundo plano personagens que participaram da construção cotidiana dessas instituições. A trajetória de Guiomar Corrêa Marques da Silva oferece uma oportunidade para ampliar essa perspectiva. Sua presença aparece em jornais cariocas dos anos 1920 em diferentes situações relacionadas ao Club de Regatas Vasco da Gama. Ela acompanha excursões, participa de banquetes, aparece vinculada à vida social do clube e, em 1926, é identificada pelo jornal O Imparcial como “a primeira sócia remida” do Vasco. Sua importância não se encerra com sua morte naquele mesmo ano. O clube voltou a homenageá-la em 1944, ao dar seu nome a uma embarcação. Quatro anos depois, durante as comemorações dos cinquenta anos do Vasco, sua memória foi recuperada por dois importantes memorialistas: Álvaro Nascimento, no Jornal dos Sports, e José da Silva Rocha, o Rochinha. A documentação permite, portanto, observar dois momentos distintos: Guiomar como personagem da vida cotidiana do Vasco e Guiomar como personagem da memória histórica do clube. 2. Guiomar e o Vasco em transformação O retorno de Guiomar e de seu marido, Francisco Marques da Silva, ao Rio de Janeiro, em 1923, ocorreu em um momento decisivo para o Vasco. Uma notícia daquele ano registra a recepção ao casal por amigos e “devotados vascaínos”, informando que eles retornavam depois de “tres longos annos de seu afastamento pelo velho mundo”. O jornal apresenta Guiomar como “distinctissima esposa, D. Guiomar Marques da Silva”. O contexto é significativo. Em 1923, o Vasco conquistou o Campeonato Carioca de futebol em sua primeira participação na principal divisão, consolidando uma nova dimensão de sua presença esportiva. Ao mesmo tempo, o remo continuava sendo elemento fundamental da identidade do clube. Guiomar encontra-se, portanto, no interior de um Vasco em processo de expansão, no qual futebol, remo e sociabilidade se articulavam. A documentação de 1923 relacionada às atividades náuticas reforça essa dimensão. O ambiente das regatas não era apenas esportivo: envolvia famílias, relações sociais e participação feminina. Essa perspectiva é importante porque permite compreender a presença de Guiomar não como um episódio isolado, mas como parte de uma rede de sociabilidade em torno do clube. 3. Excursões, banquetes e sociabilidade Em 1924, Guiomar aparece novamente na documentação. Durante a excursão do Vasco da Gama a Juiz de Fora, a imprensa registrou os acontecimentos esportivos e sociais da viagem. Ao descrever o banquete realizado naquela ocasião, o jornal informa: “À mesa, que era presidida pela Exma. Sra. Guiomar Marques da Silva...” A frase demonstra sua participação em uma atividade social vinculada diretamente a uma excursão do clube. Em 1925, a revista Mundo Desportivo, na seção “Vida Social”, publicou uma nota intitulada “D. Guiomar Marques da Silva”, registrando sua participação na viagem do Vasco a São Paulo para o amistoso contra o Palestra Itália. Os dois documentos são relevantes porque mostram uma continuidade. Guiomar não aparece apenas em uma cerimônia específica. Ela participa de diferentes momentos da vida social vascaína entre 1923 e 1925. Esses registros ajudam a deslocar o olhar da história esportiva tradicional — centrada exclusivamente no resultado das partidas — para aquilo que podemos denominar história social do esporte. As excursões, os banquetes, as recepções e os encontros constituíam espaços de construção de identidades e vínculos. Nesse ambiente, a presença feminina também desempenhava papel importante. 4. 1926: a primeira sócia remida O ano de 1926 representa o momento decisivo da trajetória documental de Guiomar. Um registro sobre as “Sócias Remidas” inclui seu nome entre as primeiras integrantes dessa categoria. Mais explicitamente, o jornal O Imparcial publicou, por ocasião de sua morte, o título: “O C. R. Vasco da Gama perde a sua primeira sócia remida.” A formulação é particularmente importante porque permite estabelecer uma distinção histórica precisa. Não é necessário afirmar que Guiomar tenha sido a primeira mulher a se associar ao Vasco, afirmação que exigiria documentação específica. O que a fonte permite afirmar é que ela foi reconhecida como primeira sócia remida do clube. Sua morte também recebeu ampla cobertura. O O Paiz afirmou que Guiomar era “verdadeiramente estimada pelos vascaínos” e destacou sua condição de benemérita. A reportagem chegou a descrever sua residência como uma espécie de “segunda sede” dos jovens vascaínos. Essa expressão deve ser compreendida como uma caracterização jornalística, e não como uma sede oficial do clube. Seu valor histórico está justamente em revelar a dimensão das relações pessoais construídas em torno de Guiomar. O Beira-Mar, por sua vez, registrou a grandeza do cortejo fúnebre, com mais de cem automóveis acompanhando o féretro e homenagens de particulares e diferentes clubes. A documentação revela, assim, que sua morte foi percebida como uma perda não apenas familiar, mas também social e vascaína. 5. Da presença à memória: a homenagem de 1944 A morte de Guiomar não encerrou sua relação simbólica com o Vasco. Em 1944, durante a presidência do professor Manoel Ferreira de Castro Filho, o clube promoveu uma cerimônia de inauguração e batismo de novas embarcações. Entre elas estava uma que recebeu o nome: “Guiomar Marques da Silva” A homenagem possui particular significado porque retorna ao universo náutico do Vasco, justamente um dos ambientes em que sua presença havia sido registrada nos anos 1920. Dezoito anos depois de sua morte, seu nome voltava a ser associado a uma embarcação vascaína. O episódio permite identificar uma mudança importante: Guiomar deixa de ser apenas uma personagem da experiência social do clube e passa a integrar uma política simbólica de preservação da memória vascaína. Seu nome passa a existir materialmente dentro da instituição. 6. 1948: Guiomar na memória do cinquentenário As comemorações dos cinquenta anos do Vasco, em 1948, produziram novas referências à sua trajetória. O jornalista Álvaro Nascimento, em sua coluna do Jornal dos Sports, intitulada “Coisas Que Só Acontecem ao Vasco...”, recuperou personagens e acontecimentos dos primeiros tempos do clube, entre eles Guiomar e Francisco Marques da Silva. No mesmo contexto, José da Silva Rocha, o Rochinha, também retomou a memória de Guiomar. O título de sua matéria apresentava uma formulação particularmente expressiva: “Tinha um presidente, mas ‘Dona Guiomar’ era o coração do club.” A importância desses registros está no intervalo temporal. Guiomar havia morrido em 1926. Em 1948, vinte e dois anos depois, seu nome ainda era mobilizado por aqueles que reconstruíam publicamente a história do Vasco. A documentação permite perceber, portanto, um processo de transformação da memória individual em memória institucional. Primeiro, Guiomar é lembrada por aqueles que conviveram com ela. Depois, seu nome aparece em uma embarcação. Finalmente, passa a ser recuperado nas narrativas históricas sobre os primeiros anos do clube. 7. Considerações finais A trajetória de Guiomar Corrêa Marques da Silva contribui para ampliar a compreensão da história do Vasco da Gama e, de maneira mais ampla, da história social dos esportes no Rio de Janeiro. Os documentos analisados não apresentam Guiomar como dirigente ou atleta. Sua importância aparece em outro campo: o da sociabilidade, da participação feminina e da construção de vínculos comunitários em torno de um clube esportivo. Entre 1923 e 1926, as fontes registram sua presença em diferentes momentos da vida vascaína: o retorno ao Brasil, as atividades sociais, a excursão a Juiz de Fora, a viagem a São Paulo e sua condição de primeira sócia remida. Após sua morte, em 1926, sua memória permaneceu ativa. A homenagem de 1944, com o batismo de uma embarcação com seu nome, e as referências de Álvaro Nascimento e José da Silva Rocha em 1948 demonstram que Guiomar passou a integrar a própria narrativa histórica do Vasco. Nesse sentido, sua trajetória permite observar um processo em três etapas: presença, homenagem e memória. Guiomar foi uma mulher presente na vida cotidiana do Vasco dos anos 1920; tornou-se, depois, objeto de homenagens institucionais; e finalmente passou a integrar as narrativas daqueles que procuravam preservar a memória dos primeiros tempos do clube. Cem anos após sua morte, recuperar essa trajetória significa também questionar uma narrativa esportiva centrada exclusivamente nos grandes resultados e nos protagonistas masculinos. A história de Guiomar revela que a construção de uma instituição esportiva também acontece nos espaços de convivência, nas viagens, nos banquetes, nas famílias e nas relações sociais. Por isso, a frase de Rochinha, publicada em 1948, adquire um significado especial: “Dona Guiomar era o coração do club.” Mais do que uma homenagem individual, a frase pode ser lida como testemunho de uma dimensão frequentemente esquecida da história esportiva: a construção afetiva e social de uma comunidade em torno de um clube. Fontes jornalísticas principais 1923 — notícia sobre o retorno de Marques da Silva e Guiomar ao Rio de Janeiro. 1923 — Mundo Desportivo, registros relacionados às atividades náuticas do Vasco. 1924 — reportagem “A excursão do Vasco da Gama a Juiz de Fóra”. 1925 — Mundo Desportivo, seção “Vida Social”, nota “D. Guiomar Marques da Silva”. 1926 — O Imparcial, “O C. R. Vasco da Gama perde a sua primeira sócia remida”. 1926 — O Paiz, “O Vasco da Gama enlutado”. 1926 — Beira-Mar, notícia sobre o falecimento e o cortejo fúnebre. 1944 — registro da inauguração/batismo de embarcações do Vasco, incluindo a “Guiomar Marques da Silva”. 1948 — Jornal dos Sports, Álvaro Nascimento, “Coisas Que Só Acontecem ao Vasco...”. 1948 — José da Silva Rocha, “Tinha um presidente, mas ‘Dona Guiomar’ era o coração do club.”

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Antônio de Almeida Pinho: o comendador que ajudou a construir São Januário

Empresário português, presidente do Vasco em diferentes períodos e primeiro Grande Benemérito do clube, Almeida Pinho teve participação fundamental na consolidação patrimonial da instituição. A história do Club de Regatas Vasco da Gama, especialmente nas primeiras décadas do século XX, está intimamente ligada à atuação de dirigentes portugueses que contribuíram para transformar uma associação de remadores em uma das maiores instituições esportivas do Brasil. Entre esses personagens, destaca-se o comendador Antônio de Almeida Pinho, empresário da indústria metalúrgica carioca, presidente do clube em diferentes ocasiões e um dos principais responsáveis pela construção do Estádio de São Januário. Nascido em Macieira de Cambra, Portugal, Almeida Pinho estabeleceu-se no Rio de Janeiro, onde construiu uma trajetória empresarial de prestígio. Tornou-se proprietário da Fundição Progresso, importante estabelecimento dedicado à produção de aço e diversos objetos metálicos. Sua posição no meio industrial e sua ligação com a comunidade portuguesa contribuíram para sua atuação no associativismo esportivo da capital federal. Vasco A chegada à presidência do Vasco Almeida Pinho assumiu pela primeira vez a presidência do Vasco em 15 de abril de 1921, após a renúncia de Francisco Marques da Silva. Eleito para completar o período administrativo, foi reconduzido ao cargo em dezembro daquele ano, tomando posse para o mandato seguinte em 15 de janeiro de 1922. Naquele momento, o Vasco atravessava uma fase de expansão esportiva e institucional. O clube, que havia conquistado prestígio nas competições de remo, ampliava sua presença no futebol carioca e fortalecia seus vínculos com diferentes setores da sociedade do Rio de Janeiro. Sua administração antecedeu uma das maiores transformações da história vascaína: a conquista do Campeonato Carioca de 1923, com uma equipe composta por jogadores de diferentes origens sociais, que se tornaria conhecida como os Camisas Negras. Almeida Pinho retornou à presidência em janeiro de 1925, precisamente quando o projeto de construção de um estádio próprio se transformava em uma das maiores prioridades do clube. Vasco +1 A construção de São Januário A conquista do Campeonato Carioca de 1923 e os conflitos que culminaram na chamada Resposta Histórica de 1924 marcaram um período decisivo para o Vasco. Diante das resistências enfrentadas no futebol carioca e das exigências relativas à infraestrutura esportiva, o clube intensificou seus esforços para construir um estádio próprio. Durante a presidência de Almeida Pinho, em 28 de março de 1925, o Vasco assinou o compromisso de compra de um terreno pertencente à Sociedade Anônima Lameiro, localizado no bairro de São Cristóvão, em uma região conhecida como Chacrinha do Imperador. A propriedade possuía 65.445 metros quadrados e foi adquirida pelo valor de 609 contos e 895 mil-réis. Representaram o Vasco na assinatura do documento o presidente Antônio de Almeida Pinho e o primeiro diretor de Esportes Terrestres, Manoel Joaquim Pereira Ramos. Vasco A participação do comendador, entretanto, ultrapassou suas responsabilidades administrativas. Segundo o Centro de Memória do Vasco, Almeida Pinho contribuiu pessoalmente com grandes quantidades de ferro e recursos financeiros para a construção do estádio. Também doou o cofre utilizado para guardar o dinheiro arrecadado durante a campanha. O empreendimento mobilizou dirigentes, empresários, comerciantes, trabalhadores, associados e torcedores. A Campanha dos 10 Mil, os empréstimos, as doações e outras iniciativas financeiras permitiram que o clube reunisse os recursos necessários para realizar uma obra de dimensões extraordinárias para a época. Vasco A construção prosseguiu durante a administração de Raul da Silva Campos, sucessor de Almeida Pinho. Em 21 de abril de 1927, o Vasco inaugurou São Januário, então o maior estádio da América do Sul. A participação de Almeida Pinho na aquisição do terreno e no financiamento da construção assegurou-lhe um lugar de destaque entre os dirigentes responsáveis pela concretização daquele projeto. O empresário e sua atuação na sociedade carioca Além de sua trajetória esportiva, Antônio de Almeida Pinho destacou-se no meio empresarial do Rio de Janeiro. A homenagem póstuma apresentada em um dos recortes de imprensa revela sua importância para a indústria metalúrgica da então capital federal. O artigo identifica sua ligação com a firma L. B. de Almeida & Cia. e registra a repercussão de seu falecimento entre empresários, amigos e familiares. A publicação também destaca sua atuação filantrópica, sua honestidade e sua dedicação ao esporte nacional. O Vasco da Gama aparece como a instituição esportiva à qual o comendador dedicou especial atenção. A reportagem permite conhecer ainda aspectos de sua vida familiar. Almeida Pinho era casado com Áurea de Souza Pinho, mencionada na homenagem ao lado dos familiares que receberam manifestações de solidariedade por ocasião de sua morte. Após seu falecimento, a direção da firma L. B. de Almeida & Cia. passou a Luiz Bernardo de Almeida, José Ribeiro de Paiva, Delfim de Almeida Pinho, José de Sá Reis e Aníbal Soares Abrantes, apresentados como antigos sócios e colaboradores da empresa. Essas informações ampliam o conhecimento sobre Almeida Pinho para além de sua atuação esportiva, permitindo compreender sua inserção no meio industrial e nas redes de sociabilidade da comunidade portuguesa do Rio de Janeiro. O retorno à presidência e os últimos anos A ligação de Almeida Pinho com o Vasco não terminou com a inauguração de São Januário. Em novembro de 1932, após a renúncia de Raul da Silva Campos, o comendador voltou à presidência. Foi novamente eleito em 5 de janeiro de 1933, mas renunciou ainda naquele mês. Em 26 de janeiro, Victor José Pereira de Moraes assumiu a presidência para completar o período administrativo. Vasco Sua última passagem pelo comando do clube ocorreu em um momento de mudanças no futebol brasileiro, quando os debates sobre a implantação do profissionalismo ganhavam força e alteravam a organização das instituições esportivas. Ao longo de sua trajetória, Almeida Pinho recebeu o título de Grande Benemérito, sendo reconhecido como o primeiro associado a alcançar essa distinção no Vasco. O reconhecimento estava associado aos serviços prestados à instituição e, especialmente, à sua contribuição para a formação do patrimônio vascaíno. O falecimento e as homenagens de 1942 O comendador Antônio de Almeida Pinho faleceu em 1942, deixando uma trajetória marcada pela atividade empresarial, pela filantropia e pela dedicação ao Vasco da Gama. A homenagem póstuma publicada na imprensa carioca, acompanhada de seu retrato, demonstra o reconhecimento que recebeu entre seus contemporâneos. O texto recorda sua importância para a indústria metalúrgica do Rio de Janeiro e ressalta os serviços prestados ao esporte. Em 30 de agosto de 1942, durante as comemorações do 44º aniversário do Vasco, foi inaugurado em São Januário um busto em sua homenagem, obra do escultor brasileiro Modestino Kanto. Na mesma ocasião, foram inaugurados os bustos do navegador Vasco da Gama, patrono do clube, e de Joaquim Carneiro Dias, destacado remador e dirigente vascaíno. Também foi reinaugurado o busto de Raul da Silva Campos, originalmente inaugurado em 1927. Vasco A homenagem reuniu, portanto, personagens de diferentes momentos da história vascaína, preservando a memória de homens que contribuíram para a formação e a consolidação da instituição. O legado de Almeida Pinho A trajetória do comendador Antônio de Almeida Pinho representa um capítulo importante da história da presença portuguesa no desenvolvimento do esporte brasileiro. Sua atuação como empresário e dirigente contribuiu para a consolidação do Vasco em uma época na qual as associações esportivas dependiam fortemente do envolvimento pessoal de seus administradores e associados. Ao participar da compra do terreno de São Januário e contribuir financeiramente para a construção do estádio, Almeida Pinho ajudou a transformar em realidade um projeto que mobilizou milhares de vascaínos. Seu legado, entretanto, não deve ser compreendido isoladamente. A construção de São Januário foi resultado de um esforço coletivo, no qual se destacaram diferentes dirigentes, empresários, trabalhadores e torcedores. Almeida Pinho integrou esse movimento, colocando sua experiência administrativa e seus recursos a serviço do clube. O busto que perpetua sua memória em São Januário constitui um testemunho do reconhecimento recebido por um dos personagens fundamentais da formação do patrimônio vascaíno. Fontes e referências para a publicação ⦁ Presidentes « Vasco da Gama, site oficial do Vasco da Gama. Relação cronológica dos presidentes e respectivos mandatos. ⦁ São Januário « Vasco da Gama, site oficial do Vasco da Gama. Histórico do estádio e dos monumentos, com informações sobre Almeida Pinho. ⦁ São Januário: 95 anos « Vasco da Gama, site oficial do Vasco da Gama. Documentação sobre a compra do terreno e a construção do estádio. ⦁ Álvaro Nascimento, coluna O Vasco em Dia, recorte de imprensa fornecido para esta pesquisa. ⦁ Comendador Antonio de Almeida Pinho, homenagem póstuma publicada na imprensa carioca, recorte fornecido para esta pesquisa.

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RAUL DA SILVA CAMPOS: O HOMEM QUE AJUDOU A CONSTRUIR O VASCO MODERNO

Do jovem imigrante português ao presidente de São Januário: a trajetória de um dos principais dirigentes da história vascaína. Por Jorge Medeiros | Memória do Torcedor Vascaíno O jovem imigrante português No final do século XIX, milhares de jovens portugueses atravessaram o Atlântico em busca de oportunidades no Brasil. Entre eles estava Raul da Silva Campos, nascido em 2 de outubro de 1886, na cidade de Póvoa do Varzim, em Portugal, terra natal do escritor Eça de Queiroz. Em 1898, aos 12 anos, Raul desembarcou no Rio de Janeiro. Sua chegada coincidiu com o ano de fundação do Club de Regatas Vasco da Gama, instituição à qual dedicaria grande parte de sua existência. Pouco se conhece sobre sua infância em Portugal e os primeiros anos na capital brasileira. Entretanto, sua trajetória revela um jovem interessado nas práticas esportivas que conquistavam espaço entre a juventude carioca. Em 1903, ingressou no Vasco, dedicando-se inicialmente à ginástica e ao remo. Naqueles tempos, as regatas estavam entre os espetáculos esportivos mais populares do Rio de Janeiro. O Vasco começava a conquistar prestígio nas competições náuticas, alcançando os títulos de 1904 e 1905. Raul também incentivou a vinda de seu irmão mais novo, Antonio da Silva Campos, que chegou ao Brasil em outubro de 1902. Os dois jovens portugueses encontrariam no clube um ambiente de convivência, amizade e participação esportiva. Ao longo das décadas seguintes, os irmãos Campos se tornariam personagens fundamentais da história vascaína. O comerciante e os irmãos Campos Enquanto frequentava o Vasco, Raul desenvolvia suas atividades comerciais. Tornou-se proprietário da Casa Campos e, posteriormente, adquiriu a Casa Sportman, estabelecimento especializado em artigos esportivos. O crescimento do comércio de materiais esportivos acompanhava a popularização das atividades físicas e a expansão do futebol no Rio de Janeiro. Raul e Antonio possuíam personalidades distintas. Os relatos memorialísticos apresentam Raul como um homem racional, pragmático e habilidoso nos negócios. Antonio, por sua vez, era conhecido pelo temperamento emotivo e pela dedicação quase ilimitada às atividades vascaínas. Essas diferenças também se manifestaram em suas trajetórias profissionais. Enquanto Raul alcançou prosperidade comercial, Antonio enfrentou dificuldades financeiras que culminaram na falência de seu estabelecimento. Posteriormente, encontrou apoio no irmão, que lhe ofereceu trabalho na Casa Sportman. Apesar dos temperamentos diferentes, os dois compartilhavam uma profunda identificação com o Vasco. Juntos, participariam da transformação de uma agremiação essencialmente dedicada ao remo em um dos grandes clubes de futebol do Brasil. A primeira presidência e a introdução do futebol Aos 29 anos, Raul Campos assumiu pela primeira vez a presidência do Vasco, em 7 de outubro de 1915, após a renúncia de Alfredo Rebello Nunes. Seu mandato duraria poucos meses, mas seria decisivo para o futuro da instituição. Naquele momento, o futebol conquistava rapidamente a preferência da juventude carioca. Apesar disso, parte expressiva dos associados vascaínos, especialmente os ligados ao remo, resistia à introdução da modalidade. Raul compreendeu a importância do novo esporte para a expansão do clube. Uma de suas estratégias foi defender a incorporação do Lusitania Sport Club, agremiação futebolística formada por integrantes da comunidade portuguesa. Em 26 de novembro de 1915, uma reforma estatutária oficializou a prática do futebol no Vasco. No ano seguinte, o clube disputaria seu primeiro campeonato oficial, na terceira divisão carioca. Vasco +1 O futebol começava a conquistar seu espaço na instituição, e Raul Campos seria um dos principais responsáveis por essa transformação. Os Camisas Negras e a ascensão vascaína A década de 1920 representou um período de profundas mudanças na história do Vasco. Com a crescente popularização do futebol, o clube passou a investir na formação de equipes competitivas. Raul Campos e seu irmão Antonio tiveram participação importante nesse processo. Em 1923, durante a presidência de Antonio Campos, o Vasco conquistou o Campeonato Carioca com os históricos Camisas Negras, equipe formada por jogadores de diferentes origens sociais e raciais. A conquista representou um marco esportivo e social. O sucesso vascaíno incomodou parte das agremiações tradicionais, que no ano seguinte organizaram uma nova entidade, a Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (AMEA). Em abril de 1924, o presidente José Augusto Prestes encaminhou à entidade a célebre Resposta Histórica, recusando as exigências que implicavam afastar jogadores vascaínos de suas competições. 11/2024 +1 Raul Campos permaneceu atuante na política interna e participou da mobilização que daria origem ao projeto mais ambicioso da história do clube: a construção de um estádio próprio. A campanha financeira para São Januário Uma das contribuições mais importantes das crônicas de Álvaro Nascimento é demonstrar que a construção de São Januário resultou de um processo coletivo, iniciado antes da segunda passagem de Raul Campos pela presidência. Segundo o memorialista, Raul participou da organização das campanhas financeiras desenvolvidas a partir do final de 1924, quando Antonio de Almeida Pinho presidia o clube. A iniciativa envolveu a mobilização dos associados, a distribuição de listas de arrecadação e a emissão de debêntures, títulos que permitiam financiar a construção. Álvaro Nascimento menciona aproximadamente 500 listas distribuídas entre os associados e debêntures de 100 mil-réis, pagáveis em prestações mensais e sem juros. O projeto contou com a participação de diferentes segmentos da comunidade vascaína. Comerciantes, trabalhadores, dirigentes e torcedores contribuíram de acordo com suas possibilidades. A documentação oficial do Vasco confirma que a campanha reuniu doações, empréstimos internos e bancários, emissão de debêntures e a ampliação do quadro associativo, conhecida como Campanha dos 10 Mil. Vasco Em 28 de março de 1925, o clube adquiriu o terreno de São Cristóvão onde seria erguido o estádio. A construção começava a deixar de ser apenas um sonho. O presidente de São Januário Eleito em dezembro de 1925, Raul Campos assumiu novamente a presidência em 15 de janeiro de 1926. Encontrou diante de si a responsabilidade de conduzir uma das maiores realizações da história do esporte brasileiro. Astuto e dinâmico, soube reunir dirigentes, empresários e associados em torno da construção do estádio. Em 17 de abril de 1926, assinou o contrato com a construtora Christiani & Nielsen. Pouco depois, em 6 de junho, foi lançada a pedra fundamental da obra. Vasco A construção mobilizou milhares de vascaínos, que acompanharam com entusiasmo o desenvolvimento dos trabalhos. Em menos de um ano, o projeto estava concluído. No dia 21 de abril de 1927, São Januário foi inaugurado diante de uma multidão, com a presença do presidente da República, Washington Luís, e de importantes autoridades esportivas brasileiras e portuguesas. O estádio se tornou o maior do Brasil naquele momento e representou uma extraordinária conquista para a comunidade vascaína. Vasco Raul Campos passava definitivamente à história como o presidente que conduziu a construção da nova casa do Vasco. O reconhecimento foi imediato. Em 9 de outubro de 1927, ainda durante sua administração, o clube inaugurou um busto de bronze em sua homenagem, obra do escultor Rodolfo Bernardelli. O monumento seria reinaugurado em agosto de 1942. Vasco O título de 1929 e a excursão europeia Raul Campos continuou à frente do Vasco durante os anos seguintes, sendo sucessivamente reeleito. Em 1929, o clube conquistou novamente o Campeonato Carioca, encerrando um período de cinco anos sem o título principal. Dois anos depois, o presidente participou de outro acontecimento histórico: a primeira excursão do futebol vascaíno à Europa. A viagem de 1931 ampliou a projeção internacional do Vasco, mas também provocou controvérsias. O clube deixou o Brasil quando liderava o Campeonato Carioca, circunstância que contribuiu para o descontentamento de parte dos associados. Durante a excursão, dois importantes jogadores, Jaguaré e Fausto, permaneceram na Europa, desfalcando a equipe. A experiência demonstrou tanto a capacidade esportiva do Vasco quanto as dificuldades enfrentadas pelo futebol brasileiro em uma época de transição entre o amadorismo e o profissionalismo. A luta pelo profissionalismo Em novembro de 1932, Raul Campos renunciou à presidência, sendo sucedido por Antonio de Almeida Pinho. Desde janeiro de 1926, havia exercido sete mandatos consecutivos, período marcado pela construção do estádio, pelo título carioca de 1929 e pela excursão europeia. Vasco Sua saída da presidência, entretanto, não significou o afastamento da política esportiva. Em 1933, participou ativamente do movimento que implantou o profissionalismo no futebol carioca, tornando-se o primeiro presidente da Liga Carioca de Football. A nova entidade reuniu clubes como Vasco, Fluminense e América, inaugurando uma nova etapa na organização do futebol brasileiro. Vasco Raul havia participado de três transformações fundamentais: a introdução do futebol no Vasco, a construção de um grande estádio e a consolidação do profissionalismo. Uma liderança além de São Januário A atuação de Raul Campos não se limitou ao Vasco. Uma reportagem publicada em 1966 recuperou episódios de sua participação em outras instituições esportivas, destacando sua presença na delegação brasileira que participou do Campeonato Sul-Americano de Remo de 1930, em Montevidéu. O texto também recordou sua trajetória empresarial e seus vínculos com entidades esportivas e recreativas. Embora não tenha voltado à presidência vascaína depois de 1932, Raul permaneceu influente na vida política do clube. Seu prestígio também se manifestava no relacionamento com antigos companheiros e dirigentes, que reconheciam sua contribuição para a expansão patrimonial e esportiva da instituição. A homenagem de 1954 Em abril de 1954, por ocasião do aniversário da inauguração de São Januário, Raul Campos recebeu uma nova demonstração de reconhecimento. Uma reportagem intitulada Homenagem aos grandes do progresso vascaíno anunciava a iniciativa de realizar um almoço em sua homenagem na sede do clube, na Rua Jardim Botânico. A matéria apresentava Raul como símbolo da fase de grandes realizações materiais do Vasco, destacando a construção do estádio e outras obras realizadas durante seus mandatos. A homenagem demonstrava que, mais de duas décadas depois de deixar a presidência, Raul continuava sendo uma referência para os associados. Seu nome permanecia associado ao período em que o Vasco consolidara sua posição entre as grandes instituições esportivas brasileiras. Os 80 anos de Raul Campos Em outubro de 1966, Raul da Silva Campos completou 80 anos. Na ocasião, uma extensa reportagem recordou sua trajetória, apresentando-o como sócio nº 1 do Vasco e destacando suas realizações esportivas. A publicação recuperou sua participação nos primeiros tempos do remo, a introdução do futebol, a construção de São Januário e suas atividades fora do clube. O octogenário ainda era uma personalidade conhecida e respeitada no ambiente esportivo. A homenagem representava o reconhecimento a uma geração de imigrantes portugueses que havia participado da transformação do esporte carioca nas primeiras décadas do século XX. A amizade com Álvaro Nascimento Entre os personagens que preservaram a memória de Raul Campos, destacou-se Álvaro Nascimento, o popular Zé de São Januário. O jornalista dedicou diversas crônicas ao antigo presidente, recuperando acontecimentos administrativos, episódios pessoais e lembranças de uma amizade construída ao longo de décadas. Em uma dessas crônicas, Álvaro recordou a participação de Raul na campanha financeira iniciada em 1924, ressaltando sua contribuição para a construção do estádio. Também revelou um episódio pouco conhecido: Raul Campos foi responsável pela construção do altar e do piso da Capela de Nossa Senhora das Vitórias, em São Januário. A informação demonstra que seu envolvimento com a instituição ultrapassava as atividades administrativas e esportivas. Álvaro também recordou uma visita à família de Raul, ocasião em que recebeu do antigo presidente uma pequena reprodução em bronze da estátua de Vasco da Gama. A amizade entre os dois se prolongaria até os últimos anos de vida do dirigente. A despedida de Raul Campos Documento histórico — setembro de 1969 A missa de sétimo dia Em setembro de 1969, o Vasco publicou um anúncio convidando associados, desportistas, parentes e amigos para a missa de sétimo dia de Raul Campos. A cerimônia foi marcada para segunda-feira, 15 de setembro, às 11 horas, no altar-mor da Igreja de São Francisco de Paula, no centro do Rio de Janeiro. A família publicou outro anúncio, agradecendo as manifestações de pesar recebidas. Raul da Silva Campos faleceu em setembro de 1969, aos 82 anos. Sua morte encerrou uma trajetória de mais de seis décadas de participação na vida vascaína. O clube prestou-lhe homenagens religiosas e destacou sua condição de Grande Benemérito e antigo presidente. Álvaro Nascimento, que acompanhara grande parte de sua trajetória, registrou em uma de suas crônicas uma homenagem particularmente pessoal: a construção do túmulo de Raul Campos no Cemitério de São João Batista. A lembrança do memorialista revela uma dimensão humana da relação entre o dirigente e aqueles que compartilharam com ele os momentos de crescimento do Vasco. O legado de um construtor Raul da Silva Campos pertence a uma geração de dirigentes que participou diretamente da transformação do Vasco da Gama. Chegou ao Brasil ainda menino, quando o clube dava seus primeiros passos. Tornou-se associado durante os tempos gloriosos do remo, incentivou a introdução do futebol e participou da formação da estrutura administrativa que sustentaria as conquistas dos Camisas Negras. Sua atuação na construção de São Januário permanece como um dos capítulos centrais de sua trajetória. Ao lado de outros dirigentes, associados e milhares de torcedores, contribuiu para transformar o sonho de um estádio próprio em realidade. Posteriormente, participou da organização do futebol profissional e continuou ligado ao ambiente esportivo brasileiro. As homenagens recebidas em vida, especialmente em 1954 e 1966, demonstram o reconhecimento que sua geração lhe dedicou. Mais do que um presidente de muitos mandatos, Raul Campos foi um dos protagonistas da passagem do Vasco de um clube de regatas para uma instituição esportiva de projeção nacional. Seu nome permanece associado à construção de São Januário, às primeiras grandes conquistas do futebol vascaíno e à história dos imigrantes portugueses que ajudaram a construir o Vasco moderno. Fontes e documentação histórica Esta versão reúne seu artigo publicado em junho de 2024, as crônicas de Álvaro Nascimento e os recortes de imprensa que você compartilhou, incluindo as homenagens de 1954 e 1966 e os anúncios religiosos de setembro de 1969. A cronologia presidencial e os dados relativos à construção de São Januário foram confrontados com a relação oficial de presidentes  e o histórico de São Januário  publicados pelo Vasco. Para a versão definitiva destinada ao blog, restam apenas algumas verificações documentais: identificar os jornais e as datas exatas dos recortes, confirmar o dia do falecimento de Raul e conferir integralmente os trechos das crônicas de Álvaro Nascimento que aparecem cortados nas imagens.

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Lasca o Pau: os pioneiros da torcida vascaína entre o remo, o futebol e o carnaval

Desde 1917, uma turma de amigos acompanhava as competições do Vasco, organizava festas e excursões e participava das rivalidades esportivas. Sua história ajuda a compreender as origens da torcida vascaína e a intensa vida social dos clubes de remo do Rio de Janeiro. Por Jorge Medeiros Uma turma de amigos apaixonados pelo Vasco Muito antes do surgimento das grandes torcidas organizadas, o Club de Regatas Vasco da Gama já contava com grupos de torcedores que acompanhavam suas competições esportivas, organizavam atividades recreativas e participavam intensamente da vida social do clube. Entre essas primeiras manifestações coletivas da torcida vascaína, destacou-se uma turma conhecida pelo curioso e provocativo nome de Lasca o Pau. Reunido a partir de 1917, o grupo era formado por amigos que acompanhavam o Vasco nas competições de remo e futebol. Seus integrantes frequentavam as regatas e os campos onde o clube disputava suas partidas, demonstrando entusiasmo e disposição para defender as cores vascaínas. O Lasca o Pau surgiu em uma época de profundas transformações no esporte carioca. O remo ainda ocupava posição de destaque na vida esportiva da cidade, enquanto o futebol conquistava um público cada vez maior. Nesse ambiente, os torcedores começavam a desenvolver novas formas de organização e de identificação com seus clubes. A turma reunia características que posteriormente seriam encontradas nas torcidas organizadas: a presença coletiva nas competições, a identificação com o clube, a convivência entre seus integrantes e a rivalidade com os adversários. Entretanto, sua atuação não se limitava aos acontecimentos esportivos. O Lasca o Pau também organizava festas, passeios, excursões e atividades carnavalescas, constituindo um importante espaço de sociabilidade entre os vascaínos. A rivalidade esportiva e os primeiros grupos de torcedores O nome Lasca o Pau traduzia o espírito provocador de seus integrantes. Em uma época em que as rivalidades esportivas frequentemente ultrapassavam os limites das competições, a turma também se envolvia em brigas com torcedores adversários. A atuação desses primeiros grupos deve ser compreendida no contexto das disputas esportivas do início do século XX, quando os confrontos entre clubes mobilizavam associados, atletas e torcedores. As lembranças preservadas pelo jornalista e memorialista Álvaro Nascimento são especialmente importantes para recuperar esse universo. Em suas crônicas, o jornalista registrou histórias de antigos vascaínos e personagens que participaram da formação da torcida do clube. Entre os nomes associados àqueles primeiros grupos aparecem Rafael Verri, Aquiles Astuto, Adão Brandão e Edgar Lody Batalha. A identificação precisa de todos os integrantes do Lasca o Pau, entretanto, ainda depende de pesquisas complementares. Mais do que simplesmente assistir às competições, aqueles torcedores faziam da defesa do Vasco uma experiência coletiva, marcada pela amizade, pela paixão esportiva e, por vezes, pelos confrontos com os adversários. O carnaval e a vida social da Rua Santa Luzia Uma das características mais interessantes do Lasca o Pau era sua intensa participação nas festividades carnavalescas. Na década de 1920, os clubes de remo instalados na região da Rua Santa Luzia desempenhavam papel importante na organização do carnaval carioca. Além das competições esportivas, promoviam bailes, batalhas de confetes, banhos de mar à fantasia e outras atividades recreativas. O Vasco participava ativamente desse ambiente festivo, e o Lasca o Pau era uma das expressões dessa tradição. Os recortes de jornais da época permitem documentar algumas dessas atividades e revelam que a turma possuía uma organização própria para promover seus eventos. Uma notícia publicada na imprensa carioca informa que a comissão do Lasca o Pau pretendia realizar um banho de mar à fantasia, convidando os associados do Vasco a participar da iniciativa. O anúncio é particularmente significativo porque demonstra a existência de uma comissão responsável pela organização das atividades do grupo. Também evidencia sua integração à vida social do clube. O Lasca o Pau, portanto, não era apenas uma reunião informal de torcedores que acompanhavam as competições. Seus integrantes também promoviam acontecimentos recreativos que mobilizavam outros associados e contribuíam para fortalecer os vínculos de amizade entre os vascaínos. As excursões e a convivência com outros clubes A participação do Lasca o Pau nas atividades carnavalescas não se restringia à sede vascaína. Uma notícia de 1923 registra a presença do grupo entre os participantes de uma excursão carnavalesca organizada pelo bloco Espanta Secos, com destino a Guaratiba. A programação incluía banho de mar e atividades recreativas, reunindo representantes de diferentes associações. O documento revela um aspecto interessante da sociabilidade esportiva daquele período: apesar das rivalidades existentes nas competições, integrantes de diferentes clubes também participavam de atividades recreativas conjuntas. As excursões, os passeios e as festividades contribuíam para ampliar as relações sociais dos associados, aproximando o universo esportivo das manifestações populares do carnaval carioca. Uma noite de festa até o nascer do sol Outro documento especialmente interessante anuncia uma grande batalha de confetes na Rua Santa Luzia, promovida pelos clubes de regatas locais em homenagem ao prefeito Antônio Prado Júnior. A programação previa quatro bandas de música militares, distribuição de prêmios e uma comissão julgadora formada por senhoritas, presidida pela esposa do prefeito. Entre as atrações, destacava-se uma festa organizada pelo Lasca o Pau na sede do Vasco. Segundo a notícia, a turma promoveria um baile animado por uma jazz-band, destinado a alegrar os associados até o nascer do sol. O documento menciona ainda um personagem conhecido pelo curioso apelido de "Lord Só na Brahma", que exerceria a função de secretário da comissão. A notícia oferece um retrato da atmosfera descontraída dessas festas, nas quais música, humor e convivência social se misturavam ao entusiasmo esportivo. A identificação desse personagem constitui uma pista interessante para futuras pesquisas sobre os integrantes e a organização interna do Lasca o Pau. O carnaval dos clubes de remo em 1925 Uma reportagem publicada em 1925 permite compreender melhor a importância dos clubes de remo da Rua Santa Luzia na organização das festividades carnavalescas. Sob o título A César o que é de César, o jornal descrevia os preparativos de uma festa organizada conjuntamente pelos quatro clubes náuticos da região. A programação incluía banho de mar à fantasia, brincadeiras e distribuição de prêmios. O texto também destacava a participação de senhoritas e dirigentes na organização das atividades. Essas notícias ajudam a situar o Lasca o Pau em um ambiente no qual a prática esportiva e as atividades recreativas estavam profundamente relacionadas. É importante distinguir as iniciativas promovidas diretamente pelo grupo daquelas organizadas conjuntamente pelos clubes de remo. Os documentos demonstram que o Lasca o Pau participava desse universo festivo, mas nem todas as atividades anunciadas podem ser atribuídas exclusivamente à turma. O Lasca o Pau na memória do carnaval carioca Décadas depois, o grupo continuaria presente na memória dos antigos vascaínos. Em 1964, uma crônica publicada na coluna Uma Pedrinha na Chuteira, assinada por Zé de São Januário, lamentava o desaparecimento de antigas tradições carnavalescas ligadas ao Vasco. O cronista recordava o Lasca o Pau e o Bloco das Baianas da Orgia, manifestações que haviam marcado o carnaval dos clubes de remo. Também mencionava a marchinha Teu Cabelo Não Nega, de Lamartine Babo, associada às antigas rivalidades carnavalescas entre o Vasco e o Batalhão Naval. A crônica é um testemunho importante da permanência dessas manifestações na memória vascaína. Embora não permita determinar exatamente quando o Lasca o Pau encerrou suas atividades, demonstra que sua lembrança ainda estava viva na década de 1960. Outra reportagem, publicada em 1977, voltou a recordar a participação dos clubes de remo no carnaval carioca. O texto mencionava os blocos Lasca o Pau e Baianas da Orgia, ligados ao Vasco, além de agrupamentos carnavalescos de outras associações esportivas. Esses registros demonstram que as festas organizadas pelos clubes náuticos constituíram uma tradição importante na vida cultural do Rio de Janeiro. Uma página da história da torcida vascaína A história do Lasca o Pau permite recuperar uma dimensão pouco conhecida das origens da torcida do Vasco. Formado por amigos que acompanhavam o clube nas competições de remo e futebol, o grupo também participava ativamente da vida recreativa e carnavalesca da cidade. Suas atividades demonstram que a identidade vascaína era construída não apenas nos momentos de disputa esportiva, mas também nas festas, nas excursões, nos encontros entre amigos e nas experiências compartilhadas pelos associados. O Lasca o Pau pertence a uma geração de torcedores que antecedeu o aparecimento das grandes organizações das arquibancadas. Sua trajetória ajuda a compreender as transformações da cultura de torcida, desde os pequenos grupos de amigos até as manifestações coletivas que posteriormente ganhariam maior visibilidade no futebol brasileiro. Recuperar sua história significa também preservar a memória de personagens e tradições que contribuíram para a formação da identidade popular do Vasco da Gama.

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