sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Jayme Fernandes Guedes (1899–1974): um vascaíno entre o futebol, o Estado e a economia brasileira

Jayme Fernandes Guedes ocupa um lugar singular na história do Club de Regatas Vasco da Gama. Embora sua passagem pela presidência do clube tenha ocorrido por um período relativamente curto, entre 1945 e 1946, sua relação com o Vasco foi muito mais longa. Nascido em 1899, em Cáceres, então Mato Grosso, e falecido em 1974, Guedes atravessou diferentes momentos da história brasileira e vascaína, exercendo atividades que o levaram do esporte à administração bancária, da política cafeeira à administração pública e, posteriormente, à direção do clube que acompanharia durante quase toda a sua vida adulta. A documentação vascaína afirma que sua participação no clube começou em 1916, apresentando-o retrospectivamente como alguém que teria sido “tudo no Vasco”, de remador e jogador de futebol a diretor e presidente. Há, entretanto, uma comprovação particularmente significativa para o ano seguinte: a primeira fotografia conhecida do futebol do Vasco publicada na imprensa, referente à partida contra o Boqueirão do Passeio, em 2 de setembro de 1917, identifica Jayme Fernandes Guedes na escalação vascaína, atuando na defesa. (Memória Vascaína) Esse registro é fundamental para compreender sua trajetória. Jayme não chegou à presidência como um administrador externo ou como alguém que posteriormente se aproximou do futebol. Ele pertenceu à própria geração de formação do futebol vascaíno. Sua presença em campo ocorre justamente durante o processo de consolidação do futebol no clube, poucos anos antes da grande transformação social provocada pela ascensão da equipe vascaína nos campeonatos cariocas. Do jogador ao administrador A carreira de Jayme Fernandes Guedes ultrapassaria rapidamente o universo esportivo. Ele ingressou no Banco do Brasil, onde construiu carreira administrativa, passando por funções de gerência e inspeção. Posteriormente, sua experiência seria aproveitada no Departamento Nacional do Café (DNC). Sua atuação no DNC o colocaria no centro de uma das áreas estratégicas da economia brasileira. A documentação oficial mostra Guedes como presidente do Departamento Nacional do Café no final da década de 1930 e início dos anos 1940. Em junho de 1939, por exemplo, atos e comunicados oficiais do órgão aparecem assinados por ele nessa condição. (Hemeroteca PDF) Em 1941, sua posição alcançava dimensão ainda maior. O Convênio dos Estados Cafeeiros, realizado no Rio de Janeiro entre 22 de março e 3 de abril daquele ano, reuniu representantes de diversos estados produtores sob sua presidência, por delegação do ministro da Fazenda, Arthur de Souza Costa. (Legislação do Senado) Assim, o antigo jogador do Vasco tornou-se um personagem inserido nos mecanismos de administração da economia brasileira. Sua trajetória permite observar uma circulação pouco comum entre diferentes espaços institucionais: o esporte, o sistema bancário e a burocracia econômica do Estado. A experiência internacional e a UNRRA Outro capítulo importante de sua trajetória ocorreu durante o período da Segunda Guerra Mundial. Os documentos reunidos para esta pesquisa mostram Jayme Fernandes Guedes posteriormente identificado como diretor da UNRRA no Brasil, a United Nations Relief and Rehabilitation Administration, organização criada para atuar no auxílio e na reconstrução das regiões atingidas pela guerra. O dado aparece inclusive em uma notícia social relativa ao casamento de sua filha Yolanda Fernandes Guedes com o então primeiro-tenente da Marinha Renato Bayma Archer da Silva, posteriormente importante personagem da vida pública brasileira. Essa informação amplia consideravelmente a dimensão da biografia de Jayme. Ele não era apenas um antigo dirigente esportivo: havia participado de estruturas administrativas relacionadas à economia nacional e, durante o período do pós-guerra, de uma organização internacional de assistência. O retorno ao Vasco É nesse contexto que devemos compreender sua eleição para a presidência do Vasco. Em 24 de maio de 1945, Jayme Fernandes Guedes foi eleito e empossado para completar o mandato deixado por Manuel Ferreira de Castro Filho, que havia renunciado. Em fevereiro de 1946, voltou a ser eleito e empossado, mas sua segunda passagem pelo cargo terminaria ainda naquele ano. Em setembro, após sua renúncia, Cyro Aranha assumiu a presidência. (Vasco) Sua administração ocorreu, portanto, em um momento de transição política no Brasil, imediatamente posterior ao Estado Novo e às vésperas da redemocratização de 1945. A imprensa esportiva acompanhou de perto sua administração. Mario Filho, em uma série intitulada O Tempo de Jayme Guedes, recuperou episódios da trajetória do dirigente e recordou sua experiência como jogador vascaíno. A lembrança de Jayme como antigo atleta é particularmente significativa: o presidente de 1945 era também um personagem do Vasco das primeiras décadas do século XX. A crise de 1946 A passagem pela presidência, entretanto, não foi marcada apenas por reconhecimento. Um documento publicado em 1946, na Folha Carioca, revela uma intensa disputa interna. O médico e dirigente vascaíno Milton de Castro Menezes, então diretor-médico renunciante, sócio remido e integrante do Conselho Deliberativo, criticou duramente a administração de Jayme. Em entrevista intitulada “Maus Vascaínos, Não!”, Castro Menezes acusou Guedes de exercer o poder de maneira “totalitária” e associou sua postura à experiência política do Estado Novo. Para uma análise histórica, essa fonte precisa ser utilizada com cautela. Não se trata de uma descrição neutra de Jayme, mas da manifestação de um opositor interno. Seu valor está justamente em mostrar que a presidência de Jayme foi atravessada por disputas sobre autoridade, administração e representação dentro do Vasco. A existência desse conflito impede uma biografia puramente laudatória. Ao mesmo tempo, ela permite compreender como diferentes grupos disputavam a definição do que significava ser um “bom vascaíno”. A memória de Jayme depois da presidência A carreira vascaína de Jayme não terminou com sua renúncia em 1946. Uma relação histórica dos presidentes do Conselho de Beneméritos registra seu nome à frente do órgão em 14 de janeiro de 1957. (Wikipédia) Mais tarde, uma publicação identificada com a chamada “Tradição Vascaína” recuperou sua trajetória e o apresentou como um exemplo de desprendimento e dedicação ao clube. O texto recorda que Guedes havia sido remador, jogador, diretor e presidente, além de destacar suas funções no Departamento Nacional do Café e na UNRRA. Esse documento é particularmente interessante porque revela a construção de uma memória vascaína sobre Jayme. A publicação o transforma em símbolo de uma determinada tradição institucional do clube. Há, portanto, duas imagens que precisam ser preservadas na biografia: de um lado, o Jayme lembrado por setores do Vasco como homem de dedicação e desprendimento; de outro, o presidente envolvido em conflitos internos e criticado publicamente em 1946. A pesquisa histórica ganha força justamente quando mantém essas diferentes representações em diálogo. Família e redes sociais Os documentos familiares encontrados acrescentam outra dimensão à trajetória. Jayme era casado com Helena Gurgel Guedes e teve, entre seus filhos, Yolanda Fernandes Guedes. A documentação sobre o casamento de Yolanda registra sua união com o então primeiro-tenente Renato Bayma Archer da Silva, filho de Sebastião Archer da Silva. A trajetória posterior de Renato Archer foi de grande importância na vida pública brasileira: deputado federal, participante do debate sobre política nuclear, posteriormente ministro da Ciência e Tecnologia e ministro da Previdência Social. Essa conexão familiar não permite, por si só, estabelecer influência política entre as famílias, mas demonstra a inserção de Jayme e dos seus em redes sociais que ultrapassavam o universo esportivo. Esse aspecto merece investigação própria e poderá futuramente constituir um capítulo sobre as redes sociais e políticas de Jayme Fernandes Guedes. Um vascaíno até o fim Talvez o elemento mais expressivo de sua trajetória seja a longevidade de sua ligação com o Vasco. Entre sua presença como jogador nas primeiras décadas do século XX e sua participação na vida institucional do clube depois da presidência, passaram-se mais de cinco décadas. Mesmo em 1974, ano de sua morte, Jayme ainda aparece ligado ao ambiente social vascaíno. O registro de sua presença na missa comemorativa dos 80 anos de Álvaro Rodrigues, importante jornalista e cronista do Jornal dos Sports, é particularmente simbólico. Pouco antes de morrer, o antigo jogador e ex-presidente continuava integrado à sociabilidade esportiva que havia marcado sua juventude. Sua trajetória, assim, pode ser pensada como uma longa ponte entre diferentes gerações do Vasco. Considerações finais provisórias A pesquisa realizada até aqui permite compreender Jayme Fernandes Guedes como um personagem que não cabe facilmente na categoria de “ex-presidente do Vasco”. Sua trajetória atravessa o futebol amador das primeiras décadas do século XX, a profissionalização administrativa do clube, o Banco do Brasil, a política econômica do café, a administração pública, a experiência internacional da UNRRA e a política interna vascaína. Sua biografia também permite observar uma característica importante da história do Vasco: a existência de dirigentes que transitavam entre diferentes espaços da sociedade brasileira e levavam para o clube experiências acumuladas em outras instituições. Jayme Fernandes Guedes foi, simultaneamente, jogador, dirigente, administrador público, homem ligado ao Banco do Brasil, dirigente da política cafeeira, representante da UNRRA e presidente do Vasco. Mas talvez a característica mais marcante de sua trajetória seja outra: ele permaneceu ligado ao Vasco por aproximadamente seis décadas. Da fotografia de 1917, quando aparece como jogador da equipe que enfrentou o Boqueirão do Passeio, até sua presença no ambiente vascaíno em 1974, sua história acompanha praticamente toda a formação e consolidação do Vasco moderno. (Memória Vascaína) Por isso, mais do que uma biografia de um presidente, Jayme Fernandes Guedes pode ser estudado como um personagem da história social do Vasco da Gama e das relações entre esporte, Estado e sociedade brasileira na primeira metade do século XX.

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Edméa Lima Brandão - Uma vida dedicada ao Vasco e à Ginástica Olímpica

Poucas pessoas viveram o Vasco tão intensamente quanto Edméa Lima Brandão. Sua vida se confundia com a história do clube, especialmente na Ginástica Olímpica, onde deixou marcas que atravessam gerações. ### 🌟 Trajetória no Vasco Durante mais de cinco décadas, Edméa esteve ligada ao clube, dedicando-se especialmente ao Departamento Infanto-Juvenil e à Ginástica Olímpica. Sua atuação foi tão significativa que recebeu o título de **Grande Benemérita**, passando a integrar o seleto grupo de mulheres reconhecidas oficialmente por seus serviços prestados à instituição. Um registro de 1994, na publicação *“As Grandes Beneméritas”*, a descreve como “incansável diretora do Departamento Infanto-Juvenil no setor de ginástica, onde passou grande parte da sua vida”. Na lista oficial de concessão dos títulos de Grande Benemérito, seu nome aparece como o número 13. Sua história também esteve ligada à formação esportiva da própria família: sua filha, **Dayse Lima Brandão**, professora de Educação Física, conquistou títulos em competições de ginástica, como os Jogos Infantis e os Jogos da Primavera. ### 🏅 Reconhecimento em vida Em 2009, ao completar 80 anos, o Vasco destacou sua trajetória e a apresentou como a única Grande Benemérita viva do clube, ressaltando mais de 50 anos de serviços prestados. Dois anos depois, em **20 de junho de 2011**, o clube eternizou seu nome ao inaugurar a **Sala de Ginástica Olímpica “Edméa Lima Brandão”**, situada em São Januário. Durante a cerimônia, o presidente **Roberto Dinamite** lembrou sua dedicação desde os 13 anos de idade. Emocionada, Edméa afirmou seu amor pelo Vasco e recordou seus 55 anos de envolvimento com o clube. O evento contou com diretores do Departamento Infanto-Juvenil, vice-presidentes e a presidente da Federação de Ginástica do Rio de Janeiro, **Andrea João**, também homenageada. Como símbolo da memória, Dinamite entregou a Edméa um quadro com a foto da primeira equipe de ginástica olímpica do Vasco. ### ✊ Participação política Mesmo em idade avançada, Edméa seguia ativa na vida política do clube. Em **2018**, prestes a completar 89 anos, fez questão de comparecer às eleições presidenciais do Vasco, como vinha fazendo há 49 anos. Sua força de vontade era reconhecida como exemplo raro de participação feminina na política interna do futebol brasileiro. Naquele momento, era uma das apenas **três mulheres entre os 311 conselheiros** do Vasco, evidenciando tanto sua relevância quanto a baixa representatividade feminina nos conselhos dos clubes da Série A. ### 🌹 O adeus Edméa Lima Brandão faleceu em fevereiro de 2022. No dia 25, o Conselho de Beneméritos publicou nota lamentando sua morte e destacando sua condição de Grande Benemérita. Encerrava-se uma trajetória de décadas de dedicação, mas permanecia uma memória viva nos registros do clube, nas gerações que passaram pelo Departamento Infanto-Juvenil e na sala de Ginástica Olímpica que leva seu nome. ### 👩‍🦱 Uma mulher na história do Vasco A história de Edméa ajuda a ampliar a compreensão sobre a presença feminina no Vasco. Ao lado de Guiomar Corrêa Marques da Silva, Josepha Pereira, Maria Emília e Dulce Rosalina, representa uma forma diferente de participação feminina na construção da instituição. Sua trajetória mostra que o Vasco também foi feito por mulheres que trabalharam nos bastidores, contribuindo durante décadas para a vida cotidiana do clube. Edméa Lima Brandão foi uma dessas mulheres. Grande Benemérita, dirigente da Ginástica Olímpica e dedicada vascaína, seu nome faz parte da memória de São Januário e da história das mulheres que ajudaram a construir o Club de Regatas Vasco da Gama. 📚 **Fontes utilizadas:** - *As Grandes Beneméritas* (1994) - Publicação oficial do Vasco (2009) - Site oficial do Vasco – inauguração da Sala de Ginástica Olímpica (2011) - GloboEsporte.com – participação feminina nas eleições dos clubes (2018) - Conselho de Beneméritos do Vasco – nota de falecimento (2022) - Acervo Digital do Vasco da Gama

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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Memórias de uma Pioneira Bracarense: Josepha Pereira, o Grupo Lasca o Pau e as Raízes da Paixão Vascaína

Reconstituir a trajetória de uma torcedora de futebol na década de 1910 é um desafio complexo. Além da escassez de fontes, há a dificuldade de estruturar uma narrativa coerente com os poucos dados disponíveis. Este cenário analítico mudou a partir de 1950, quando as arquibancadas e seus personagens mais destacados ganharam grande visibilidade na imprensa e em livros de memórias dos clubes. Embora Dulce Rosalina seja frequentemente apontada como pioneira, muitas outras mulheres que construíram a história do Vasco da Gama e de outras agremiações permaneceram esquecidas. Resgatar essas trajetórias permite propor novas possibilidades de narrar a história do futebol a partir da perspectiva daqueles que animam o espetáculo. Foi justamente o resgate dessas memórias que serviu de base para um estudo memorialista da família vascaína de Josepha Maria Pereira, torcedora emblemática do clube no início do século XX. Nascida em 1892, segundo levantamento apresentado pelo historiador Walmer Peres Santana em sua tese de Doutorado intitulada O “lamentavel” Club de Regatas Vasco da Gama: futebol, imigração e antilusitanismo na cidade do Rio de Janeiro (1915–1927), defendida na UERJ em 2025, Josepha e seu irmão, Manoel Félix Pereira, eram imigrantes portugueses naturais da cidade de Braga. Embora não se saiba ao certo a data em que desembarcaram no Brasil, a trajetória dos irmãos confunde-se com a própria consolidação da identidade luso-brasileira do clube. Antes de se consolidar no comércio local, uma reportagem da época revela que Josepha trabalhou como operária em um estabelecimento na própria Região da Leopoldina. Essa vivência fabril antecedeu sua transição para o setor de serviços, quando abriu com o irmão o "Meu Bazar Armarinho", focado em produtos variados. O comércio ficava situado no bairro de Olaria — uma localização estratégica pela proximidade com São Cristóvão e o bairro de Vasco da Gama, colado ao terreno onde seria erguido e inaugurado o futuro Estádio de São Januário em 1927. Boa parte das informações coletadas sobre Josepha foi preservada por duas figuras marcantes do ecossistema cruzmaltino. O primeiro é o jornalista Álvaro Nascimento, o "Cascadura" (ou "Zé de São Januário"), que registrou em suas crônicas, desde os anos 1940, a transformação do Vasco em um gigante do esporte. Nas crônicas de Cascadura, Josepha é exaltada como uma das principais figuras da torcida nos primórdios do futebol do clube, iniciado em 1915. Suas lembrancas recuperam um tempo em que poucos acompanhavam o time pelos campos da segunda e terceira divisões. Para se proteger em contextos hostis, a comunidade vascaína criou o grupo "Lasca o Pau" — possivelmente a primeira torcida organizada do clube. Composto por jovens destemidos, muitos de seus membros eram, na verdade, atletas do remo do próprio Vasco. Dentre eles, destacava-se Antônio Rodrigues Tavares, que viria a ser presidente do clube no final dos anos 1940. Décadas mais tarde, Tavares fez questão de ressaltar a importância crucial daqueles jovens defensores da instituição em seu depoimento para o livro de João Antero de Carvalho, lançado em 1968, intitulado Torcedores de Ontem e de Hoje. O jornalista Cascadura relata que Josepha participava ativamente das frentes de defesa do grupo, brigando literalmente nas arquibancadas contra torcedores rivais que desferiam xingamentos xenofóbicos aos portugueses, protegendo com brio a sua comunidade de origem. [1] Outro cronista a registrar a importância de Josepha foi o benemérito Milton de Castro Menezes. Em crônicas publicadas em jornais no final dos anos 1950, ele resgatou memórias de sua adolescência e fez questão de homenagear os irmãos Josepha e Manoel Pereira. Segundo o benemérito, a dupla bracarense foi responsável por despertar sua paixão pelo Vasco na Enseada de Botafogo, época em que o remo era o esporte mais popular da cidade. A busca por mais dados biográficos avançou na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, onde o registro mais recente sobre as atividades de Josepha localiza a posterior divisão de bens entre os sócios do bazar de Olaria. Pouco antes disso, em dezembro de 1957, um incêndio destruiu completamente a loja. A reportagem da época destaca que, felizmente, o local possuía seguro e que o comércio já funcionava há três décadas. O dado coincide com os registros de 1926, ano em que os irmãos Pereira fundaram o negócio, consolidando sua presença na Zona Leopoldinense. Embora celebrados pelos cronistas na esfera esportiva, Manoel e Josepha não eram comumente identificados nas páginas de esportes dos jornais cotidianos. O nome dos irmãos só aparece formalmente em 1945, por ocasião do falecimento de Manoel. O anúncio fúnebre foi publicado exclusivamente no periódico Diário de Notícias, onde a família registrou suas homenagens em três notas distintas. Como Manoel aparentemente não se casou nem deixou filhos, os textos são assinados por sua irmã, que faz questão de homenagear seu saudoso irmão, além de mensagens de seus afilhados e dos empregados de sua firma, a M. F. Pereira & Cia. O falecimento de Manoel não foi registrado por Álvaro Nascimento, que na ocasião dedicava sua coluna diária no Jornal dos Sports às glórias do "Expresso da Vitória" — o elenco avassalador que colecionava títulos e encantava os vascaínos. Manoel não viveu para ver o tão sonhado título do Campeonato Carioca daquele ciclo vitorioso, mas testemunhou o Vasco levantar as taças do Torneio Municipal e do Torneio Relâmpago. Se teria morrido do coração, não há confirmação documental; contudo, diante de tamanha paixão clubística, a hipótese permanece como parte do imaginário dessa linhagem de torcedores.

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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Josepha Pereira: A operária que comandou a arquibancada e fez o Vasco o Clube do Povo

Dizer que o Vasco da Gama é o legítimo Clube do Povo não é força de expressão, é história escrita com suor e paixão. Na década de 1910, enquanto as arquibancadas dos rivais eram ocupadas pela alta sociedade carioca — com seus trajes finos, chapéus elegantes e aplausos contidos —, o Vasco já desenhava sua revolução cultural. E o nome dessa revolução na arquibancada atende por Josepha Pereira. Afastada do luxo das elites, Josepha era imigrante portuguesa e operária. Ela quebrou o padrão aristocrático da época e se tornou a primeira líder feminina da torcida do Vasco, comandando a massa com a energia e a proximidade que só quem é do povo entende. Lado a lado com seu irmão, Manoel Pereira, Josepha transformou amor em organização. Em 1926, a dupla abriu uma firma de comércio na Zona da Leopoldina. Aquela região, marcada pelos trilhos do trem e pelo suor dos trabalhadores ferroviários, rapidamente se transformou em um caldeirão vascaíno. O comércio dos irmãos Pereira era o ponto de encontro oficial da comunidade, o lugar onde se planejava o apoio ao clube. Essa mobilização popular casava perfeitamente com o momento histórico do clube. O Vasco já havia abalado as estruturas do futebol com o histórico título dos Camisas Negras de 1923. E enquanto a torcida se unia e dava o sangue para construir o nosso templo, o Estádio de São Januário (inaugurado em 1927), a família Pereira consolidava a força da nossa arquibancada no subúrbio. Josepha Pereira provou que o lugar da mulher trabalhadora era onde ela quisesse, inclusive liderando a torcida mais apaixonada do país. Juntos, os irmãos Pereira ajudaram a expandir a Nação Vascaína, fincando raízes profundas na identidade suburbana e operária que carregamos no peito até hoje. Respeito e Tradição!

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terça-feira, 8 de setembro de 2026

Castro Filho - O presidente do Vasco mais progressista

Biografia de Manoel Ferreira de Castro Filho: Arte, Política e o Destino Cruzmaltino Manoel Ferreira de Castro Filho (1910–1986) foi uma das personalidades mais multifacetadas e influentes da história política, cultural e esportiva do Rio de Janeiro no século XX. Bacharel em Ciências e Letras, dividiu sua trajetória entre as artes plásticas, o magistério e a alta gestão institucional. Como pintor formado pela Escola Nacional de Belas Artes, deixou obras notáveis — a exemplo do óleo sobre tela "Anoitecer na Várzea" (1986). Sua relevância no cenário artístico o levou à presidência da Sociedade Brasileira de Belas Artes, além de atuar como professor de Desenho e História da Arte no Colégio Bennett e no Ensino Técnico municipal. No campo cultural, ocupou ainda o prestigiado cargo de Diretor Geral do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. A Presidência do Vasco da Gama e o Esquadrão de 1944 A entrada de Castro Filho na alta política do Club de Regatas Vasco da Gama ocorreu em 10 de abril de 1944. Escolhido pelo Conselho Deliberativo para suceder o icônico mandatário Cyro Aranha — que se afastava temporariamente —, Castro Filho assumiu a presidência administrativa com a missão de dar continuidade ao projeto do lendário "Expresso da Vitória". A parceria entre Castro Filho e Cyro Aranha ia além do futebol; ambos compartilhavam de um profundo espírito cívico. Juntos, lideraram a campanha patriótica que resultou na doação do avião "Vasco da Gama" às Forças Aéreas Brasileiras (FAB) durante a Segunda Guerra Mundial, unindo a capacidade discursiva e emocional do professor ao suporte administrativo do clube. O Comício de Prestes e a Crise de 1945 O ápice da gestão de Castro Filho ocorreu em maio de 1945, em meio ao processo de redemocratização do Brasil e ao fim do Estado Novo de Getúlio Vargas. Com a anistia e libertação do líder comunista Luiz Carlos Prestes, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) buscou um espaço de grande capacidade para realizar seu primeiro grande comício em liberdade. Movido por princípios democráticos e republicanos — e respaldado por Cyro Aranha, então vice-presidente —, Castro Filho autorizou a cessão do Estádio de São Januário para o evento. O comício entrou para a história ao reunir mais de 100 mil pessoas. No entanto, o evento deflagrou uma monumental crise interna no Vasco da Gama. Alas conservadoras, sócios influentes e conselheiros que haviam orbitado em torno da Ditadura Vargas protestaram energicamente contra a abertura dos portões ao comunismo. Diante da insustentável pressão política, Castro Filho apresentou sua renúncia em maio de 1945, sendo sucedido por Jayme Fernandes Guedes. Em sinal de lealdade e solidariedade ao companheiro de diretoria, Cyro Aranha também renunciou ao seu cargo de vice-presidente. CRONOLOGIA DA CRISE DE 1945 Abril/1944 Maio/1945 Maio/1945 Castro Filho ┌───────────────────────┐ Renúncia de Castro Filho assume a │ Comício de L.C.Prestes│ ──> e Cyro Aranha diante da presidência │ (100 mil pessoas) │ pressão conservadora └───────────────────────┘ O Impacto na Crônica e na Intelectualidade Nacional A saída voluntária do Professor Castro Filho reverberou fortemente na intelectualidade brasileira, transformando-se em um marco da literatura esportiva da época:  José Lins do Rego: O célebre escritor defendeu publicamente o dirigente. Para Zé Lins, punir Castro Filho era um ato de "covardia política" e "atraso institucional", argumentando que os estádios pertenciam ao povo e que abrir São Januário havia sido um gesto de grandeza cívica.  Álvaro Nascimento (Cascadura): Principal cronista do Jornal dos Sports, Nascimento dedicou diversos textos para exaltar o perfil culto e idealista do presidente injustiçado. Ele lamentou que as pressões mesquinhas do futebol tivessem sufocado uma gestão tão elegante, imortalizando o gesto de Castro Filho como o sacrifício de um homem que se recusou a negociar seus princípios democráticos. A Liderança e os Grandes Cargos nas Décadas de 1950 e 1960 Mesmo após deixar a presidência executiva, o Professor Castro Filho manteve uma liderança política e institucional gigantesca no Vasco da Gama durante as décadas de 1950 e 1960. Longe de se limitar ao papel de um orador de bastidores, os registros históricos provam que ele continuou sendo uma das mentes mais brilhantes, respeitadas e influentes da política interna vascaína, assumindo cargos de máxima relevância na colina:

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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Francisco Marques da Silva – Um ex-presidente marcante na história do Vasco

Em 1948, quando o Club de Regatas Vasco da Gama celebrava meio século de existência, ergueram-se homenagens que buscavam cristalizar sua memória. Entre quadros e retratos de ex-presidentes, surgia a figura de um comerciante português, vindo de Ovar, no norte de Portugal: **Francisco Marques da Silva**. Não nascera vascaíno, nem fora fundador, mas cedo se tornaria um dos pilares da instituição. Seu coração, inicialmente voltado ao América — clube que atraía a colônia portuguesa —, foi conquistado pelo Vasco em meados da década de 1910. Em dezembro de 1917, assumiu a presidência, e a partir de 1918 sua presença se tornaria constante, até o retorno definitivo à terra natal em 1927. Em 1920, viveu uma eleição acirrada contra Marcílio Telles, disputa que dividiu o clube em duas alas: portugueses ao lado de Marcílio, brasileiros ao lado de Francisco. José da Silva Rocha, memorialista apaixonado, registrou essa batalha como um marco da vida política vascaína. Por razões econômicas e familiares, Marques regressou a Portugal em 1921, mas voltou em 1923, a tempo de testemunhar a consagração do futebol cruzmaltino com o título carioca. Desde sua primeira gestão, empenhou-se em fortalecer o departamento de futebol, enfrentando a resistência dos remadores que viam o Vasco como um clube essencialmente náutico. Com aliados influentes, como o lendário **José Ribeiro de Paiva**, o “Almirante”, abriu espaço para operários e negros, excluídos dos grandes clubes, formando um elenco que mudaria a história. Na Tijuca, Marques e sua esposa Guiomar viviam intensamente: esportes, religião, carnaval. Presidiu clubes sociais como o Everest, o Orfeão Português e o Grupo Dramático do Andaraí, onde Guiomar também brilhava. Engajaram-se em campanhas solidárias, mobilizando recursos para soldados portugueses na Primeira Guerra Mundial. Foi um dos principais articuladores da compra do terreno de São Januário e colaborador ativo na construção do estádio, figurando entre os quinze maiores contribuintes. Recebeu, por isso, o título de **Grande Benemérito**, honraria concedida a apenas três pessoas até 1948. Mas sua vida sofreu um golpe em 1926, com a morte de Guiomar, considerada por muitos como uma das mais fervorosas vascaínas. “Sua casa era uma extensão da sede do clube”, escreveu José da Silva Rocha. Pouco depois da inauguração de São Januário, em 1927, Marques partiu para Portugal, sem jamais retornar ao Brasil. Antes da despedida, doou ao clube seu automóvel para transportar jogadores. Em 1931, quando o Vasco excursionou pela Europa, uma das partidas foi em Ovar, sua cidade natal, onde ele se envolveu com o futebol local e ajudou a erguer um estádio. Em 1948, o Vasco buscou reunir ex-presidentes e fundadores. Marques, debilitado, recusou o convite, mas recebeu homenagens em crônicas de Álvaro Nascimento e José da Silva Rocha. Nascimento descreveu-o como “coração bem formado, tolerante, respeitador das convicções alheias, querido até por adversários”. Em resposta, Marques escreveu: “Se é certo que trago sempre no coração o nome do glorioso Vasco da Gama, a carta evocadora do seu cinquentenário elevou ainda mais em mim a chama de uma amizade que se gerou”. Os últimos dez anos de sua vida foram marcados por problemas de saúde. Faleceu em 1959, aos 77 anos, em Ovar. No Rio de Janeiro, o Vasco lhe prestou homenagens com missas e anúncios nos jornais, perpetuando sua memória como um dirigente que ajudou a moldar o destino do clube.

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domingo, 6 de setembro de 2026

Guiomar Marques da Silva: uma memória centenária (1926-2026)

Em 25 de setembro de 2026, completam-se 100 anos da morte de Guiomar Marques da Silva, uma das grandes torcedoras e figuras femininas dos primeiros anos do Club de Regatas Vasco da Gama. Poucas mulheres tiveram papel tão relevante na história do clube quanto ela. Esposa de Francisco Marques da Silva — presidente do Vasco em três ocasiões (1919 a 1921) — Guiomar esteve sempre na linha de frente das atividades sociais e esportivas da instituição. Embora seu legado ainda seja pouco conhecido, a consulta aos jornais da época revela o quanto sua presença foi decisiva para a consolidação do clube e para o fortalecimento da torcida vascaína. Ao lado de Avelina Portela (primeira mulher benemérita de um grande clube) e Josefa Pereira (primeira chefe de torcida do Vasco, segundo o jornalista Álvaro Nascimento), Guiomar — reconhecida como a primeira sócia remida do Vasco — compõe o “trio de ouro feminino” que marcou os principais momentos da história vascaína antes da construção de São Januário. A presença feminina no Vasco sempre foi marcante: nas arquibancadas acompanhando as regatas, nos piqueniques em Paquetá ou nas festas na sede da Rua Santa Luzia. Essa geração cresceu vendo o clube brilhar no remo, mas ainda como “primo pobre” do futebol. Francisco Marques da Silva, comerciante português e dirigente ousado, foi um dos responsáveis pela criação do departamento de futebol, abrindo espaço para jogadores vindos dos clubes suburbanos — muitos deles negros e operários — que se tornaram craques do time. O casal também se destacava na vida cultural e religiosa da cidade. Francisco presidiu o Orfeão Português, uma das várias associações luso-brasileiras da época, enquanto Guiomar atuava como diretora de noviças na Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores. Entre 1921 e 1923, viveram em Portugal, retornando ao Brasil para celebrar o título inédito de futebol conquistado em 1923. A convivência com atletas e dirigentes era constante, seja na sede de Santa Luzia, no campo da Tijuca (Rua Morais e Silva) ou em sua residência na Rua Barão de Mesquita. Pouco se sabe sobre detalhes pessoais de Guiomar, como sua data de nascimento ou se teve filhos. Mas sua paixão pelo Vasco foi registrada nos jornais: “a distinção dispensada aos vascainos, a fidalgia com que eram recebidos em seu lar, deixam indelével recordação e imperecível saudade”. Sua popularidade ficou evidente no dia do enterro, acompanhado por mais de 100 automóveis até o cemitério. Em 1927, Francisco doou ao clube o automóvel do casal, alegando que o veículo trazia muitas lembranças das viagens às regatas e aos campos de futebol. Um gesto simbólico de uma história de amor que uniu paixão esportiva e afetiva. A memória de Guiomar foi preservada com o batismo de um barco de remo em sua homenagem nos anos 1940, além de sua inclusão no livro *Polyanthea Vascaína* (1927), no volume comemorativo do cinquentenário (1948) e em diversas crônicas de Álvaro Nascimento no *Jornal dos Sports*.

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