Resumo
Este artigo analisa a trajetória de Dulce Rosalina, uma das personagens mais importantes da história das torcidas do Clube de Regatas Vasco da Gama, procurando situá-la em uma história mais ampla da participação feminina na cultura esportiva vascaína. Em vez de tomar sua liderança da Torcida Organizada do Vasco (TOV), iniciada em 1956, como ponto inaugural da presença das mulheres nas arquibancadas, o artigo propõe uma genealogia que inclui personagens anteriores, como Josepha Pereira, Guiomar Corrêa Marques da Silva, Aida de Almeida e Margarida Portugal. A trajetória de Dulce é analisada a partir de sua inserção precoce na vida do clube, de sua convivência com jogadores, dirigentes e associados, de sua transformação em “torcedora-símbolo”, de sua liderança da TOV, de sua participação na política associativa do Vasco, da fundação da Renovascão e de sua posterior transformação em personagem de memória. Argumenta-se que Dulce representa um momento de institucionalização e grande visibilidade de uma presença feminina que já possuía antecedentes nas primeiras décadas do século XX. Sua trajetória permite ainda observar as transformações das torcidas cariocas, a importância da imprensa esportiva na fabricação dos “torcedores-símbolo” e a passagem de uma cultura de arquibancada baseada em sociabilidades pessoais, familiares e festivas para um universo progressivamente mais fragmentado e marcado por novas formas de organização.
Palavras-chave: Vasco da Gama; torcidas organizadas; Dulce Rosalina; mulheres; futebol; memória; arquibancadas.
1. Introdução
A história das torcidas de futebol no Rio de Janeiro costuma ser narrada a partir de grandes organizações, dirigentes e personagens masculinos. Entretanto, a presença feminina nas arquibancadas possui uma trajetória muito mais antiga e complexa do que sugerem as narrativas centradas exclusivamente nas torcidas organizadas surgidas a partir dos anos 1940 e 1950.
No caso do Vasco da Gama, Dulce Rosalina ocupa lugar privilegiado nessa memória. Em 1956, assumiu a liderança da Torcida Organizada do Vasco (TOV), tornando-se uma das primeiras mulheres a ocupar posição de comando em uma torcida organizada no futebol brasileiro. Estudos sobre a formação das torcidas cariocas destacam sua liderança e sua importância na consolidação da TOV durante as décadas de 1950 e 1960. (SciELO)
Sua importância, contudo, não deve levar à conclusão de que a presença feminina no Vasco começou com ela. A própria documentação sobre as primeiras décadas do clube permite identificar mulheres que participaram de diferentes formas da vida esportiva, social e torcedora vascaína.
Entre elas encontra-se Josepha Pereira, lembrada por Álvaro Nascimento em suas crônicas como uma pioneira da torcida vascaína, ligada às primeiras formas populares de acompanhamento do clube. Também aparece Guiomar Corrêa Marques da Silva, cuja atuação esteve relacionada à sociabilidade esportiva, ao remo, ao futebol e à vida associativa do Vasco. Nas décadas seguintes, Aida de Almeida e Margarida Portugal aparecem vinculadas à formação e organização das primeiras torcidas uniformizadas.
Dulce deve, portanto, ser compreendida simultaneamente como continuidade e transformação. Continuidade porque sua trajetória se insere em uma história anterior de participação feminina; transformação porque ela alcançou uma posição de liderança, visibilidade e reconhecimento público em uma fase na qual o futebol se consolidava como espetáculo de massas e a imprensa esportiva adquiria crescente poder de produzir personagens e símbolos.
2. Antes de Dulce: uma genealogia feminina nas arquibancadas
A recuperação da história feminina do Vasco exige cautela com categorias posteriores. Não se deve simplesmente chamar todas as mulheres que acompanharam o clube nas primeiras décadas de “integrantes de torcidas organizadas”, pois essas formas organizacionais ainda não existiam da maneira como seriam estruturadas posteriormente.
Josepha Pereira, por exemplo, pertence a um momento anterior à consolidação das torcidas organizadas. Sua presença relaciona-se às primeiras formas populares de acompanhamento do Vasco, às excursões, festas e manifestações coletivas. Sua ligação com o grupo “Lasca o Pau” permite observar uma cultura torcedora que se encontrava entre o futebol, o remo, o carnaval e as sociabilidades populares.
Sua recuperação historiográfica é particularmente importante porque Álvaro Nascimento, jornalista do Jornal dos Sports, conferiu visibilidade a essa personagem décadas depois, retirando-a do anonimato. A memória de Josepha demonstra que mulheres já participavam ativamente da construção de uma identidade vascaína muito antes da ascensão de Dulce.
Guiomar Corrêa Marques da Silva representa outra modalidade de participação. Esposa do presidente vascaíno Francisco Marques da Silva, Guiomar foi uma figura importante da sociabilidade esportiva e social do clube nas décadas de 1920. Sua relação com o remo e outras modalidades demonstra que a presença feminina no Vasco não estava restrita ao futebol.
A casa da família, na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, tornou-se um espaço de convivência de jogadores, dirigentes e associados. Guiomar foi também homenageada no universo esportivo do clube, inclusive com a denominação de prova feminina de remo. Sua trajetória deve ser compreendida como parte de uma história mais ampla das mulheres na vida associativa e esportiva vascaína, ainda que não corresponda ao modelo posterior de uma líder de torcida.
A partir dos anos 1940, essa participação assumiria novas formas. Aida de Almeida aparece como personagem fundamental na formação da TOV. Pesquisas sobre a formação das torcidas cariocas registram que a TOV foi fundada em março de 1944, inicialmente denominada Torcida Uniformizada do Vasco, tendo Aida de Almeida entre seus articuladores. (SciELO)
O depoimento posterior de Margarida Portugal acrescenta uma dimensão importante a essa história. Sua memória recupera a participação de mulheres e famílias na organização inicial da torcida e relativiza a narrativa tradicional de uma simples sucessão entre João de Lucca e Dulce Rosalina.
Não se trata de estabelecer uma linha sucessória direta entre Josepha, Guiomar, Aida, Margarida e Dulce. Trata-se de identificar diferentes modalidades históricas de presença feminina:
Personagem Modalidade de participação
Josepha Pereira Liderança popular e sociabilidade torcedora
Guiomar Corrêa Marques da Silva Sociabilidade esportiva, familiar e associativa
Aida de Almeida Organização das primeiras torcidas uniformizadas
Margarida Portugal Organização e participação feminina na TOV
Dulce Rosalina Liderança formal, mobilização e representação pública
Essa genealogia permite deslocar a pergunta. Em vez de perguntar simplesmente “quem foi a primeira mulher do Vasco?”, interessa compreender como diferentes mulheres ocuparam diferentes espaços na construção da cultura vascaína.
3. Dulce antes da liderança da TOV
A liderança de Dulce em 1956 também não surgiu repentinamente.
Ainda na década de 1940, ela passou a frequentar, inicialmente de maneira esporádica, a TOV ao lado de outros jovens. A convivência cotidiana com a torcida aproximou-a de jogadores, dirigentes e associados. Sua relação com o clube foi sendo construída não apenas nas partidas, mas através da presença constante em São Januário e de uma rede de relações pessoais.
Uma entrevista publicada em 1968 apresenta uma Dulce profundamente integrada à vida do Vasco. A personagem aparece como alguém que acompanhava concentrações, conversava com atletas, ouvia dirigentes e participava ativamente do cotidiano do clube. Sua dedicação era apresentada como uma opção de vida.
Foi através desse universo que Dulce conheceu o jogador Ponce de Leon. Segundo a documentação memorialística, os dois se casaram em 1949 e permaneceram juntos até a morte do atleta, em 1965.
O casamento não interrompeu sua participação na vida vascaína. Ao contrário, Dulce continuou a frequentar o clube e a estabelecer relações próximas com jogadores, dirigentes e torcedores.
Essa dimensão é essencial para compreender sua posterior liderança. Quando assumiu a TOV em 1956, Dulce já era conhecida no ambiente vascaíno. A liderança formal veio depois de uma década de sociabilidade e construção de relações.
4. A invenção do “torcedor-símbolo”
A trajetória de Dulce precisa ser relacionada a um fenômeno mais amplo da cultura esportiva brasileira: a construção do torcedor-símbolo.
Os chefes de torcida não surgiram com o Maracanã ou com os grandes estádios. Personagens como Fontainha, do América; Chico Guanabara, do Fluminense; Perneta, do São Cristóvão; e Polar, do Vasco, já eram reconhecidos por sua presença constante e por sua capacidade de representar publicamente seus clubes.
Com a transformação do futebol em espetáculo de massas e a expansão da imprensa esportiva, esses personagens passaram a adquirir maior visibilidade. A imprensa retirava determinados torcedores da massa anônima das arquibancadas e transformava suas biografias em exemplos de fidelidade, paixão e dedicação.
Dulce pertence a essa tradição, mas acrescenta uma dimensão particularmente significativa: era uma mulher ocupando uma posição de liderança em um universo cultural fortemente masculinizado.
A imprensa esportiva não a representava simplesmente como uma mulher que havia penetrado em um espaço masculino. Sua imagem era construída sobretudo como a de uma torcedora exemplar.
Uma entrevista reproduzida por João Antero de Carvalho em 1968 sintetiza essa representação:
“Pensei em trabalhar, desempenhar atividade no comércio ou na indústria, todavia, concluí que seria desperdiçar energia. Poderia ficar impossibilitada, por exemplo, de participar intensamente da vida do meu Vasco [...] e não sei se suportaria privar-me da maior alegria de minha vida, que é estar sempre à sua disposição.”
A declaração revela uma concepção histórica específica da dedicação clubística. Dulce apresenta a vida do Vasco como uma vocação e a disponibilidade para o clube como valor central de sua existência.
A categoria “torcedor-símbolo” não significava simplesmente ser mais apaixonado que os demais. Tratava-se de representar publicamente um modelo de comportamento. O torcedor-símbolo deveria estar presente, acompanhar o time, estabelecer relações com jogadores e dirigentes e demonstrar fidelidade mesmo diante das dificuldades.
Dulce tornou-se uma das expressões mais completas desse modelo.
5. 1956: Dulce assume a TOV
Em 1956, Dulce passou a comandar a Torcida Organizada do Vasco. Estudos sobre as torcidas cariocas registram que, naquele momento, ela assumiu uma organização que já possuía trajetória anterior e que a TOV permaneceria como principal torcida vascaína durante boa parte das décadas de 1950 e 1960. (Scribd)
O site oficial do Vasco também registra sua liderança a partir de 1956 e destaca inovações como o papel picado, concursos de bateria e outras formas de manifestação coletiva. (Vasco)
A liderança de Dulce não consistia apenas em ocupar um cargo. Ela significava organizar pessoas, estabelecer relações com outras torcidas, acompanhar o time em diferentes estádios e construir uma representação pública da torcida.
A imprensa esportiva da época colaborou decisivamente para esse processo. Dulce passou a aparecer ao lado de outras lideranças das torcidas cariocas e tornou-se uma personagem conhecida nacionalmente.
Sua posição era excepcional também por sua dimensão de gênero. A documentação acadêmica registra que, durante os anos 1960, Dulce figurava entre as principais lideranças das torcidas dos grandes clubes cariocas. (SciELO)
6. 1961 e a consagração como torcedora-símbolo
No início dos anos 1960, Dulce recebeu o reconhecimento público de sua trajetória ao vencer o concurso de melhor torcedor do Brasil promovido pela Revista do Esporte. Algumas fontes registram o ano como 1960; outras, inclusive trabalhos acadêmicos e memorialísticos, como 1961. Por essa razão, é metodologicamente mais prudente situar o episódio no início da década de 1960 até que seja conferido o exemplar original da revista. (Vasco)
O significado do prêmio ultrapassa a premiação individual. Dulce recebeu um reconhecimento que colocava uma mulher no centro de uma representação nacional do torcedor de futebol.
Segundo registros sobre sua trajetória, ela entregou o troféu ao Vasco. A atitude reforçava a representação construída pela imprensa: Dulce não torcia para obter benefícios pessoais, mas entendia sua dedicação como uma forma de serviço ao clube.
Essa representação deve, entretanto, ser analisada criticamente. A imagem da torcedora que renuncia a outros projetos pessoais para viver em função do clube é uma construção cultural específica de uma época. Ela não deve ser tomada como modelo universal de comportamento, mas como elemento constitutivo da própria identidade pública de Dulce.
7. A torcida como extensão da vida do clube
Um dos aspectos mais importantes da experiência de Dulce foi sua proximidade com os jogadores.
Ela acompanhava concentrações, frequentava São Januário e estabelecia relações pessoais com atletas. Jogadores como Vavá e Bellini, segundo registros memorialísticos, mantinham relações próximas com ela e frequentavam sua casa. O próprio Vasco destaca essa proximidade em sua biografia institucional. (Vasco)
Esse tipo de relação ajuda a compreender a estrutura social das torcidas nas décadas de 1950 e 1960. O estádio não constituía uma fronteira rígida entre atletas, dirigentes e torcedores. Existiam redes pessoais de sociabilidade que aproximavam esses diferentes grupos.
Dulce ocupava uma posição privilegiada dentro dessa rede. Era simultaneamente torcedora, líder, associada e interlocutora.
Essa posição também explicava sua capacidade de mobilização. A liderança não era exercida exclusivamente através de uma estrutura burocrática, mas através de relações pessoais acumuladas durante anos.
8. 1966: entre a força da TOV e as mudanças da arquibancada
O ano de 1966 pode ser interpretado como um momento importante para observar os limites e as possibilidades da liderança de Dulce.
A TOV continuava ocupando posição central entre as torcidas vascaínas. Ao mesmo tempo, as formas de mobilização começavam a ser afetadas por mudanças na experiência dos estádios, pela violência e pelas dificuldades enfrentadas nas excursões.
O caso de Dulce é particularmente significativo porque ela não era apenas responsável por animar a torcida. Também precisava decidir como, quando e em que condições os torcedores acompanhariam o Vasco.
A literatura sobre as torcidas cariocas mostra que as lideranças dos anos 1960 tinham papel simultaneamente festivo, organizacional e disciplinador. Elas mobilizavam torcedores, promoviam excursões, organizavam festas e mantinham interlocução com dirigentes. (SciELO)
A trajetória de Dulce permite observar esse modelo em sua forma mais desenvolvida.
9. O acidente de 1968 e o corpo como prova de dedicação
A dedicação de Dulce aos jogos fora do Rio também produziu consequências físicas. Em 1968, durante uma caravana da TOV para São Paulo, um dos ônibus sofreu grave acidente na Via Dutra. Dulce ficou ferida, com fraturas e outras lesões, afastando-se temporariamente dos estádios. (Vasco)
O episódio adquiriu posteriormente um forte valor simbólico na memória vascaína. Seu próprio corpo passou a ser apresentado como testemunho da dedicação ao clube.
A interpretação desse episódio é importante porque demonstra como a cultura do torcedor-símbolo valorizava o sacrifício. Viajar longas distâncias, acompanhar o clube em condições difíceis e enfrentar riscos eram incorporados à narrativa de fidelidade.
O acidente, portanto, não interrompeu a construção de sua imagem. Ao contrário, passou a fazer parte dela.
10. Dulce e a política interna do Vasco
Um aspecto fundamental da trajetória de Dulce foi sua participação na política associativa do Vasco.
É necessário distinguir essa dimensão de qualquer forma de militância político-partidária. A documentação disponível aponta para sua participação em eleições internas e disputas sobre os rumos administrativos do clube, e não para uma atuação vinculada a partidos políticos.
Essa característica é importante porque revela que o torcedor-símbolo não estava necessariamente separado da estrutura institucional. Ao contrário, personagens como Dulce podiam atuar como mediadores entre arquibancada e clube.
A participação em eleições internas, entretanto, também produziu conflitos. Sua autonomia e suas posições políticas dentro do Vasco contribuíram para divergências com dirigentes e, posteriormente, para sua saída da TOV.
11. 26 de março de 1977: a Renovascão
A ruptura com a TOV marcou uma nova fase da trajetória de Dulce. Em 26 de março de 1977, segundo a documentação memorialística utilizada neste estudo, foi fundada a Renovascão.
A criação da nova torcida esteve relacionada às divergências políticas internas do Vasco e ao apoio de Dulce à candidatura de Medrado Dias à presidência do clube.
A passagem da TOV para a Renovascão não deve ser interpretada simplesmente como mudança de nome. A TOV havia construído uma posição central na representação das arquibancadas vascaínas. Sob Dulce, essa organização havia concentrado uma capacidade de mobilização particularmente grande.
Na Renovascão, Dulce continuou sendo uma referência, mas em um cenário mais fragmentado.
Essa distinção é importante. Não se trata de afirmar que a Renovascão não possuía capacidade de mobilização. O que se modificou foi a concentração da representação. A autoridade anteriormente concentrada na TOV passou a conviver com diferentes grupos e lideranças.
Estudos sobre a formação das torcidas confirmam que Dulce deixou a TOV após aproximadamente duas décadas de liderança e fundou a Renovascão em 1976, embora a cronologia memorialística da torcida registre a fundação formal em 26 de março de 1977. (SciELO)
12. Poncinho e a transmissão familiar da cultura das arquibancadas
A história de Dulce também possui uma dimensão familiar.
Seu filho Poncinho cresceu acompanhando a mãe nos estádios. O próprio Vasco registra episódios em que Dulce e os filhos estiveram envolvidos em situações relacionadas à torcida, mostrando que a experiência da arquibancada fazia parte do cotidiano familiar. (Vasco)
Posteriormente, Poncinho permaneceu ligado à Renovascão.
Esse dado permite introduzir a noção de transmissão geracional da cultura torcedora. A torcida não era apenas uma organização formal. Era também um conjunto de relações familiares, memórias, práticas e histórias transmitidas entre gerações.
A experiência de Poncinho demonstra que a trajetória de Dulce ultrapassou sua própria biografia. Seu modo de torcer tornou-se parte da memória familiar.
13. Dulce e a fragmentação das torcidas
A passagem da TOV para a Renovascão também pode ser interpretada dentro de um processo maior de transformação das torcidas cariocas.
A geração de Dulce, João de Lucca, Aida de Almeida, Margarida Portugal, Polar e outros personagens havia construído uma cultura de torcidas baseada em forte presença pessoal de seus líderes.
Com o crescimento dos grandes estádios, das torcidas organizadas e das novas gerações de torcedores, essa estrutura foi progressivamente modificada.
A liderança de Dulce não desapareceu. Entretanto, ela deixou de representar sozinha o conjunto da mobilização vascaína.
Essa transformação é fundamental para compreender por que a Renovascão não adquiriu exatamente o mesmo lugar simbólico da TOV.
A história posterior das torcidas do Vasco seria marcada por maior pluralidade organizacional, pela ascensão de novos grupos e por disputas pela representação da torcida.
14. As mulheres na história do Vasco: Dulce e Maria Emília
A presença feminina na história do Vasco também não pode ser limitada às torcidas.
A trajetória de Maria Emília, lembrada como uma das primeiras grandes beneméritas do clube, permite observar outra modalidade de participação feminina: a atuação na vida associativa e institucional.
Essa distinção é analiticamente importante.
Dulce construiu sua autoridade principalmente através das arquibancadas e da organização dos torcedores. Maria Emília representa uma forma de reconhecimento situada na estrutura associativa do clube.
São trajetórias diferentes, mas complementares.
Ao lado de Josepha Pereira, Guiomar Corrêa Marques da Silva, Aida de Almeida e Margarida Portugal, essas personagens permitem reconstruir uma história feminina do Vasco que não se inicia em 1956 e tampouco se encerra com a morte de Dulce.
15. 1980 e 1990: a torcedora como testemunha de uma nova época
Nas últimas décadas de sua vida, Dulce tornou-se cada vez mais uma personagem de memória.
Sua participação direta nos estádios foi diminuindo, inclusive em razão de problemas de visão. Ainda assim, continuou sendo procurada pela imprensa para falar sobre o Vasco e sobre as mudanças ocorridas nas torcidas.
Sua memória tornou-se especialmente valiosa porque ela pertencia a uma geração que conhecera uma arquibancada diferente.
Nas entrevistas, Dulce frequentemente comparava o ambiente das antigas torcidas — marcado por festas, bandeiras, relações pessoais e excursões — com a violência que passou a aparecer de maneira mais intensa em determinados setores do futebol.
Ela passou, portanto, de agente da cultura das arquibancadas a testemunha de sua transformação.
Essa mudança de posição é sociologicamente importante. A autoridade de Dulce no final da vida não provinha apenas de sua atuação presente, mas do capital simbólico acumulado durante décadas.
16. Tóquio, 1998: a permanência da paixão
Um dos episódios que melhor demonstra a longevidade dessa relação ocorreu em 1998, quando Dulce viajou ao Japão para acompanhar o Vasco na decisão mundial em Tóquio.
Registros do próprio universo memorialístico das torcidas mostram Dulce no Japão ao lado de integrantes da Renovascão e de outras torcidas vascaínas. (Torcida do Vasco)
A imagem é extremamente significativa.
A jovem que começara a frequentar as arquibancadas nos anos 1940 chegava, mais de meio século depois, a Tóquio para acompanhar o mesmo clube.
Entre esses dois momentos haviam ocorrido transformações profundas: a consolidação do Maracanã, o crescimento das torcidas organizadas, o acidente de 1968, a ruptura com a TOV, a criação da Renovascão, a fragmentação das torcidas e a mudança do próprio futebol brasileiro.
Dulce permanecera.
Sua viagem ao Japão pode ser lida, portanto, como uma espécie de síntese biográfica de sua relação com o Vasco: a permanência de uma identidade torcedora em meio à transformação das formas de torcer.
17. 2004: morte e transformação em memória
Dulce Rosalina morreu em 19 de janeiro de 2004. A data é confirmada pelo site oficial do Vasco e pelo decreto municipal que, poucos dias depois, alterou o nome de uma rua próxima a São Januário para Rua Dulce Rosalina. (Vasco)
Sua morte ocorreu no mesmo ano em que a tradição memorialística da TOV registrava a celebração de seis décadas de existência.
A homenagem municipal demonstra que Dulce já havia ultrapassado os limites de uma memória interna das torcidas. Ela se tornara parte da própria memória esportiva da cidade.
A prefeitura qualificou Dulce como torcedora-símbolo do Vasco e como exemplo da paixão carioca pelo futebol. (Terceiro Tempo)
Esse processo de memorialização é particularmente significativo para a análise sociológica. A torcedora que durante décadas ocupou as arquibancadas passou a ocupar um espaço urbano.
Seu nome saiu do estádio e entrou na cidade.
18. Dulce como memória das antigas arquibancadas
A trajetória de Dulce permite acompanhar diferentes fases da história do torcer no Rio de Janeiro.
Ela conheceu uma época em que as torcidas estavam profundamente ligadas às relações pessoais, familiares e comunitárias. Viveu a expansão dos grandes estádios e a transformação do futebol em espetáculo de massas. Participou da consolidação das torcidas organizadas e de suas formas de manifestação. Experimentou conflitos internos e a fragmentação das organizações. Finalmente, tornou-se testemunha das mudanças ocorridas nas arquibancadas.
Por isso, sua importância não está apenas em ter sido mulher em um espaço majoritariamente masculino.
Dulce foi importante porque sua biografia atravessa diferentes regimes históricos do torcer.
Sua vida permite observar a transformação de uma experiência coletiva:
torcedor → torcedor-símbolo → chefe de torcida → liderança associativa → dissidência → personagem de memória.
19. Considerações finais
A história de Dulce Rosalina não deve ser compreendida como a história isolada de uma mulher excepcional que, em 1956, teria inaugurado a presença feminina nas torcidas vascaínas.
A documentação permite uma interpretação mais complexa.
Antes de Dulce já existiam mulheres que participavam da vida esportiva e torcedora do Vasco. Josepha Pereira representa uma forma popular e informal de liderança; Guiomar Corrêa Marques da Silva, uma modalidade de sociabilidade esportiva e familiar; Aida de Almeida e Margarida Portugal, formas de organização das primeiras torcidas uniformizadas.
Dulce representa uma etapa posterior: a institucionalização e a grande visibilidade da liderança feminina nas arquibancadas.
Sua trajetória anterior a 1956 é fundamental para essa interpretação. Dulce não apareceu repentinamente como chefe da TOV. Ela já frequentava a torcida, conhecia jogadores, dirigentes e associados e havia construído uma rede de relações no cotidiano do clube.
Quando assumiu a TOV, transformou essa experiência em liderança.
A imprensa desempenhou papel fundamental nesse processo. Ao construir Dulce como “torcedora-símbolo”, contribuiu para transformar uma mulher das arquibancadas em personagem pública do futebol brasileiro.
A premiação recebida no início dos anos 1960, o acidente de 1968, sua atuação na política interna do Vasco, a ruptura com a TOV, a criação da Renovascão e a viagem a Tóquio em 1998 são episódios de uma mesma trajetória: a tentativa permanente de permanecer próxima ao clube.
Sua atuação política deve ser compreendida como política associativa interna do Vasco, e não como militância político-partidária. Da mesma forma, sua trajetória não deve ser retrospectivamente transformada em militância feminista sem evidências documentais. A questão de gênero está presente porque Dulce ocupou um espaço de liderança tradicionalmente masculino, não porque seja necessário atribuir-lhe categorias políticas posteriores.
A morte de Dulce em 2004 encerrou uma biografia, mas não uma presença. A transformação de seu nome em logradouro próximo a São Januário demonstra o processo pelo qual a memória de uma torcedora pode tornar-se parte do patrimônio simbólico de uma cidade e de uma instituição esportiva.
A principal contribuição de sua trajetória para a história social do futebol está, portanto, em permitir observar a relação entre gênero, sociabilidade, imprensa, liderança, instituição e memória.
Dulce Rosalina não foi o começo da história das mulheres nas arquibancadas vascaínas.
Ela foi, entretanto, uma de suas personagens mais visíveis e duradouras.
E é justamente ao retirar sua trajetória do isolamento biográfico e recolocá-la em uma genealogia mais ampla de mulheres vascaínas que sua importância histórica se torna ainda maior.
Referências preliminares
Fontes primárias e memorialísticas
CARVALHO, João Antero de. Obra publicada em 1968, especialmente a passagem referente a Dulce Rosalina, p. 227. [Conferir título e dados editoriais no exemplar utilizado.]
JORNAL DOS SPORTS. Crônicas e reportagens sobre Dulce Rosalina, TOV, torcidas organizadas e personagens das arquibancadas.
JORNAL DO BRASIL. Entrevistas e reportagens sobre Dulce Rosalina e as transformações das torcidas.
REVISTA DO ESPORTE. Reportagens e entrevistas sobre Dulce Rosalina e o concurso de melhor torcedor do Brasil.
ACERVO DIGITAL DO VASCO. Documentos, fotografias, jornais e publicações relativas à história das torcidas e à trajetória de Dulce Rosalina.
MEDEIROS, Jorge. Textos de pesquisa sobre Josepha Pereira, Guiomar Corrêa Marques da Silva e a formação histórica das torcidas vascaínas.
MEDEIROS, Jorge. 100 anos da torcida. Material de pesquisa e memória sobre a história das torcidas do Vasco, incluindo o capítulo referente a 2004 e à morte de Dulce Rosalina.
Bibliografia acadêmica
CHAIM, Aníbal Renan Martinot. A invenção do torcedor de futebol: imprensa esportiva, profissionalismo e a formação das torcidas organizadas no Rio de Janeiro (1936-1968). Tese de doutorado. Universidade de São Paulo. O trabalho dedica atenção à formação das torcidas cariocas e à posição de Dulce Rosalina na TOV. (SciELO)
HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. Trabalhos sobre torcidas organizadas, cultura torcedora e história social do futebol brasileiro.
PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. Footballmania: uma história social do futebol no Rio de Janeiro, 1902-1938. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
TOLEDO, Luiz Henrique de. Trabalhos sobre torcidas organizadas, torcedores e formas de sociabilidade no futebol brasileiro.
ARAÚJO, Daniela. Trabalhos sobre mulheres torcedoras e a trajetória de Dulce Rosalina.
Fontes digitais consultadas
VASCO DA GAMA. “Ídolos e Figuras Históricas – Dulce Rosalina.” (Vasco)
CHAIM, Aníbal. Estudos sobre a formação das torcidas organizadas no Rio de Janeiro. (SciELO)
TORCIDAS DO VASCO. Blog de documentação e memória das torcidas vascaínas, incluindo registros sobre a Renovascão e a viagem ao Japão em 1998. (Torcida do Vasco)
TERCEIRO TEMPO. “Dulce Rosalina – Que fim levou?” (Terceiro Tempo)
Marcadores: liderancas, mulheres