Artur Braga Rodrigues Pires: um dirigente entre a glória esportiva e os desafios da história vascaína
*Presidente do Vasco da Gama na década de 1950, Artur Pires esteve ligado à conquista do Campeonato Carioca de 1956, ao início da construção da Capela de Nossa Senhora das Vitórias e a episódios que revelam diferentes dimensões da vida institucional e social do clube.* A história do Club de Regatas Vasco da Gama foi construída não apenas pelos atletas que defenderam suas cores e pelas equipes responsáveis por grandes conquistas, mas também por dirigentes que participaram de diferentes momentos da vida administrativa, política e associativa da instituição. Entre eles, Artur Braga Rodrigues Pires, conhecido como Artur Pires, ocupou posição de destaque na década de 1950 e permaneceu ligado à vida vascaína por muitos anos depois de deixar a presidência. Nascido em 28 de abril de 1907, Artur Pires desenvolveu uma trajetória profissional que ultrapassou os limites do esporte. Um perfil biográfico publicado pela revista portuguesa *Duas Pátrias*, em 1955, registra o início de suas atividades no comércio em 1924 e informa que se formou pela Faculdade de Medicina da Universidade do Rio de Janeiro em 1927. A mesma publicação destaca sua participação em entidades empresariais e instituições relacionadas à organização do trabalho e à formação profissional. Esses registros ajudam a compreender o perfil de um dirigente que transitava por diferentes ambientes da sociedade brasileira. Sua atuação também esteve ligada à representação do setor comercial e à assistência social. Exerceu funções de direção no Serviço Social do Comércio do Rio de Janeiro (SESC-RJ) e presidiu a Federação do Comércio Atacadista do Estado do Rio de Janeiro, conforme as informações biográficas reunidas para esta pesquisa. Em um período marcado pela expansão das atividades econômicas, pelo crescimento urbano e pelas transformações nas relações de trabalho, a participação nessas entidades colocava seus dirigentes em contato com debates importantes sobre desenvolvimento, organização empresarial e bem-estar dos trabalhadores. Sua projeção alcançou igualmente o cenário internacional. Em 1952, integrou, segundo os registros reunidos, a delegação brasileira à 35ª Conferência Internacional do Trabalho, realizada em Genebra, no âmbito da Organização Internacional do Trabalho. Também teria representado o Brasil no X Congresso Internacional de Medicina do Trabalho, em Lisboa. A confirmação documental dessas participações e a identificação precisa de suas funções nesses eventos poderão ampliar o conhecimento sobre sua trajetória profissional para além do futebol. Foi, entretanto, no Vasco da Gama que Artur Pires deixou uma marca particularmente significativa para a memória esportiva do Rio de Janeiro. ## A presidência e a conquista de 1956 Artur Pires assumiu a presidência do Vasco em 16 de março de 1954 e foi reconduzido ao cargo em 14 de março de 1956. As cronologias consultadas situam suas gestões entre 1954 e 1957, embora algumas referências indiquem 1958 como o ano de encerramento de sua passagem pela presidência. A definição exata do término do mandato deverá ser conferida nas atas e nos registros oficiais do clube. Sua administração atravessou um período importante do futebol vascaíno. Em 1956, o clube conquistou o Campeonato Carioca, reafirmando sua posição entre as grandes forças do futebol do Rio de Janeiro. A conquista ocorreu em uma década na qual o Vasco procurava preservar a tradição de suas equipes e manter sua capacidade de competir em alto nível. A vitória no campeonato constitui um dos principais marcos esportivos associados à sua presidência. Para avaliar com maior precisão a participação de Artur Pires nesse resultado, porém, é necessário examinar a documentação administrativa e esportiva da época, identificando as decisões da diretoria, as condições de funcionamento do departamento de futebol e as circunstâncias que acompanharam a campanha da equipe. O período também coincidiu com acontecimentos de grande repercussão nacional. A morte de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954, provocou intensa comoção política e social no país, situando o início da administração de Artur Pires em um momento de profundas tensões na vida brasileira. ## A Capela de Nossa Senhora das Vitórias Entre as iniciativas associadas à sua gestão, destaca-se o lançamento da pedra fundamental da Capela de Nossa Senhora das Vitórias, no complexo de São Januário. A cerimônia ocorreu em 15 de agosto de 1955 e contou com a presença de Dom Hélder Câmara, então bispo auxiliar do Rio de Janeiro, além do presidente vascaíno. A iniciativa representou um marco na história do clube, pois incorporou ao patrimônio de São Januário um espaço de caráter religioso, ampliando as dimensões simbólicas e associativas do complexo esportivo. A capela expressa um aspecto importante da vida institucional vascaína: a sede do clube não se limitava às atividades esportivas, constituindo também um espaço de convivência, identidade e manifestação das tradições de seus associados. As obras iniciadas durante a presidência de Artur Pires prosseguiram após sua saída do cargo. A inauguração oficial ocorreu em 26 de agosto de 1961, demonstrando como projetos concebidos em uma administração podiam atravessar diferentes gestões e permanecer na memória coletiva do clube. ## A tentativa de contratar Pelé Outro episódio associado à presidência de Artur Pires é a tentativa de contratar Pelé, então jovem jogador do Santos e ainda no início de uma carreira que o transformaria em um dos maiores nomes da história do futebol mundial. Segundo as informações reunidas para esta pesquisa, Artur Pires chegou a viajar a Santos para negociar a contratação com o clube paulista. A transferência não se concretizou, e Pelé permaneceu no Santos, onde alcançou projeção internacional. O episódio foi posteriormente abordado em uma crônica de Mario Filho, publicada em 1977, dedicada a Pelé e à sua relação com o Vasco. O texto constitui uma pista relevante para reconstruir a história da negociação e compreender as ambições esportivas da direção vascaína em meados dos anos 1950. A leitura integral da crônica, acompanhada da consulta aos jornais publicados na época, poderá esclarecer as circunstâncias da viagem, os termos eventualmente discutidos e as razões que impediram o acordo. Até que esses elementos sejam documentados, é prudente tratar os detalhes da negociação como informações ainda sujeitas a confirmação. Mesmo sem a concretização da transferência, a tentativa revela a disposição da direção vascaína de buscar jogadores capazes de fortalecer a equipe. O episódio também oferece uma oportunidade para estudar as relações entre grandes clubes brasileiros em um período no qual as negociações de atletas começavam a adquirir crescente importância econômica e esportiva. ## A Barreira do Vasco: uma dimensão social controversa A trajetória de Artur Pires não pode ser examinada exclusivamente a partir das conquistas esportivas e das iniciativas institucionais. Uma reportagem publicada em 1957, intitulada “Vasco avança na área: desaloja cem pessoas”, apresenta outra dimensão da relação entre o clube e a comunidade situada nas imediações de São Januário. Segundo a matéria, uma área de aproximadamente três mil metros quadrados da Barreira do Vasco seria destinada à construção de um estacionamento ligado aos interesses do clube. A iniciativa ameaçava a permanência de famílias que viviam no local, entre elas moradores idosos e pessoas com poucos recursos para encontrar outra moradia. A reportagem menciona Elias Pedro Ferreira de Souza, então com 71 anos, e registra a preocupação dos moradores diante da possibilidade de perderem suas casas. Também faz referência à atuação da Justiça e da Fundação Leão XIII no contexto do conflito. O episódio merece atenção especial por revelar tensões entre os interesses patrimoniais de uma grande instituição esportiva e as condições de vida da população que residia nas proximidades de sua sede. A história do Vasco, como a de outras instituições de grande dimensão, também foi marcada por questões relacionadas à ocupação do espaço urbano, à propriedade e às relações com as comunidades vizinhas. A matéria atribui a Artur Pires participação na iniciativa que deu origem ao conflito. Uma avaliação histórica definitiva, entretanto, exige a análise integral da reportagem e a consulta a outras fontes que permitam esclarecer a situação jurídica do terreno, as decisões administrativas envolvidas, a atuação das autoridades públicas e o desfecho da ameaça de desalojamento. Incorporar esse episódio à biografia não significa reduzir a trajetória do dirigente a um único acontecimento. Significa reconhecer que uma narrativa histórica consistente deve considerar também os conflitos e as consequências sociais das decisões institucionais, mesmo quando eles contrastam com a memória construída em torno das conquistas esportivas. ## Benemérito, grande benemérito e presidente do Conselho Deliberativo A relação de Artur Pires com o Vasco não terminou com sua saída da presidência. Reconhecido pelos serviços prestados ao clube, recebeu os títulos de benemérito e grande benemérito, distinções que o mantiveram entre as figuras reconhecidas pela instituição. Em 1960, foi eleito presidente do Conselho Deliberativo, ampliando sua participação na vida política vascaína. A posição demonstra a importância desse órgão na estrutura associativa do clube e a continuidade da atuação de antigos dirigentes nos debates sobre seus rumos administrativos. A permanência de Artur Pires nesse ambiente também permite observar como as relações pessoais e políticas construídas durante uma gestão podiam atravessar diferentes gerações de dirigentes. O exercício da presidência constituía apenas uma etapa de uma trajetória associativa que, no caso de antigos presidentes, frequentemente prosseguia por meio de conselhos, campanhas eleitorais e outras funções institucionais. ## A participação nas disputas políticas vascaínas Nas décadas seguintes, Artur Pires continuou participando das disputas políticas do Vasco. Em 1976, esteve ligado à campanha de Medrado Dias, que concorreu à presidência do clube. Medrado havia sido diretor de futebol durante a primeira gestão de Artur Pires, em 1954, relação que evidencia a continuidade de vínculos estabelecidos no interior da administração vascaína. Em 1985, Artur Pires voltou a se posicionar no cenário eleitoral do clube, apoiando Eurico Miranda. A identificação precisa de sua participação nessas campanhas, das chapas envolvidas e das posições defendidas por ele depende de documentação adicional, especialmente notícias de jornais e registros das eleições. Esses episódios são relevantes porque permitem acompanhar a permanência de antigas lideranças nos debates institucionais do Vasco muito depois do encerramento de seus mandatos executivos. A história política de um clube não se limita às sucessões presidenciais: envolve alianças, divergências, grupos de associados e disputas sobre os caminhos da instituição. ## O associativismo português Outra dimensão da trajetória de Artur Pires foi sua participação em associações ligadas à comunidade portuguesa no Brasil. Em 1970, ocupou a vice-presidência da Casa de Trás-os-Montes, entidade representativa das tradições e dos vínculos culturais da comunidade originária daquela região de Portugal. Sua presença nesse espaço amplia a compreensão de suas relações sociais para além do universo vascaíno. As associações de origem portuguesa desempenharam papel importante na vida comunitária do Rio de Janeiro, promovendo encontros, preservando tradições e criando redes de sociabilidade entre seus membros. A participação de Artur Pires nesse ambiente também abre caminho para investigar as conexões entre o associativismo português e as instituições esportivas. A identificação de outras entidades das quais participou, bem como a documentação de suas funções e atividades, poderá esclarecer melhor a extensão de sua atuação comunitária. ## A representação do Vasco na Espanha Um dos últimos episódios conhecidos de sua trajetória ligada ao clube ocorreu em 1987, quando Artur Pires representou o Vasco na Espanha durante a disputa do Troféu Ramón de Carranza. A viagem demonstra que continuava associado à representação institucional vascaína décadas depois de assumir pela primeira vez a presidência. Sua presença nesse compromisso internacional constitui um registro significativo da permanência de antigos dirigentes na vida do clube e da importância atribuída à experiência acumulada por essas lideranças. A confirmação dos detalhes da viagem, de sua função específica na delegação e dos registros fotográficos ou jornalísticos correspondentes poderá enriquecer esse capítulo final da biografia. ## Uma trajetória entre a administração, o esporte e a vida associativa A biografia de Artur Braga Rodrigues Pires permite acompanhar diferentes dimensões da história do Vasco da Gama na segunda metade do século XX. Sua presidência esteve associada à conquista do Campeonato Carioca de 1956, ao lançamento da pedra fundamental da Capela de Nossa Senhora das Vitórias e à tentativa de contratação de Pelé. Sua trajetória também inclui o reconhecimento como benemérito e grande benemérito, a presidência do Conselho Deliberativo e a participação nas disputas políticas vascaínas das décadas posteriores. Ao mesmo tempo, o episódio da Barreira do Vasco mostra que a memória institucional precisa considerar questões que ultrapassam os resultados esportivos. A relação entre o clube e a população que vivia no entorno de São Januário constitui parte da história social da região e merece ser examinada com o mesmo rigor dedicado às conquistas e às realizações administrativas. Sua participação em entidades empresariais, instituições sociais e associações portuguesas acrescenta outra dimensão ao personagem. Artur Pires integrava um universo de dirigentes cuja atuação se estendia por diferentes espaços da sociedade, reunindo experiência profissional, vida associativa e administração esportiva. A data de seu falecimento ainda não foi estabelecida com segurança. As informações reunidas até o momento apontam para um intervalo entre 1988 e 1994, que deverá ser esclarecido por meio da consulta a jornais, registros civis, atas e documentos do clube. Reconstruir sua trajetória é, portanto, mais do que recuperar a biografia de um antigo presidente. É também investigar as continuidades da vida política vascaína, as relações entre esporte e sociedade e os desafios administrativos e sociais que marcaram a história do clube. O aprofundamento da pesquisa documental permitirá distinguir com maior precisão os fatos comprovados das memórias posteriores, contribuindo para uma compreensão mais completa de Artur Braga Rodrigues Pires e de seu lugar na história do Vasco da Gama.
Marcadores: presidentes
