sábado, 10 de outubro de 2026

Cândido José de Araújo (Candinho): entre o esquecimento e a memória na história do Club de Regatas Vasco da Gama

A trajetória de Cândido José de Araújo, conhecido como Candinho, ocupa posição singular na história do Club de Regatas Vasco da Gama. Eleito presidente da agremiação em 1904, é atualmente reconhecido como o primeiro dirigente negro a ocupar o cargo máximo do clube. Entretanto, a análise das fontes sugere uma dinâmica mais complexa do que aquela presente nas narrativas comemorativas contemporâneas. Este artigo investiga a trajetória de Candinho a partir de três dimensões complementares: sua participação no associativismo esportivo carioca do início do século XX, os relatos sobre seu posterior afastamento do Vasco e o processo de reconstrução de sua memória nas primeiras décadas do século XXI. Argumenta-se que a história de Candinho revela não apenas possibilidades de participação negra em espaços dirigentes, mas também os mecanismos pelos quais determinados personagens podem ser esquecidos, preservados em memórias restritas e posteriormente recuperados como símbolos institucionais. Palavras-chave: Vasco da Gama; memória; relações raciais; associativismo esportivo; Candinho. Introdução A história do Club de Regatas Vasco da Gama ocupa lugar privilegiado nas interpretações sobre raça e inclusão no esporte brasileiro. A incorporação de atletas oriundos das camadas populares e a defesa de princípios de igualdade tornaram-se elementos centrais da identidade histórica do clube. Contudo, a compreensão desse processo exige que se evite a projeção de valores contemporâneos sobre períodos anteriores e que se examine criticamente as experiências concretas de participação vividas por indivíduos e grupos ao longo do tempo. Entre essas trajetórias destaca-se a de Cândido José de Araújo, conhecido como Candinho. Sua eleição à presidência do Vasco, em 1904, constitui um acontecimento relevante para a história social do associativismo esportivo carioca. Nas últimas décadas, Candinho passou a ocupar posição cada vez mais destacada na memória institucional do clube, sendo frequentemente apresentado como símbolo da presença negra em cargos de liderança e precursor da tradição antirracista vascaína. Entretanto, a documentação disponível sugere uma trajetória mais complexa. Relatos posteriores indicam conflitos que teriam culminado com seu afastamento da agremiação. Além disso, sua morte, em 1935, aparentemente não foi acompanhada das homenagens públicas normalmente observadas em relação a outros ex-presidentes vascaínos. Em contraste, no século XXI sua figura passou a receber crescente valorização por parte de pesquisadores, torcedores e do próprio clube. Este artigo propõe analisar a trajetória de Candinho não apenas como dirigente esportivo, mas também como objeto de sucessivos processos de construção, esquecimento e reconstrução da memória histórica. A questão central consiste em compreender como um ex-presidente aparentemente pouco lembrado no momento de sua morte transformou-se posteriormente em um dos símbolos da memória negra vascaína. Candinho e a participação negra no associativismo esportivo A eleição de Candinho para a presidência do Vasco da Gama ocorreu em um contexto marcado pelas transformações da sociedade brasileira após a abolição da escravidão. Os clubes esportivos constituíam espaços fundamentais de sociabilidade, mas também reproduziam distinções de classe, prestígio e pertencimento social. Nesse contexto, a ascensão de Candinho ao principal cargo diretivo do Vasco possui inegável relevância histórica. Sua eleição demonstra que indivíduos negros podiam alcançar posições de destaque em determinadas associações esportivas da capital federal. Entretanto, a existência de um dirigente negro não deve ser interpretada automaticamente como evidência de igualdade racial plena ou ausência de mecanismos de exclusão. A importância histórica de Candinho não está em servir como prova de uma suposta democracia racial precoce, mas em revelar a complexidade das formas de inserção da população negra nas instituições esportivas da Primeira República. Entre o Vasco e o Boqueirão Outro aspecto relevante é a atuação de Candinho para além do Vasco da Gama. As evidências disponíveis indicam que sua ligação com o Clube Boqueirão foi mais longa e duradoura do que sua passagem pela presidência vascaína. Essa constatação sugere a necessidade de ampliar o foco da análise. Em vez de reduzir sua trajetória à condição de ex-presidente do Vasco, torna-se possível situá-lo em uma rede mais ampla de sociabilidades esportivas que articulava diferentes associações do Rio de Janeiro. A comparação entre essas experiências pode contribuir para compreender as possibilidades de mobilidade, liderança e reconhecimento disponíveis para homens negros no universo associativo carioca das primeiras décadas do século XX. A expulsão e a memória preservada por Joaquim Carneiro Dias Um dos elementos mais intrigantes da trajetória de Candinho é o relato de sua expulsão do quadro social vascaíno. A narrativa chegou à historiografia por intermédio do jornalista Álvaro Rodrigues, mas sua origem remonta ao testemunho de Joaquim Carneiro Dias, um dos mais importantes remadores da história do Vasco da Gama. Tal circunstância confere especial relevância à fonte. Embora o relato exija verificação documental, ele não se apresenta como mera tradição oral anônima, mas como memória transmitida por um personagem profundamente integrado à vida da instituição. A importância historiográfica desse testemunho não reside apenas na possibilidade de esclarecer um episódio específico. Ele demonstra que, décadas após a passagem de Candinho pelo clube, sua trajetória ainda circulava entre antigos associados e esportistas. Isso sugere que sua memória permaneceu viva em determinados círculos internos, ainda que não ocupasse posição central na narrativa oficial vascaína. A morte de Candinho e o silêncio institucional A análise da documentação referente à morte de Candinho, em 1935, revela um contraste significativo com sua valorização contemporânea. O anúncio de falecimento localizado na imprensa identificava Cândido José de Araújo como funcionário aposentado da Central do Brasil e divulgava informações sobre seu sepultamento. Não foram encontradas referências à sua condição de ex-presidente do Vasco da Gama nem manifestações públicas do clube em seu nome. Essa ausência ganha maior significado quando comparada ao falecimento de Alberto Carvalho, ex-presidente vascaíno e contemporâneo de Candinho, ocorrido em 1936. Nesse caso, a imprensa registrou homenagens públicas e a participação de dirigentes ligados ao clube nas cerimônias fúnebres. Não seria metodologicamente correto concluir que essa diferença decorreu diretamente de discriminação racial. Contudo, a discrepância documental levanta uma questão relevante: por que dois ex-presidentes da mesma geração parecem ter recebido reconhecimentos tão distintos? A resposta para essa pergunta constitui uma das principais contribuições possíveis desta pesquisa. A redescoberta de Candinho no século XXI Nas primeiras décadas do século XXI, a memória de Candinho passou por notável processo de valorização institucional. Em 2007, a Revista do Vasco publicou a reportagem intitulada Um gigante contra o preconceito, na qual Candinho foi apresentado como personagem fundamental da luta contra a discriminação racial e símbolo dos valores democráticos associados ao clube. Já em 2024, nova publicação institucional ampliou essa interpretação ao destacar sua eleição como marco inicial da presença negra em posições de destaque dentro da estrutura dirigente vascaína. Essas publicações demonstram que a memória de Candinho passou por um processo de ressignificação histórica. O dirigente que aparentemente ocupava posição secundária na memória pública dos anos 1930 tornou-se, mais de sete décadas depois, parte importante da identidade institucional do Vasco e de sua narrativa antirracista. Considerações finais A trajetória de Cândido José de Araújo revela uma questão mais ampla do que a simples biografia de um dirigente esportivo. Sua história permite observar os mecanismos pelos quais personagens históricos são lembrados, esquecidos e posteriormente recuperados por novas gerações. A eleição para a presidência do Vasco em 1904 demonstra possibilidades concretas de participação negra em espaços de liderança esportiva. Os relatos sobre sua expulsão revelam a existência de conflitos e tensões que ainda precisam ser melhor compreendidos. A ausência de homenagens identificáveis por ocasião de sua morte sugere que sua memória não ocupava posição central na narrativa institucional do clube nos anos 1930. Finalmente, sua redescoberta nas primeiras décadas do século XXI mostra como o passado é continuamente reinterpretado à luz das preocupações do presente. Mais do que um personagem da história vascaína, Candinho representa um caso exemplar para compreender a relação entre memória, identidade e associativismo esportivo no Brasil. Sua trajetória demonstra que a história não é feita apenas de acontecimentos, mas também das formas pelas quais esses acontecimentos são lembrados, silenciados e reconstruídos ao longo do tempo.

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São Januário e a torcida vascaína: mobilização popular, identidade coletiva e disputas sociais no futebol brasileiro

1. Introdução: São Januário e a transformação do futebol carioca Na década de 1920, o Brasil foi atravessado por movimentos políticos, artísticos e sociais que questionavam aspectos de uma ordem historicamente marcada por desigualdades e exclusões. Embora essas transformações não tenham seguido um percurso linear, o período foi caracterizado por disputas em torno dos significados da modernidade, da identidade nacional e da participação de diferentes grupos sociais na vida pública. No futebol, essas tensões encontraram uma expressão particularmente significativa na ascensão do Club de Regatas Vasco da Gama e na construção de seu estádio, São Januário. Inaugurado em 1927, São Januário representou muito mais do que uma realização arquitetônica. Sua construção foi resultado de uma ampla mobilização de dirigentes, associados, comerciantes, imigrantes e torcedores, que contribuíram para dotar o clube de uma estrutura capaz de rivalizar com a dos principais concorrentes do futebol carioca. O estádio tornou-se, assim, um símbolo da capacidade de organização coletiva dos vascaínos e um marco das transformações que conduziram à crescente popularização do futebol brasileiro. A história de São Januário permite compreender como a expansão das torcidas esteve relacionada às disputas sociais que atravessavam o esporte. O crescimento do público, a participação financeira dos associados, a reivindicação por melhores equipes e a consolidação de identidades clubísticas expressavam mudanças que ultrapassavam os limites dos campos de jogo. Ao longo das décadas seguintes, essas transformações contribuíram para fazer do torcedor um personagem cada vez mais importante na organização e na representação pública do futebol. Este artigo analisa a construção de São Januário e a trajetória da torcida vascaína entre as décadas de 1920 e 1940, relacionando esses processos à discriminação racial e social, à presença de imigrantes, à disputa pela popularidade entre os clubes cariocas e aos usos políticos do estádio. Examina, ainda, a consolidação das torcidas uniformizadas e a crescente ocupação das ruas pelos torcedores, particularmente durante a campanha vitoriosa do Vasco em 1945. A hipótese central é que São Januário constituiu uma expressão material e simbólica da força coletiva construída em torno do Vasco da Gama. Sua história revela como um clube inicialmente ligado ao remo conseguiu ampliar sua presença no futebol, mobilizar diferentes segmentos sociais e participar ativamente da transformação das relações entre clubes, torcedores, imprensa e poder público. 2. A ascensão do Vasco e a transformação das torcidas A conquista do Campeonato Carioca de 1923 representou um acontecimento decisivo na história do Vasco da Gama. Pela primeira vez, o clube conquistava o principal campeonato de futebol do Rio de Janeiro, enfrentando agremiações que dispunham de maior tradição na modalidade e que estavam associadas, em diferentes graus, aos setores socialmente privilegiados da cidade. Até então, Fluminense, Flamengo, Botafogo e América ocupavam posições centrais no futebol carioca. A entrada do Vasco nessa disputa alterou o equilíbrio esportivo e simbólico existente. O sucesso de uma equipe que reunia jogadores de diferentes origens sociais, incluindo negros e trabalhadores, questionava hierarquias que extrapolavam o desempenho esportivo. A ascensão vascaína também modificou a composição e a distribuição das torcidas. O clube passou a atrair um público numeroso, formado por diferentes segmentos da população, entre os quais se destacava a comunidade portuguesa. Essa presença, contudo, não deve ser interpretada como evidência de que a torcida vascaína fosse exclusivamente portuguesa. A associação entre o Vasco e a imigração lusitana constitui uma dimensão importante de sua história, mas não esgota a diversidade social de seus torcedores. A própria trajetória do América ajuda a compreender essa transformação. Antes da consolidação do Vasco na primeira divisão, o América contava com expressiva presença portuguesa em suas arquibancadas. Segundo Orlando Cunha e Fernando Valle: “perdemos, então, a preferência maciça que gozávamos entre nossos irmãos lusitanos. Até essa data, o América – sem ser propriamente o clube da colônia, como veio a ser, em seguida, o grêmio cruzmaltino – era aquele que contava com maior número de portugueses em sua torcida” (CUNHA; VALLE, 1972, p. 140). A passagem evidencia que as identificações clubísticas não eram permanentes nem determinadas exclusivamente pela origem nacional. A preferência dos torcedores podia ser alterada pelo desempenho esportivo, pela identificação com os jogadores e pela capacidade de cada agremiação de representar interesses e sentimentos coletivos. Fundado em 1898 como clube de remo, o Vasco iniciou sua participação no futebol em 1916. Nos anos seguintes, disputou as divisões inferiores até alcançar a primeira divisão em 1923. A conquista do campeonato naquele ano provocou uma rápida ampliação de sua popularidade. O êxito esportivo contribuiu para atrair novos espectadores e associados, fortalecendo a presença do clube na vida urbana carioca. Em O negro no futebol brasileiro, Mário Filho descreveu a expansão do público vascaíno nos seguintes termos: “Quanto mais o Vasco vencia, mais os campos se enchiam. Até o estádio do Fluminense ficou pequeno. Gente que nunca tinha assistido a uma partida de futebol deu para comprar a sua arquibancada. Tudo português, o português se julgando obrigado a ir onde o Vasco ia” (RODRIGUES FILHO, 2003, p. 121). A narrativa de Mário Filho registra a intensidade do crescimento da torcida e a importância da comunidade portuguesa para esse processo. Entretanto, a caracterização do público como essencialmente português precisa ser examinada criticamente. Ao enfatizar essa dimensão, corre-se o risco de reduzir uma mobilização social heterogênea a uma identidade étnica particular. A identificação entre Vasco e portugueses foi importante, mas também se relacionou às experiências de trabalhadores, negros e outros segmentos populares que encontraram no clube uma possibilidade de participação e reconhecimento. A trajetória vascaína deve, portanto, ser compreendida a partir da articulação entre diferentes pertencimentos, sem que um deles seja tomado como explicação exclusiva. Essa interpretação permite questionar a imagem de que o Vasco teria sido apenas o representante esportivo da colônia portuguesa. A força de sua torcida resultou de um processo mais amplo de identificação coletiva, alimentado pelas vitórias, pela composição da equipe, pela ampliação do acesso ao futebol e pelas disputas sociais que cercavam o esporte. O geógrafo Fernando Ferreira destaca a amplitude da discriminação enfrentada pelo clube: “A campanha empreendida contra o Vasco da Gama possuía um caráter muito mais amplo do que se costuma divulgar, sendo possuidora de um cunho racista, elitista e xenófobo, representado pela perseguição à ‘maldita’ tríade preto – pobre – português” (FERREIRA, 2004, p. 45). A formulação sintetiza dimensões fundamentais do conflito. A presença de jogadores negros, a participação de trabalhadores e a associação com imigrantes portugueses colocavam o Vasco em confronto com valores e práticas excludentes presentes no futebol da época. Não se tratava apenas de uma rivalidade esportiva, mas também de uma disputa sobre quem poderia ocupar legitimamente os espaços de prestígio e representação social. 3. A torcida como força de transformação do futebol A ascensão do Vasco modificou não apenas a composição das arquibancadas, mas também as expectativas do público em relação ao espetáculo esportivo. A ampliação da torcida contribuiu para intensificar as rivalidades e tornar mais evidente a dimensão comercial e social do futebol. Em uma cidade marcada por desigualdades, o aumento da presença popular nos estádios expressava novas formas de participação na vida urbana. O futebol oferecia oportunidades de identificação coletiva, reconhecimento e confronto simbólico entre grupos sociais. As arquibancadas tornavam-se espaços nos quais diferenças e rivalidades se manifestavam publicamente. Mário Filho atribui ao crescimento da torcida vascaína uma transformação no comportamento dos espectadores. Ao comentar a diferença entre o ambiente anterior e posterior à entrada do Vasco na elite do futebol, o jornalista afirma: “antes do Vasco, a torcida era toda respeito. A prova está em 1924, o Vasco fora da AMEA. Um jogador enterrando o time a torcida pedindo a deus para que ele saísse de campo, não querendo, porém ofendê-lo de jeito nenhum. Havia uma maneira delicada de avisar o clube que o jogador precisava ser substituído, para evitar a derrota, de pedir que cedesse o lugar ao outro. Era olha o telefone! (…) nada de insultos. Com o Vasco na AMEA, porém, o torcedor não podia dar-se a esse luxo de amabilidades. Se um jogador estava jogando mal tinha de sair logo, o mais depressa possível, senão o Vasco acabava ganhando o jogo. Os jogadores começaram a ouvir gritos, descomposturas, o torcedor se justificando que pagara a entrada” (RODRIGUES FILHO, 2003, p. 140). A interpretação de Mário Filho deve ser lida com cautela, pois estabelece uma oposição entre um suposto comportamento respeitoso anterior e uma nova atitude atribuída à presença vascaína. Ainda assim, o relato registra uma transformação importante: o torcedor passava a reivindicar, de maneira mais explícita, o direito de cobrar resultados em contrapartida ao pagamento do ingresso. A expansão do público contribuiu para modificar as relações entre espectadores, jogadores e dirigentes. O torcedor deixava de ser apenas um observador do jogo para assumir uma posição mais ativa na avaliação do desempenho esportivo. A disposição para cobrar resultados também revelava a crescente importância econômica das bilheterias e da mobilização popular para a sustentação dos clubes. Esse processo não deve ser entendido como consequência exclusiva da ascensão do Vasco. Tratava-se de uma transformação mais ampla do futebol, na qual a expansão do público e o aumento das receitas conviviam com disputas sobre o amadorismo, a profissionalização e o controle institucional do esporte. O caso vascaíno, entretanto, permite observar com particular clareza as tensões envolvidas nessa mudança. 4. A AMEA e a construção de São Januário A exclusão do Vasco do campeonato organizado pela Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA), em 1924, constituiu um dos episódios mais significativos das disputas institucionais do futebol carioca. O clube havia conquistado o campeonato de 1923 e, no ano seguinte, manteve sua força esportiva, sagrando-se campeão invicto da competição organizada pela Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT). A criação da AMEA e a exclusão vascaína devem ser compreendidas no contexto dos conflitos em torno da organização do futebol, dos critérios de participação nos campeonatos e da resistência de setores dirigentes à ascensão de um clube que contrariava hierarquias estabelecidas. O racismo e o elitismo constituíram dimensões importantes desse processo, embora seja necessário distinguir os argumentos formalmente apresentados pelas entidades de suas implicações sociais e políticas. Entre as justificativas relacionadas à exclusão estava a situação das instalações esportivas do Vasco. A exigência de um estádio considerado adequado aos padrões dos principais clubes cariocas tornou-se parte da disputa institucional. A construção de uma praça esportiva própria passou, assim, a representar uma condição importante para a consolidação do clube. Em 1924, enquanto o Vasco disputava a competição da LMDT, a AMEA organizava seu próprio campeonato. A presença de um público expressivo nos jogos vascaínos e a capacidade de arrecadação da liga concorrente evidenciaram os limites de uma organização esportiva que não contava com um dos principais atrativos do futebol carioca. Fábio Franzini (2003) examina esse contexto de conflitos e transformações do futebol brasileiro. Waldenyr Caldas, por sua vez, destaca as contradições entre o prestígio institucional da AMEA e a capacidade de mobilização do público que acompanhava a competição rival: “de nada adiantaria a AMEA o apoio oficial da CBD, se o público nos estádios era bem inferior àquele que assistia aos jogos da LMTD. Se em curto prazo, a AMEA parece vitoriosa, nota-se que o profissionalismo e a profissionalização do futebol ocorreram de forma irreversível” (CALDAS, 1990, p. 88). A passagem evidencia que o poder institucional não era suficiente para garantir o sucesso de uma competição esportiva. A presença do público e a capacidade de mobilização das torcidas tornavam-se fatores decisivos para a sustentação econômica e simbólica dos campeonatos. Em 1925, o Vasco ingressou na AMEA. A aceitação do clube esteve associada à necessidade de fortalecer a competição e atrair espectadores. A construção de um estádio próprio, por sua vez, tornou-se uma resposta concreta às exigências institucionais e às disputas de prestígio que marcavam o futebol carioca. Como observa Mário Filho, a passagem do campo da Rua Moraes e Silva para São Januário representou uma mudança de escala na história do clube: “do campinho da rua Moraes e Silva, o Vasco deu um salto para São Januário (…) hoje o Maracanã não deixa ver direito o esforço gigantesco” (RODRIGUES FILHO, 1994, p. 79). A construção do estádio não pode ser explicada apenas como uma reação às exigências da AMEA. Ela também expressou a capacidade de organização dos vascaínos e a compreensão de que a infraestrutura esportiva era fundamental para sustentar a expansão do clube. A obra materializou a mobilização de uma comunidade que desejava afirmar sua posição no futebol carioca. 5. A campanha de arrecadação e a mobilização dos vascaínos A construção de São Januário exigiu uma ampla campanha de arrecadação de recursos. Listas de contribuições circularam pela cidade, mobilizando associados, comerciantes e simpatizantes. A iniciativa ficou conhecida como a “Campanha dos 10 mil”, expressão que traduzia a ambição de ampliar a base social do clube e reunir os recursos necessários à realização do empreendimento. Segundo Mário Filho, o êxito da campanha foi expressivo. Ao final de 1926, o Vasco havia recebido milhares de novos associados, ampliando significativamente sua capacidade de organização e arrecadação. A adesão de novos sócios demonstrava que o projeto do estádio ultrapassava os limites da administração esportiva e se transformava em uma causa coletiva. O terreno escolhido ficava em São Cristóvão, bairro cuja localização e história apresentavam afinidades com a trajetória do clube. Fernando Ferreira (2004, p. 34) destaca fatores que ajudam a compreender essa escolha: a proximidade com o antigo campo da Rua Moraes e Silva e com a zona portuária, a presença de uma numerosa comunidade portuguesa e a associação histórica do bairro com a monarquia portuguesa, especialmente após a chegada da Família Real ao Rio de Janeiro. A escolha de São Cristóvão articulava, portanto, aspectos práticos e simbólicos. A região oferecia condições para a implantação de uma grande praça esportiva e, ao mesmo tempo, estabelecia vínculos com a história do clube e com parte de sua base social. A mobilização em torno da construção também permitiu demonstrar que os vascaínos eram capazes de realizar um empreendimento de grande porte sem depender exclusivamente do apoio governamental. O envolvimento dos associados e torcedores tornou-se parte central da memória institucional do clube. Essa dimensão é essencial para compreender São Januário como patrimônio coletivo. O estádio não foi apenas construído para receber partidas: tornou-se um símbolo material da capacidade de organização de uma comunidade que procurava afirmar sua legitimidade diante de adversários mais antigos e socialmente prestigiados. 6. A inauguração de São Januário e a afirmação do Vasco As obras de São Januário começaram em 6 de junho de 1926, e o estádio foi inaugurado em 21 de abril de 1927. Sua construção, realizada em um período relativamente curto para a dimensão do empreendimento, consolidou a posição do Vasco entre as principais instituições esportivas do país. A data da inauguração, 21 de abril, associada à memória de Tiradentes e à Inconfidência Mineira, pode ser interpretada como parte de um contexto no qual a afirmação da identidade nacional adquiria importância para o clube. Em meio às acusações de que o Vasco seria essencialmente uma agremiação estrangeira, a inauguração de uma grande praça esportiva na capital federal contribuía para reforçar sua presença na vida pública brasileira. O presidente da República, Washington Luís, compareceu à cerimônia. A presença presidencial conferiu relevância política ao acontecimento, que reuniu personalidades do mundo esportivo e da sociedade carioca. A fita simbólica foi cortada pelo aviador português Sarmento de Beires, conhecido pela travessia aérea entre Lisboa e o Rio de Janeiro. A cerimônia reuniu referências brasileiras e portuguesas, evidenciando que essas identidades não precisavam ser necessariamente excludentes. A história do Vasco foi marcada justamente pela articulação entre a herança portuguesa de parte de seus fundadores e associados e sua crescente identificação com a sociedade brasileira. O jogo inaugural foi disputado contra o Santos, em uma partida que conferiu dimensão interestadual ao acontecimento. No ano seguinte, a inauguração da iluminação do estádio, em uma partida contra o clube uruguaio Wanderers, ampliou a projeção esportiva de São Januário. Durante os anos seguintes, o estádio destacou-se por suas dimensões e por sua importância para o futebol brasileiro. Mais do que um equipamento esportivo, tornou-se um lugar de memória, reconhecimento e pertencimento para a torcida vascaína. São Januário permitia que os torcedores se reconhecessem como participantes de uma realização coletiva. Em um contexto marcado por preconceitos e disputas de prestígio, o estádio oferecia uma referência concreta para a construção de uma imagem positiva do clube. A identidade vascaína passava a se apoiar não apenas nas vitórias em campo, mas também na capacidade de mobilização que tornara possível a construção de sua casa. 7. São Januário e as disputas pelo prestígio esportivo A inauguração do estádio alterou as relações de prestígio entre as principais agremiações cariocas. O Fluminense possuía um estádio nas Laranjeiras desde 1919, construído em um contexto de valorização do futebol como espetáculo e de afirmação institucional dos clubes. São Januário, entretanto, representava uma experiência distinta: sua construção estava diretamente associada à mobilização financeira dos vascaínos. A comparação entre os dois estádios tornou-se parte das disputas simbólicas entre as torcidas. Enquanto as Laranjeiras representavam a tradição e o prestígio acumulado pelo Fluminense, São Januário expressava a capacidade de organização e a força crescente do Vasco. Essa oposição não deve ser reduzida a uma divisão absoluta entre clubes ricos e clubes populares, mas permite observar diferentes formas de acumulação de prestígio no futebol carioca. No caso vascaíno, a construção do estádio converteu a participação coletiva em um elemento central da identidade clubística. A importância de São Januário também se manifestou na utilização do espaço para partidas da seleção brasileira. Entre 1927 e 1930, a seleção disputou jogos não oficiais nas Laranjeiras, enquanto São Januário somente recebeu partidas da equipe nacional após a Copa do Mundo de 1930, em amistosos contra França, Iugoslávia e Estados Unidos. Essa diferença pode ser investigada como parte das disputas pelo controle dos principais espaços esportivos da capital. A influência política dos dirigentes, as relações entre as entidades esportivas e os interesses dos clubes constituíam elementos relevantes na escolha dos locais das partidas. Para o Vasco, receber a seleção brasileira significava ampliar a legitimidade de seu estádio e reforçar sua posição no cenário nacional. A questão não era apenas saber qual clube possuía a maior praça esportiva, mas definir quais instituições seriam reconhecidas como representantes privilegiadas do futebol brasileiro. São Januário oferecia ao Vasco um instrumento de afirmação pública, enquanto a presença da seleção em seu gramado contribuía para consolidar essa posição. 8. São Januário como espaço cívico e político A importância de São Januário ultrapassou as fronteiras do futebol. Durante as décadas de 1930 e 1940, o estádio foi utilizado para cerimônias cívicas, manifestações públicas e eventos políticos, tornando-se um dos espaços de concentração de grandes públicos no Rio de Janeiro. Durante o governo de Getúlio Vargas, especialmente no Estado Novo (1937–1945), o estádio foi incorporado ao conjunto de espaços utilizados para a promoção de cerimônias oficiais e para a divulgação de valores associados à nação, ao trabalho e à educação física. A utilização política de estádios de futebol deve ser compreendida no contexto das estratégias de mobilização de massas desenvolvidas pelo Estado. Grandes eventos, comemorações nacionais e discursos públicos procuravam produzir imagens de unidade social e identificação com o regime. Maurício Parada analisa a importância desse calendário cívico para a construção de uma representação coletiva da nação: “A criação de um calendário cívico, com ciclos de comemorações e festas, teve um papel importante na construção de uma nova imagem da nação. As cerimônias cívicas, com sua intensa carga dramática, teriam um papel importante no sentido de produzir unidade, dando uma aura de sacralidade à imagem da nação” (PARADA, 2006a, p. 56). São Januário foi um dos palcos dessa política de representação. As cerimônias realizadas no estádio demonstravam que o futebol já havia adquirido importância suficiente para servir de suporte a iniciativas que buscavam atingir públicos numerosos e socialmente diversos. A presença de Vargas e a utilização do estádio para eventos relacionados ao mundo do trabalho revelam a aproximação entre esporte, nacionalismo e política. Em 1º de maio de 1943, por exemplo, o discurso presidencial em São Januário ocorreu no contexto da promulgação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), instituída pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio daquele ano. O trabalhismo varguista procurava associar a valorização do trabalhador à construção da nacionalidade. A figura do trabalhador era apresentada como parte fundamental da comunidade nacional, enquanto o Estado reivindicava para si o papel de mediador das relações sociais. Essa aproximação entre futebol e política, entretanto, não deve ser interpretada apenas como demonstração de adesão ao governo. A utilização de São Januário por diferentes atores políticos evidencia que os estádios eram espaços de disputa, cuja importância pública podia ser apropriada por projetos ideológicos distintos. 9. A Segunda Guerra Mundial e as funções sociais do estádio A Segunda Guerra Mundial ampliou as possibilidades de utilização dos espaços esportivos para atividades de caráter cívico e assistencial. São Januário foi utilizado em iniciativas relacionadas à mobilização patriótica e à preparação militar, incluindo atividades da Cruz Vermelha e da Escola de Instrução Militar nº 307. O Jornal dos Sports, em 14 de outubro de 1942, registrou uma dessas atividades sob a manchete “Viveu o Estádio do Vasco soberba manhã de civismo”. A iniciativa demonstra como a infraestrutura esportiva podia ser mobilizada para ações que extrapolavam as competições e envolviam diferentes segmentos da sociedade. Essas atividades estavam relacionadas à valorização da educação física, à disciplina corporal e à associação entre esporte e civismo, aspectos importantes das políticas públicas do período. Conforme analisa Parada (2006b), o Estado Novo procurou integrar as práticas esportivas e a educação física a um projeto de formação de corpos considerados aptos à vida nacional. São Januário reunia condições para essas iniciativas em virtude de suas dimensões e de sua capacidade de receber grandes contingentes. A utilização do estádio reforçava sua posição como espaço público de referência na cidade, embora permanecesse vinculado a uma instituição privada. A história dessas atividades revela a pluralidade das funções assumidas pelo estádio. São Januário era simultaneamente praça esportiva, patrimônio do clube, lugar de encontro dos torcedores e cenário de iniciativas promovidas por autoridades públicas. Essa pluralidade ajuda a compreender a centralidade do estádio na história social do Rio de Janeiro. Sua importância não se limitava aos resultados das partidas, mas abrangia as relações entre esporte, educação, política e vida urbana. 10. São Januário e a manifestação comunista de 1945 Um dos episódios mais expressivos da história política de São Januário ocorreu em 23 de maio de 1945, quando Luís Carlos Prestes, após deixar a prisão em decorrência da anistia decretada por Vargas, participou de um grande comício no estádio. O acontecimento é particularmente significativo porque demonstra que São Januário, frequentemente associado às cerimônias oficiais do Estado Novo, também podia acolher manifestações de oposição e mobilização política. A utilização do estádio para o comício de Prestes evidencia a complexidade dos vínculos entre o Vasco, seus dirigentes e os diferentes projetos políticos que disputavam espaço na sociedade brasileira. O comício ocorreu em um contexto de enfraquecimento da ditadura e de intensificação das demandas por redemocratização. A mobilização popular em torno de Prestes e do Partido Comunista Brasileiro fazia parte de um cenário no qual as ruas e os grandes espaços públicos se tornavam arenas de disputa política. A cessão do estádio provocou conflitos no interior do clube. O presidente Antônio Augusto de Castro Filho deixou o cargo após protestos de associados e dirigentes contrários à realização do evento, em um ambiente marcado pelo anticomunismo de diferentes setores da sociedade. O episódio revela que o estádio não possuía um significado político único. O mesmo espaço utilizado pelo governo para promover cerimônias cívicas podia receber uma manifestação de oposição ao regime e contribuir para a mobilização de forças políticas emergentes. Essa dimensão merece destaque na história do Vasco. A trajetória de São Januário não pode ser resumida à sua utilização pelo Estado Novo, tampouco a posição política de seus dirigentes deve ser confundida automaticamente com as diversas apropriações do estádio ao longo do tempo. Ao acolher o comício de Prestes, São Januário tornou-se cenário de uma das grandes manifestações políticas da transição democrática de 1945. Sua história revela, assim, a complexidade das relações entre instituições esportivas, poder público e participação popular. 11. A rivalidade entre Vasco e Flamengo e a disputa pela popularidade Em 1944 e 1945, a rivalidade entre Vasco e Flamengo ganhou intensidade renovada. O confronto envolvia não apenas os resultados esportivos, mas também a disputa pela preferência dos torcedores cariocas e pela projeção nacional dos clubes. O Vasco havia alcançado grande popularidade na década de 1920. Em Histórias do Flamengo, Mário Filho reconheceu a dimensão dessa presença, registrando o crescimento da torcida vascaína e sua importância econômica para o clube. A disputa pela popularidade, contudo, permaneceu aberta nas décadas seguintes, sendo influenciada pelas conquistas esportivas, pela imprensa e pela expansão das transmissões radiofônicas. Em 1945, a campanha vascaína despertou grande expectativa. A equipe conquistou o Campeonato Carioca de maneira invicta, consolidando o prestígio do clube e preparando o terreno para a projeção do time que ficaria conhecido como Expresso da Vitória. Na véspera de um dos confrontos daquele campeonato, Mário Filho chamou a atenção para a crescente importância das torcidas: “a torcida de cada candidato vem desempenhando um papel importante. Há o ‘Avante Flamengo!’ e o ‘Com o Vasco onde estiver o Vasco’, cartazes e bandeiras desfraldadas. O estádio se divide em grupos de torcedores que se empenham em duelos. O que era raro num match, tornou-se comum, o obrigatório. Trava-se também entre as torcidas” (Jornal dos Sports, 14 de setembro de 1945, p. 2). A observação evidencia que a disputa entre os clubes havia se ampliado para além do campo. Bandeiras, cartazes, palavras de ordem e manifestações coletivas constituíam elementos de uma competição simbólica na qual os torcedores procuravam demonstrar a força de suas comunidades clubísticas. Essa dimensão pública da rivalidade contribuiu para o desenvolvimento de formas mais organizadas de participação nas arquibancadas. A torcida passava a ser reconhecida como parte constitutiva do espetáculo, com lideranças, símbolos e práticas próprias. Entretanto, a intensificação das rivalidades também podia resultar em conflitos violentos. O último confronto entre Vasco e Flamengo em 1945, disputado na Gávea, foi marcado por episódios graves nas arquibancadas. O jornal paulista A Gazeta Esportiva, em 24 de novembro de 1945, relatou: “repentinamente, um tremendo sururu rebentou nas gerais, onde estavam localizadas as torcidas do Flamengo e do Vasco. Algo de inenarrável tivemos ensejo de presenciar por essa ocasião, pois, aproximadamente, perto de 10.000 pessoas trocavam pancadarias, tijoladas, cassetadas e outras coisas mais ...... Um espetáculo deprimente! Nunca vimos coisa igual em nossa vida” (apud SILVA, 1999, p. 175). O relato permite dimensionar a violência que podia acompanhar os grandes confrontos entre torcidas. Também evidencia a importância da crítica documental: a cobertura jornalística nem sempre registrava os acontecimentos de maneira completa, e a comparação entre periódicos de diferentes cidades pode revelar aspectos omitidos ou minimizados por determinadas narrativas. A história das torcidas exige, portanto, atenção simultânea às manifestações de solidariedade, à construção de identidades coletivas e aos conflitos produzidos pela rivalidade. A mobilização popular que conferiu força social ao futebol também criou desafios relacionados à convivência entre grupos adversários. 12. A passeata de 1945 e a ocupação das ruas A conquista invicta do Campeonato Carioca de 1945 foi celebrada pela torcida vascaína com uma grande passeata pela Avenida Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro. A manifestação extrapolou os limites do estádio e levou a identidade clubística para um dos principais espaços públicos da capital federal. O Correio da Manhã, em 24 de novembro de 1945, anunciou a organização de uma passeata que reuniria torcedores de diferentes bairros. O programa previa concentração na Praça Mauá e desfile pela Avenida Rio Branco, com ciclistas, bandas, automóveis ornamentados e carros alegóricos. Entre as atrações anunciadas estavam o “Expresso da Vitória”, a “Morte do Sapo” e a representação “O Almirante é amigo de todos”. O cortejo também previa homenagens aos desportistas brasileiros, demonstrando a articulação entre a celebração clubística e referências mais amplas à vida pública nacional. A dimensão da passeata revela que a comemoração do título havia adquirido um caráter coletivo que ultrapassava o círculo dos associados. A presença de torcedores nas ruas, em uma manifestação organizada, demonstrava a capacidade de mobilização alcançada pelo clube e a crescente visibilidade social de sua torcida. A ocupação da Avenida Rio Branco também permite relacionar a festa esportiva às formas de celebração popular que caracterizavam a vida urbana. A música, os carros alegóricos, as representações satíricas e a participação de grupos numerosos conferiam ao acontecimento uma dimensão festiva e carnavalesca. O futebol oferecia, assim, uma oportunidade de apropriação simbólica da cidade. Os torcedores não apenas comemoravam uma vitória, mas afirmavam publicamente sua presença e sua capacidade de organização. A passeata de 1945 constitui um episódio importante para a história das torcidas vascaínas porque evidencia uma modalidade de participação que combinava identidade clubística, ocupação do espaço urbano e reconhecimento coletivo. A festa transformava o resultado esportivo em acontecimento social. 13. A consolidação das torcidas uniformizadas A década de 1940 foi fundamental para a consolidação das torcidas uniformizadas no Rio de Janeiro. A organização de grupos de torcedores, a presença de lideranças reconhecidas, o uso de símbolos e a realização de manifestações públicas contribuíram para transformar a participação nas arquibancadas. O ano de 1945 constitui uma referência importante nesse processo, embora não deva ser considerado, isoladamente, o momento fundador de todas as formas de organização das torcidas cariocas. A história dessas associações é marcada por experiências anteriores, iniciativas paralelas e disputas de memória sobre suas origens. No caso vascaíno, a expansão do público e o fortalecimento da identidade coletiva favoreceram a organização de grupos capazes de coordenar manifestações e representar a torcida perante o clube, a imprensa e os adversários. Essas experiências contribuíram para a consolidação do que Arlei Sander Damo denomina clubismo, entendido como um sistema de adesão afetiva aos clubes, com a formação de comunidades de sentimento (DAMO, 2006). A torcida não deve ser compreendida apenas como uma reunião ocasional de espectadores. Ela constitui uma forma de pertencimento coletivo, construída por meio de símbolos, narrativas, memórias, rivalidades e práticas compartilhadas. As torcidas uniformizadas desempenharam papel importante nesse processo, organizando manifestações, estabelecendo lideranças e contribuindo para a continuidade das tradições clubísticas. Ao mesmo tempo, precisaram lidar com as tensões entre a intensidade da paixão esportiva e a convivência com os adversários. Com o crescimento dos estádios e a ampliação do público, a participação dos torcedores tornou-se um elemento permanente do noticiário esportivo. Os clubes passaram a depender cada vez mais da mobilização de suas comunidades, tanto para o apoio às equipes quanto para a manutenção de sua visibilidade pública. A trajetória vascaína permite observar como essa organização se relacionava à história mais ampla da popularização do futebol. A força da torcida, demonstrada desde a década de 1920 e reafirmada nas manifestações de 1945, contribuiu para consolidar o lugar do Vasco entre os clubes de maior expressão popular do país. 14. São Januário e o Campeonato Sul-Americano de 1949 O Campeonato Sul-Americano de 1949 representou outro momento importante para a história de São Januário e para a afirmação esportiva do Vasco. A competição serviu de preparação para a seleção brasileira no período que antecedeu a Copa do Mundo de 1950 e terminou com a conquista do título pelo Brasil, encerrando um intervalo de 22 anos sem vencer o torneio continental. O Vasco ocupava posição destacada no futebol brasileiro, e a presença de jogadores do clube na seleção reforçava a identificação entre as conquistas da equipe e o orgulho de sua torcida. A campanha brasileira de 1949, nesse sentido, pode ser compreendida como parte de um processo no qual a projeção nacional do futebol carioca se articulava à consolidação das identidades clubísticas. São Januário havia sido construído pela mobilização de uma comunidade que procurava afirmar sua legitimidade no futebol. Duas décadas depois, o estádio permanecia como referência da capacidade de organização dos vascaínos e como espaço de acontecimentos de importância nacional. O período anterior à construção do Maracanã, inaugurado em 1950, marcou o encerramento de uma etapa na qual São Januário ocupou posição central na realização de grandes eventos esportivos e políticos da capital federal. Sua importância, entretanto, não se limita à comparação entre estádios ou à capacidade de receber grandes públicos. A história de São Januário permite compreender as transformações sociais do futebol brasileiro a partir de um caso concreto: o de uma instituição que ampliou sua presença esportiva, mobilizou associados e torcedores, enfrentou mecanismos de exclusão e construiu um patrimônio material e simbólico de grande relevância. 15. Considerações finais A trajetória de São Januário e da torcida vascaína revela aspectos fundamentais da transformação do futebol carioca ao longo das décadas de 1920, 1930 e 1940. A conquista do campeonato de 1923, a exclusão do Vasco da AMEA em 1924, a campanha de arrecadação de recursos e a inauguração do estádio em 1927 constituem momentos de um processo no qual o clube ampliou sua presença esportiva e sua capacidade de mobilização coletiva. A construção de São Januário demonstrou que a força de uma instituição esportiva não dependia exclusivamente do prestígio de seus dirigentes ou dos recursos previamente acumulados. A participação de associados e simpatizantes permitiu realizar um empreendimento que se tornou referência para o futebol brasileiro. O estádio materializou a capacidade de organização dos vascaínos e contribuiu para fortalecer a identificação entre clube e torcida. Esse processo esteve relacionado às disputas sociais que atravessavam o futebol. O racismo, o elitismo e a xenofobia constituíram dimensões importantes da resistência à ascensão vascaína, embora a composição da torcida e as razões de sua popularidade não possam ser reduzidas à origem portuguesa de parte de seus integrantes. A presença de negros, trabalhadores, imigrantes e outros segmentos sociais evidencia a diversidade das experiências de pertencimento que se desenvolveram em torno do clube. Ao longo dos anos, São Januário assumiu funções que ultrapassaram o espetáculo esportivo. Foi palco de cerimônias cívicas, iniciativas assistenciais, atividades de instrução militar e manifestações políticas. A realização do comício de Luís Carlos Prestes, em 1945, demonstra que o estádio podia acolher projetos políticos distintos daqueles associados às cerimônias oficiais do Estado Novo. A década de 1940 também marcou a consolidação de novas formas de organização das torcidas. As manifestações coletivas, as lideranças reconhecidas e a ocupação das ruas revelaram que o torcedor havia se tornado um personagem indispensável à vida pública do futebol. A passeata vascaína de 1945 constitui um exemplo expressivo dessa transformação, ao converter a comemoração de um título em manifestação coletiva de identidade e pertencimento. São Januário deve ser compreendido, portanto, como um espaço de memória no qual se entrelaçam esporte, sociedade, política e cultura popular. Sua história registra tanto as conquistas do Vasco quanto as disputas em torno da legitimidade dos diferentes grupos sociais no futebol brasileiro. Mais do que um estádio, São Januário tornou-se uma expressão duradoura da capacidade de mobilização de uma torcida que encontrou no clube um importante espaço de identificação coletiva. A história de sua construção e de seus usos demonstra que o futebol não foi apenas reflexo das transformações da sociedade brasileira: também constituiu um terreno no qual essas transformações foram vividas, disputadas e representadas. A conquista de 1949, com a seleção brasileira campeã sul-americana e o Vasco em posição de destaque no cenário esportivo, encerra simbolicamente esse percurso. A história de São Januário e da torcida vascaína evidencia que a afirmação de uma identidade clubística pode ultrapassar as fronteiras de uma comunidade particular e participar da construção de representações mais amplas sobre o esporte e a nacionalidade brasileira.

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Jorge Medeiros: pesquisador da história social do futebol e da memória vascaína

Jorge Medeiros, também identificado academicamente como Jorge Luiz Medeiros Braga, é pesquisador da história social do futebol, com trajetória dedicada ao estudo das torcidas cariocas e, particularmente, à preservação e divulgação da memória do Club de Regatas Vasco da Gama. Sua formação como pesquisador começou no final dos anos 1980, com a participação na criação do Núcleo de Sociologia do Futebol da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), ao lado do sociólogo Maurício Murad. Essa experiência esteve ligada ao desenvolvimento de uma perspectiva que compreende o futebol não apenas como espetáculo esportivo, mas como fenômeno social, cultural e histórico, capaz de revelar formas de sociabilidade, identidade e participação popular. Em 1991, apresentou a monografia de graduação em Ciências Sociais intitulada As torcidas organizadas de futebol no Rio de Janeiro, resultado de uma investigação sobre a formação e a organização das torcidas cariocas. O trabalho integra uma trajetória de pesquisa que se aprofundaria nos anos seguintes, com atenção especial às transformações históricas das arquibancadas e às relações entre futebol e sociedade. Em 2010, publicou o artigo As Torcidas Uniformizadas (Organizadas) de Futebol no Rio de Janeiro nos anos 1940, na revista digital Esporte e Sociedade, vinculada à Universidade Federal Fluminense (UFF), no número 14, volume 5. O estudo retoma um período importante para compreender a história das torcidas e suas formas de organização, contribuindo para o conhecimento das experiências coletivas que ajudaram a constituir a cultura do futebol carioca. Sua trajetória acadêmica inclui também pesquisa de mestrado dedicada às torcidas cariocas na década de 1940, pela Universidade Salgado de Oliveira (Universo). Esse percurso consolidou seu interesse pela história das arquibancadas, tema que posteriormente passou a ocupar lugar central em suas investigações sobre o Vasco. A pesquisa e a memória do Vasco A relação de Jorge Medeiros com a história vascaína se desenvolve a partir de uma preocupação fundamental: recuperar a participação dos torcedores e de personagens frequentemente pouco conhecidos nas narrativas tradicionais do futebol. Nesse sentido, sua atuação inclui a participação em iniciativas do Centro de Memória do Vasco, com destaque para a aproximação entre pesquisadores interessados na documentação e na interpretação da história do clube. A promoção de encontros e o intercâmbio de informações e fontes integram esse esforço de construção coletiva da memória vascaína. Outra iniciativa importante foi sua participação no projeto 100 Anos da Torcida Vascaína, divulgado pelo site Torcidas do Vasco em 2016, quando o clube completou 118 anos. Apresentado como um trabalho de Jorge Medeiros baseado nas pesquisas de Flávio Barreto, o projeto propôs recuperar diferentes momentos da história da torcida, percorrendo sua trajetória desde as primeiras décadas do século XX até os tempos contemporâneos. A proposta era contribuir para a construção de uma memória coletiva das arquibancadas, acompanhando as transformações do futebol, dos estádios e das formas de participação dos torcedores. O projeto valorizou a torcida como parte constitutiva da história do clube, reconhecendo seu papel na formação de uma identidade que ultrapassa os limites do campo esportivo. Jorge Medeiros também desenvolve atividades de pesquisa e divulgação por meio do blog Memória do Torcedor Vascaíno, disponível em memoriadotorcedor.blogspot.com. O espaço integra seus esforços de recuperação e circulação de histórias, documentos e personagens ligados à trajetória do Vasco, contribuindo para aproximar o trabalho de pesquisa do público torcedor. Divulgação histórica e intercâmbio entre pesquisadores A participação em espaços de divulgação do conhecimento sobre futebol também integra sua trajetória. Jorge Medeiros colaborou com o Ludopédio, plataforma dedicada à pesquisa e à divulgação da história do esporte, participando de discussões sobre as relações entre futebol, memória e sociedade. Entre os temas abordados está a luta histórica do Vasco pela participação de negros e trabalhadores, assunto que se relaciona diretamente com as interpretações sociais da trajetória do clube e com os debates sobre sua identidade popular. Essa temática esteve presente no artigo Fatos históricos da luta do Vasco por negros e operários, publicado no Ludopédio, e também na Live do Casaca nº 1092, dedicada ao mesmo assunto. O debate reuniu Sérgio Frias, Leandro Fontes, Jorge Medeiros, Valter Duarte Filho e Rômulo Mattos, promovendo a discussão pública de fontes e interpretações sobre a história vascaína. Medeiros também mantém diálogo e colaboração com outros pesquisadores, entre eles Leandro Fontes, autor de Vasco, o Clube do Povo. Essas interlocuções contribuem para ampliar o debate sobre as diferentes dimensões da história do clube e para estimular a circulação de pesquisas entre estudiosos e torcedores. Sua atuação combina, assim, a investigação documental, a participação em debates e a divulgação de conhecimento histórico em diferentes plataformas, incluindo sites, blogs e transmissões audiovisuais. Uma história construída também pelos torcedores Um dos eixos de suas pesquisas é a compreensão da torcida como espaço de sociabilidade, pertencimento e construção de identidades. Essa perspectiva permite investigar a presença de trabalhadores, negros, mulheres, imigrantes e moradores de diferentes regiões do Rio de Janeiro na vida do Vasco e na formação de sua comunidade de torcedores. A utilização de jornais antigos, fotografias, documentos institucionais, depoimentos e acervos digitais é parte fundamental desse trabalho. Fontes como o Acervo Digital do Vasco e a Hemeroteca Digital Brasileira permitem recuperar trajetórias individuais e coletivas, confrontar versões históricas e trazer à luz personagens que permaneceram à margem das narrativas mais conhecidas. Mais do que reconstruir resultados esportivos e campanhas vitoriosas, Jorge Medeiros procura compreender as pessoas que fizeram a história do clube: torcedores anônimos, antigos líderes de arquibancada, dirigentes, jogadores, mulheres ligadas à vida associativa e outros personagens que contribuíram para a formação da identidade vascaína. Sua trajetória estabelece uma ligação entre as Ciências Sociais e a memória esportiva, entre a pesquisa acadêmica e a divulgação histórica. A preocupação central é mostrar que a história do Vasco não pode ser compreendida apenas por seus títulos ou por seus dirigentes mais conhecidos, mas também pelas experiências sociais e pelas formas de participação de sua torcida. Depois de mais de três décadas de pesquisas sobre o futebol e suas torcidas, Jorge Medeiros segue contribuindo para a preservação e a divulgação da memória vascaína, defendendo a importância de documentar e reconhecer aqueles que construíram cotidianamente a história do clube. Para o pesquisador, preservar a memória do Vasco significa também preservar a história de seus torcedores, de suas formas de organização e das relações sociais que fizeram do clube uma referência para diferentes gerações. Principais trabalhos e atividades Pesquisa acadêmica BRAGA, Jorge Luiz Medeiros. As torcidas organizadas de futebol no Rio de Janeiro. Monografia de graduação em Ciências Sociais, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), 1991. BRAGA, Jorge Luiz Medeiros. As Torcidas Uniformizadas (Organizadas) de Futebol no Rio de Janeiro nos anos 1940. Revista Esporte e Sociedade, n. 14, v. 5, 2010. Pesquisa e divulgação da memória vascaína 100 Anos da Torcida Vascaína — projeto divulgado pelo site Torcidas do Vasco em 2016, com texto de Jorge Medeiros baseado nas pesquisas de Flávio Barreto. Fatos históricos da luta do Vasco por negros e operários — artigo publicado no Ludopédio e tema de debate na Live do Casaca nº 1092. Memória do Torcedor Vascaíno — blog dedicado à recuperação e divulgação da história do Vasco. Participação em atividades do Centro de Memória do Vasco e em iniciativas de intercâmbio entre pesquisadores. Participação em debates sobre a história vascaína com Sérgio Frias, Leandro Fontes e outros pesquisadores.

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A FORÇA JOVEM DO VASCO: JUVENTUDE, ORGANIZAÇÃO E TRANSFORMAÇÃO DA CULTURA DAS ARQUIBANCADAS

Este artigo analisa a trajetória da Força Jovem do Vasco (FJV), uma das principais torcidas organizadas do Club de Regatas Vasco da Gama, procurando situá-la no processo de transformação das formas de participação dos torcedores no futebol brasileiro a partir do final da década de 1960. Fundada oficialmente em 19 de fevereiro de 1970, no bairro do Méier, no Rio de Janeiro, a Força Jovem surgiu em um momento marcado pela emergência de novas formas de organização juvenil nas arquibancadas dos grandes estádios. Sua formação deve ser compreendida em diálogo com a tradição das antigas torcidas uniformizadas, particularmente a Torcida Organizada do Vasco (TOV), fundada em 1944, e com a experiência dos Leões Vascaínos. Ao longo das décadas seguintes, a FJV desenvolveu mecanismos próprios de organização territorial, comunicação, identidade visual e mobilização coletiva, alcançando projeção nacional. A criação das chamadas “Famílias”, especialmente a partir da gestão de Roberto Monteiro, constituiu uma importante inovação organizacional, permitindo a expansão da torcida para diferentes bairros, municípios, estados e posteriormente outros países. O artigo procura, ainda, compreender as tensões entre autonomia, participação política, pertencimento clubístico, sociabilidade juvenil e os conflitos que marcaram a história das torcidas organizadas brasileiras. Palavras-chave: Vasco da Gama; Força Jovem; torcidas organizadas; futebol; juventude; arquibancadas; identidade social. 1. Introdução A história do futebol brasileiro não pode ser compreendida exclusivamente a partir dos clubes, dos jogadores, dos dirigentes e das competições. As arquibancadas constituem igualmente um espaço privilegiado de produção de identidades, sociabilidades, conflitos e formas de participação coletiva. No caso do Club de Regatas Vasco da Gama, essa dimensão possui uma história particularmente rica. Desde as primeiras décadas do século XX, diferentes grupos de torcedores contribuíram para a construção de uma cultura vascaína própria. As experiências das primeiras torcidas uniformizadas, dos grupos populares que frequentavam as arquibancadas e, posteriormente, das torcidas organizadas constituem capítulos fundamentais dessa história. A Torcida Organizada do Vasco (TOV), criada em 1944, ocupa lugar central nesse processo. Lideranças como João de Lucca, Dulce Rosalina, Aida de Almeida, Olympio Pio e outros personagens ajudaram a estabelecer uma tradição de organização coletiva dos torcedores vascaínos. Entretanto, a partir do final da década de 1960, esse modelo começou a ser transformado pela emergência de novas organizações juvenis. É nesse contexto que surge a Força Jovem do Vasco. Mais do que uma simples substituição geracional, o aparecimento da FJV deve ser entendido como parte de uma transformação da própria cultura das arquibancadas. No Rio de Janeiro, o final dos anos 1960 assistiu ao aparecimento de novas torcidas, entre elas a Torcida Jovem do Flamengo, a Torcida Jovem do Botafogo, a Força Jovem do Vasco e a Young Flu. Essas organizações apresentavam características diferentes das antigas torcidas uniformizadas. A juventude, a autonomia diante das direções dos clubes, a valorização da identidade própria, a ocupação territorial e a capacidade de mobilização passaram a constituir elementos fundamentais desse novo modelo. No caso vascaíno, essa transformação ocorreu em diálogo e também em tensão com as organizações que já existiam no clube. 2. Da TOV às novas torcidas organizadas A criação da Força Jovem não pode ser analisada como se a história da torcida vascaína começasse em 1970. Muito pelo contrário. A FJV surgiu depois de aproximadamente três décadas de experiências coletivas dos torcedores do Vasco. A TOV havia estabelecido, desde 1944, uma forma organizada de presença nas arquibancadas. Durante os anos seguintes, a torcida vascaína desenvolveu símbolos, cânticos, faixas, instrumentos musicais, lideranças e formas de relacionamento com jogadores e dirigentes. João de Lucca, Dulce Rosalina e outras lideranças da TOV representam uma geração de torcedores que transformou a presença nas arquibancadas em uma atividade organizada e permanente. A Força Jovem pertence a outra conjuntura. A década de 1960 foi marcada por profundas transformações sociais e culturais. A juventude passou a ocupar posição de destaque em diferentes movimentos sociais, culturais e políticos. No futebol, esse processo também encontrou expressão nas arquibancadas. Bernardo Buarque de Hollanda observa que as novas torcidas jovens surgidas no período representaram uma ruptura importante com os modelos anteriores de organização torcedora. No caso vascaíno, a Força Jovem surgiu em meio a esse processo de renovação. É importante, portanto, evitar uma interpretação simplista segundo a qual a FJV seria simplesmente uma “nova TOV”. Tratava-se de uma organização constituída dentro de uma nova cultura juvenil das arquibancadas. 3. O nascimento da Força Jovem Segundo a memória institucional da própria torcida, a Força Jovem começou a ser articulada em 1969 e foi oficialmente fundada em 19 de fevereiro de 1970, no bairro do Méier, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Sua primeira sede funcionou no porão de um casarão localizado na Rua Cônego Tobias, nº 80, pertencente ao médico vascaíno Guilherme Lopes de Almeida. O depoimento de Manoel Santos da Cunha, conhecido como Manoel Fogueteiro, é particularmente importante para compreender esse momento fundador. Segundo seu relato, um pequeno grupo de jovens começou a discutir a criação da torcida ainda em 1969. Entre os participantes estavam Fernando, Guilherminho e outros jovens ligados à família proprietária do casarão. A memória de Manoel também revela uma dimensão frequentemente esquecida na história das grandes torcidas: a necessidade de recursos materiais. Era preciso comprar instrumentos, confeccionar camisas e organizar as primeiras apresentações. Manoel relata que, por ser o único trabalhador entre os integrantes daquele núcleo inicial, utilizou um crediário para adquirir quatro taróis e dois bumbos, além de providenciar a confecção das primeiras camisas. Esse depoimento permite observar que a torcida não nasceu pronta. Foi construída por meio do trabalho cotidiano de seus integrantes. A estreia ocorreu em 19 de fevereiro de 1970, durante o Torneio Facit, competição internacional de verão que reuniu Vasco, Flamengo, seleção da Romênia e Independiente da Argentina. A primeira fase da Força Jovem foi, portanto, marcada pela improvisação, pelo trabalho voluntário e pela capacidade de mobilização de um pequeno grupo de jovens torcedores. 4. Força Jovem e a questão da autonomia Um dos aspectos mais interessantes da documentação sobre os primeiros anos da FJV diz respeito à maneira como seus integrantes compreendiam a relação entre torcida e clube. A tese de Bernardo Buarque de Hollanda recupera uma manifestação de Manoel Santos da Cunha publicada no Jornal dos Sports em abril de 1970. Em resposta às provocações dos Leões Vascaínos, o fundador da Força Jovem defendia o direito da torcida de criticar os erros da administração vascaína justamente por ser uma organização independente. Essa posição é sociologicamente significativa. O torcedor deixava de ser concebido exclusivamente como alguém que deveria apoiar incondicionalmente a direção do clube. A paixão pelo Vasco poderia, ao mesmo tempo, legitimar uma postura crítica diante dos dirigentes. Surge, assim, uma concepção de torcedor como sujeito coletivo. A fórmula “torcida independente” expressava uma reivindicação de autonomia. A organização pretendia falar em nome de seus integrantes e participar das discussões relativas aos rumos do clube sem necessariamente estar subordinada à direção administrativa. Essa característica diferencia a nova geração das formas mais tradicionais de relacionamento entre dirigentes e torcedores. 5. O Méier e a geografia social da torcida A localização da primeira sede no Méier não deve ser considerada um detalhe meramente circunstancial. O bairro constituía um importante espaço de sociabilidade da Zona Norte carioca e possuía forte presença de camadas populares e setores das classes trabalhadoras. A primeira organização territorial da FJV nasceu, portanto, vinculada a uma determinada experiência urbana. A primeira faixa confeccionada pela torcida trazia justamente a inscrição: “Vasco, o Méier te saúda.” A faixa foi colocada atrás de um dos gols do Maracanã. Posteriormente, outra faixa passou a apresentar simplesmente o nome da organização: Força Jovem. A relação entre território e torcida seria posteriormente radicalizada. A história da FJV demonstra que a organização dos torcedores ultrapassou progressivamente os limites do bairro de origem. O que começou no Méier transformou-se em uma estrutura espalhada por diferentes bairros do Rio de Janeiro, municípios do estado, outras regiões do Brasil e, posteriormente, outros países. Essa expansão territorial constitui uma das características mais importantes da trajetória da torcida. 6. Ely Mendes e a consolidação da Força Jovem Depois da fase inicial, a FJV passou a ser liderada por Ely Mendes, que permaneceu na presidência durante um longo período, de 1971 a 1989, segundo a memória institucional da torcida. Sua longa permanência contribuiu para a consolidação da organização. É importante destacar que a trajetória de Ely Mendes antecede a imagem posteriormente construída da Força Jovem como uma das maiores e mais poderosas torcidas organizadas do país. Durante os anos 1970, a TOV ainda possuía enorme importância no universo vascaíno. Bernardo Buarque de Hollanda observa que a FJV somente ultrapassaria a TOV em importância e capacidade de mobilização em meados dos anos 1980. Essa informação é importante para evitar uma reconstrução retrospectiva da história. A FJV não nasceu imediatamente como a principal torcida do Vasco. Sua hegemonia foi construída ao longo de aproximadamente duas décadas. 7. A década de 1980 e a mudança da escala de mobilização A década de 1980 representa um momento decisivo. A Força Jovem passou a ampliar significativamente sua capacidade de mobilização, acompanhando também um período de grande crescimento da torcida vascaína. Um episódio simbólico ocorreu em 1980, quando mais de cem mil pessoas acompanharam no Maracanã o retorno de Roberto Dinamite ao Vasco, após sua passagem pelo Barcelona. A torcida organizada passou a desempenhar um papel cada vez mais importante na produção do espetáculo das arquibancadas. Bandeiras, faixas, instrumentos musicais, fogos, deslocamentos coletivos e cânticos passaram a integrar uma estética própria. Nesse processo, a FJV aproximou-se de outras torcidas jovens que surgiram no Rio de Janeiro a partir do final dos anos 1960. A arquibancada tornou-se um espaço de competição não apenas entre clubes, mas também entre as próprias torcidas organizadas. 8. Roberto Monteiro e a criação das “Famílias” Uma das principais transformações organizacionais da FJV ocorreu durante a presidência de Roberto Monteiro, iniciada em 1989. Monteiro ingressara na torcida ainda adolescente, em 1985, aos 14 anos. Em 1989, aos 18 anos, assumiu a presidência. Em entrevista posteriormente reproduzida pelo site da própria torcida, explicou que a criação das “Famílias” tinha como objetivo organizar os torcedores por bairros e cidades e fortalecer vínculos de proximidade, companheirismo e amizade. A palavra “família” é particularmente significativa. Ela substituía uma concepção exclusivamente administrativa por uma linguagem baseada no parentesco simbólico. A torcida passava a ser apresentada como uma comunidade. A organização por bairros permitia transformar relações locais em uma estrutura maior. Um torcedor do Méier, de Madureira, da Baixada Fluminense ou de outro estado poderia integrar uma mesma rede simbólica. A FJV passou, dessa maneira, a constituir uma espécie de federação territorial da identidade vascaína. A própria estrutura institucional da torcida registra dezenas de Famílias distribuídas pelo Rio de Janeiro, outros estados brasileiros e países como Portugal, Espanha, Estados Unidos, Itália, Inglaterra, Canadá e Japão. Mais importante do que o número absoluto — que varia conforme o período e a fonte — é observar a lógica organizacional criada. A torcida tornou-se territorialmente capilarizada. 9. Identidade, símbolos e cultura juvenil A FJV também produziu uma estética própria. A utilização do personagem Eddie, associado à banda britânica de heavy metal Iron Maiden, e a adoção de uma tipografia de inspiração gótica constituíram elementos da identidade visual desenvolvida especialmente a partir dos anos 1990. Essa apropriação é reveladora da influência da cultura juvenil internacional sobre as torcidas brasileiras. A identidade do torcedor já não se construía exclusivamente a partir de símbolos tradicionais do clube. Música, moda, linguagem visual, grafite, bandeiras, camisetas e outros elementos da cultura jovem passaram a integrar a experiência das arquibancadas. O Vasco permanecia como núcleo da identidade, mas a maneira de expressar esse pertencimento havia se transformado. O lema “Vasco por amor, Força Jovem por ideal”, adotado no final dos anos 1980, sintetiza essa diferenciação entre o clube e a organização torcedora. O Vasco aparece como objeto do amor; a Força Jovem, como espaço de identificação e ideal coletivo. 10. A Força Jovem e a política A relação entre futebol e política constitui uma dimensão importante para compreender as torcidas jovens surgidas durante a ditadura militar. Não se trata de afirmar que todas as torcidas fossem organizações políticas no sentido tradicional. A questão é compreender como a experiência juvenil de autonomia, contestação e organização coletiva dialogava com o ambiente social brasileiro. No caso da FJV, Bernardo Buarque de Hollanda destaca sua crescente politização e registra o apoio da torcida a Luiz Inácio Lula da Silva desde a campanha presidencial de 1989. Essa dimensão merece investigação mais aprofundada, sobretudo por meio dos jornais e dos depoimentos dos próprios torcedores. A torcida organizada não deve ser reduzida, portanto, à categoria da violência. Ela também foi espaço de formação de redes sociais, construção de amizades, participação política, circulação de informações e produção de identidades coletivas. 11. A questão da violência A história das torcidas organizadas brasileiras também é inseparável dos conflitos e episódios de violência que marcaram as décadas de 1970, 1980 e 1990. A FJV participou desse processo geral de transformação das relações entre torcedores rivais. A partir da expansão territorial das torcidas, as disputas deixaram de ocorrer exclusivamente dentro dos estádios. Como observa Bernardo Buarque de Hollanda, as chamadas Famílias, Pelotões, Comandos e estruturas semelhantes constituíram subpoderes geográficos locais que ampliaram a capacidade de organização das torcidas para além dos estádios. Essa característica possui uma dupla dimensão. Por um lado, permitiu a construção de redes de solidariedade e sociabilidade. Por outro, também criou condições para a reprodução de conflitos em diferentes territórios. Uma análise histórica da FJV precisa reconhecer essas duas dimensões sem reduzir uma à outra. A violência é parte da história das torcidas organizadas, mas não esgota sua história. 12. Força Jovem e a memória social do Vasco A trajetória da FJV também precisa ser situada dentro de uma história mais longa da torcida vascaína. Antes dela, existiram grupos como os Supimpas, a Lasca o Pau, a TOV, os grupos ligados a João de Lucca, Dulce Rosalina e outras lideranças. Essa continuidade permite perceber que a cultura das arquibancadas vascaínas não surgiu nos anos 1970. A novidade da Força Jovem foi reorganizar essa tradição dentro de uma nova conjuntura social. Se a TOV representava uma forma pioneira de torcida organizada baseada na experiência das décadas de 1940 e 1950, a FJV expressou a cultura juvenil das décadas de 1970, 1980 e 1990. Essa passagem não deve ser interpretada como simples substituição. Durante muitos anos, diferentes gerações conviveram. A memória da TOV permaneceu presente, ao mesmo tempo em que a FJV ampliava sua presença. Por isso, a história das torcidas vascaínas pode ser compreendida como uma sucessão de camadas de experiências coletivas, e não como uma linha evolutiva simples. 13. Uma instituição da cultura popular vascaína A história da Força Jovem permite também retomar uma questão central da história social do Vasco: a diversidade social de sua torcida. A FJV foi construída fundamentalmente nas arquibancadas e nos bairros. Sua estrutura territorial evidencia a capacidade de articulação de torcedores provenientes de diferentes regiões da cidade e do país. A organização por Famílias, nesse sentido, pode ser interpretada como uma expressão da própria capilaridade social do Vasco. Essa dimensão é especialmente importante para uma historiografia que muitas vezes privilegiou dirigentes, presidentes e grandes jogadores. As torcidas constituem outra dimensão da história do clube. São elas que transformam o jogo em espetáculo coletivo. São elas que produzem cânticos, símbolos, bandeiras e rituais. São elas que constroem memórias. A Força Jovem é, portanto, um objeto privilegiado para estudar a formação de uma cultura popular vascaína contemporânea. 14. Considerações finais A história da Força Jovem do Vasco é parte fundamental da história social do Club de Regatas Vasco da Gama. Fundada oficialmente em 19 de fevereiro de 1970, no Méier, a torcida surgiu em um momento de profundas transformações sociais e culturais. Sua emergência acompanhou o aparecimento de novas organizações juvenis nas arquibancadas brasileiras e representou uma mudança significativa nas formas de participação dos torcedores. A experiência inicial de Manoel Fogueteiro, Fernando, Guilherminho e outros jovens demonstra que a organização nasceu de uma iniciativa coletiva, marcada por dificuldades materiais e pelo esforço voluntário de seus integrantes. A longa liderança de Ely Mendes consolidou a instituição durante os anos 1970 e parte dos anos 1980. Posteriormente, a geração de Roberto Monteiro promoveu novas formas de organização territorial, especialmente por meio das Famílias. A transformação da Força Jovem em uma organização nacional e internacional demonstra a capacidade das torcidas de construir redes que ultrapassam os limites físicos do estádio. Sua história, entretanto, é marcada por contradições. A autonomia diante dos dirigentes conviveu com disputas internas e relações complexas com o poder clubístico. A solidariedade e a amizade convivem historicamente com conflitos entre torcidas. A participação política convive com diferentes concepções ideológicas entre seus integrantes. É justamente essa complexidade que torna a Força Jovem um objeto relevante para as Ciências Sociais. Mais do que perguntar se uma torcida é “boa” ou “violenta”, interessa compreender como ela se organiza, como produz identidade, como constrói relações de pertencimento e como participa da vida social de um clube e de uma cidade. Nesse sentido, a história da Força Jovem permite compreender uma transformação mais ampla do futebol brasileiro: a passagem da figura do torcedor individual ou do simples integrante de uma torcida uniformizada para a constituição de organizações coletivas dotadas de identidade, território, memória, símbolos e estruturas próprias de poder. A Força Jovem não rompeu com a história anterior das arquibancadas vascaínas. Ela incorporou essa tradição e, simultaneamente, a transformou. Sua história deve, portanto, ser compreendida como um dos capítulos da longa construção social da identidade vascaína. Referências preliminares HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. O clube como vontade e representação: o jornalismo esportivo e a formação das torcidas organizadas de futebol do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008. HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. Entrevista sobre a Força Jovem do Vasco e as torcidas organizadas. UOL Esporte, 11 dez. 2013. MEDEIROS, Jorge. “Breve histórico das torcidas organizadas vascaínas”. Trabalho elaborado com colaboração de Alexandre Mesquita, publicado pela NETVASCO por ocasião dos 40 anos da Força Jovem. 2010. MEDEIROS, Jorge. “Força Jovem 1970: depoimento de Manoel Fogueteiro, fundador da Força Jovem”. Torcidas do Vasco, 27 ago. 2022. JORNAL DOS SPORTS. Rio de Janeiro. Diversas edições. ACERVO DIGITAL DO VASCO. Documentos, jornais, fotografias e registros institucionais do Club de Regatas Vasco da Gama. FORÇA JOVEM DO VASCO. “História da torcida”. Portal oficial da Força Jovem do Vasco. FORÇA JOVEM VASCO. “História FJV”. Arquivo histórico da torcida. ARAÚJO, [autor]. “Entre a pista e a arquibancada”. Esporte e Sociedade, ano 14, n. 34, dez. 2021.

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Antônio Rodrigues Tavares: torcida, associativismo e poder institucional na história social do Vasco da Gama

Este artigo propõe uma análise da trajetória de Antônio Rodrigues Tavares (1899-1990), dirigente do Club de Regatas Vasco da Gama e presidente da instituição no período da conquista do Campeonato Sul-Americano de Clubes Campeões de 1948. Nascido em Portugal e chegado ao Brasil em 1914, Tavares construiu uma trajetória marcada pela atividade empresarial, pelo associativismo luso-brasileiro e pela participação em instituições esportivas, culturais e cívicas do Rio de Janeiro. Sua relação com o Vasco remonta às primeiras décadas do século XX, período em que também esteve associado às antigas manifestações da torcida vascaína, entre elas a denominada Lasca o Pau. Posteriormente, tornou-se conselheiro, benemérito e presidente do clube. Em 1968, sua trajetória como torcedor foi incorporada ao livro Torcedores de ontem e de hoje, de João Antero de Carvalho, obra fundamental para a compreensão da memória das torcidas cariocas. O artigo procura demonstrar que Tavares constitui um personagem privilegiado para analisar as conexões entre cultura torcedora, associativismo, imigração portuguesa, empresariado e instituições esportivas e culturais no Rio de Janeiro do século XX. Palavras-chave: Vasco da Gama; Antônio Rodrigues Tavares; torcidas; associativismo; imigração portuguesa; história social do futebol. 1. Introdução A história dos clubes de futebol brasileiros costuma ser narrada a partir de jogadores, dirigentes, títulos e grandes competições. Essa perspectiva, embora necessária, pode obscurecer personagens cuja trajetória permite compreender as relações mais amplas entre futebol e sociedade. A biografia de Antônio Rodrigues Tavares (1899-1990) constitui um desses casos. Sua trajetória atravessou boa parte do século XX e esteve relacionada a diferentes instituições da sociedade carioca. Português de nascimento, chegou ao Brasil em 1914 e desenvolveu atividades empresariais ligadas ao comércio de importação e exportação. Posteriormente, tornou-se dirigente de instituições como o Club de Regatas Vasco da Gama, o Real Gabinete Português de Leitura, a Câmara de Comércio Brasil-Portugal e o Rotary Club do Rio de Janeiro. No Vasco da Gama, sua trajetória apresenta uma característica particularmente significativa: Tavares não foi apenas um dirigente que chegou à presidência. Ele também aparece na memória histórica como torcedor vascaíno. Essa dimensão é confirmada pela sua inclusão no livro Torcedores de ontem e de hoje, publicado em 1968 por João Antero de Carvalho. A obra reuniu perfis de aproximadamente cinquenta torcedores de clubes cariocas e tornou-se uma fonte importante para a construção da memória das antigas lideranças e personalidades das arquibancadas. (SciELO) A presença de Tavares nesse universo permite formular uma questão central: Como a trajetória de um torcedor vascaíno das primeiras décadas do século XX se transformou, ao longo do tempo, em uma trajetória de dirigente, conselheiro, benemérito e presidente de um dos principais clubes brasileiros? É essa passagem — da torcida às instâncias dirigentes — que constitui o eixo principal deste artigo. 2. Antônio Rodrigues Tavares: imigração e inserção social Antônio Rodrigues Tavares nasceu em Portugal, em 23 de agosto de 1899. Chegou ao Brasil em março de 1914, ainda jovem. Segundo o registro jornalístico preservado no material documental reunido para esta pesquisa, posteriormente fundou a empresa A. Tavares & Cia. Ltda., especializada na importação e exportação de azeite. Essa informação é importante para compreender sua trajetória social. Tavares não pertenceu exclusivamente ao universo esportivo. Sua ascensão esteve associada ao comércio e às redes econômicas e associativas da comunidade portuguesa no Rio de Janeiro. Sua posterior participação na Câmara de Comércio Brasil-Portugal reforça essa dimensão. A biografia de Tavares pode, portanto, ser situada dentro de um fenômeno mais amplo: a construção de trajetórias de imigrantes portugueses que, através do comércio, do associativismo e das instituições comunitárias, alcançaram posições de destaque na sociedade carioca. 3. O torcedor antes do dirigente É neste ponto que a trajetória de Tavares se torna especialmente interessante para a história social do futebol. Segundo a documentação reunida nesta pesquisa, Tavares estava ligado ao Vasco desde o final da década de 1910 e teria participado da antiga torcida denominada Lasca o Pau. A confirmação dessa participação por meio de fontes contemporâneas deve permanecer como uma das preocupações documentais do artigo. Entretanto, sua presença na memória posterior das torcidas é inequívoca: João Antero de Carvalho incluiu Tavares entre os torcedores retratados em Torcedores de ontem e de hoje, de 1968. Esse aspecto é fundamental. A obra de João Antero não se limitou a registrar chefes de torcida provenientes das camadas populares. O livro também incorporou personagens socialmente reconhecidos, mostrando que a cultura torcedora carioca possuía uma composição bastante heterogênea. A historiografia recente sobre as torcidas destaca justamente esse caráter da obra, que reuniu figuras conhecidas e anônimas em uma mesma narrativa memorialística. (SciELO) No caso vascaíno, o livro colocou lado a lado personagens de trajetórias muito diferentes. Tavares aparece ao lado de nomes como Cartola, Ramalho e Dulce Rosalina, conforme levantamento sobre a história da torcida vascaína. (Torcida do Vasco) Essa aproximação é metodologicamente importante porque permite questionar a ideia de que o torcedor seria necessariamente uma figura dissociada das estruturas institucionais do clube. Tavares constitui justamente o exemplo contrário. Ele foi torcedor, associado, conselheiro, benemérito e presidente. 4. Da arquibancada ao Conselho A trajetória de Tavares revela uma continuidade entre diferentes formas de participação na vida do Vasco. Sua atuação como associado precedeu sua chegada às posições dirigentes. Posteriormente, passou a integrar o Conselho Deliberativo, alcançando o título de benemérito. Essa trajetória merece ser analisada dentro da própria transformação do Vasco em uma grande instituição esportiva. O clube das primeiras décadas do século XX havia crescido rapidamente. A conquista do Campeonato Carioca de 1923, a construção de São Januário e a consolidação de uma grande massa de torcedores modificaram a escala da instituição. Nesse processo, o quadro associativo e os órgãos dirigentes ganharam importância crescente. A trajetória de Tavares permite acompanhar esse processo a partir de uma biografia individual. 5. O presidente de 1948 Tavares assumiu a presidência do Vasco em 1948, permanecendo no cargo até 1950. A relação oficial de presidentes do clube confirma seu mandato. Seu nome ficou definitivamente associado à conquista do Campeonato Sul-Americano de Clubes Campeões de 1948, realizado no Chile. O título possui importância particular porque colocou o Vasco no centro do futebol sul-americano e posteriormente passou a ocupar posição fundamental na memória internacional do clube. É necessário, entretanto, evitar uma interpretação excessivamente personalista. A conquista não pode ser atribuída individualmente ao presidente. Ela foi resultado de uma estrutura esportiva que envolvia jogadores, comissão técnica, dirigentes e uma trajetória institucional construída anteriormente. A importância histórica de Tavares está em outro aspecto: ele era o presidente do clube no momento em que aquela estrutura alcançou uma de suas maiores realizações esportivas. Sua administração também deve ser estudada a partir dos aspectos patrimoniais e administrativos registrados pela documentação vascaína. A crônica biográfica preservada pelo Acervo Digital do Vasco, fornecida para esta pesquisa, é especialmente importante nesse sentido, pois recupera a participação de Tavares na vida administrativa do clube e sua relação com o processo de consolidação de São Januário. 6. Tavares em João Antero de Carvalho A inclusão de Antônio Rodrigues Tavares em Torcedores de ontem e de hoje merece uma seção específica no artigo. Publicado em 1968 pela Editora O Cruzeiro, o livro de João Antero de Carvalho possui mais de 350 páginas e reúne aproximadamente cinquenta perfis de torcedores cariocas. Os textos derivavam de crônicas anteriormente publicadas em O Dia. (SciELO) A obra é particularmente importante porque transforma o torcedor em personagem biográfico. Não são apenas os jogadores que possuem uma história. Não são apenas os dirigentes que possuem uma história. O torcedor também passa a ser apresentado como personagem digno de memória. No caso de Tavares, essa representação é ainda mais interessante porque o personagem rompe a separação convencional entre torcedor e dirigente. Ele é apresentado simultaneamente como torcedor histórico e personalidade institucional do Vasco. Essa característica permite uma leitura crítica da própria construção da memória das torcidas. Como observa a historiografia recente, Torcedores de ontem e de hoje ajudou a cristalizar determinados atributos associados às figuras das arquibancadas: devoção ao clube, dedicação e características pessoais que tornavam determinados torcedores reconhecíveis no espaço público. (SciELO) Tavares acrescenta uma dimensão diferente: a passagem da experiência torcedora para a autoridade institucional. 7. O Vasco e o associativismo português A trajetória de Tavares também permite discutir uma questão recorrente na historiografia vascaína: a relação entre o clube e a comunidade portuguesa. É necessário evitar uma leitura simplificadora que transforme o Vasco em uma instituição exclusivamente étnica. O clube nasceu fortemente relacionado à comunidade portuguesa, mas sua trajetória social ultrapassou progressivamente essa dimensão. Tavares é um personagem privilegiado para observar essa complexidade. Português de nascimento, empresário ligado ao comércio luso-brasileiro e dirigente de instituições portuguesas, ele também foi um dirigente de um clube cuja identidade social ultrapassava amplamente a comunidade de origem. Sua trajetória demonstra que identidade portuguesa e identidade vascaína podiam coexistir sem que uma anulasse a outra. 8. O Real Gabinete Português de Leitura A segunda grande fase da trajetória institucional de Tavares ocorreu no Real Gabinete Português de Leitura. Ele presidiu a instituição entre 1972 e 1986, segundo a relação oficial de presidentes do Real Gabinete. (RGPL) Sua atuação na instituição foi relevante também do ponto de vista cultural. Em 1977, Tavares dirigiu a publicação comemorativa dos 140 anos do Real Gabinete Português de Leitura, Fundamentos e atualidades do Real Gabinete Português de Leitura. A própria bibliografia do Real Gabinete registra a obra e sua direção. (Convergência Lusíada) Documentação da revista Convergência Lusíada também registra Tavares como presidente do Real Gabinete e mostra sua atuação na representação pública da instituição perante autoridades portuguesas e brasileiras. (Convergência Lusíada) A dimensão cultural de sua trajetória é importante porque desloca o personagem para além da história do futebol. O mesmo indivíduo que aparece como torcedor vascaíno e posteriormente preside o clube passa, décadas depois, a ocupar a presidência de uma das mais importantes instituições de preservação da cultura portuguesa no Brasil. 9. Rotary, Câmara de Comércio e associativismo A trajetória de Tavares ainda inclui a participação em instituições de natureza comercial e cívica. O registro de sua morte informa que foi presidente da Câmara de Comércio Brasil-Portugal e um dos fundadores e primeiro presidente da Fundação de Sócios do Rotary Club do Rio de Janeiro, além de ter ocupado posições importantes na Associação Comercial do Rio de Janeiro. Esses elementos revelam uma extensa rede de sociabilidade. Podemos representar essa trajetória da seguinte maneira: Imigração portuguesa → comércio → associativismo português → Vasco da Gama → Conselho Deliberativo → presidência do Vasco → Real Gabinete Português de Leitura → Rotary → Associação Comercial. A biografia deixa, assim, de ser apenas uma história individual e passa a ser uma porta de entrada para o estudo das redes associativas e das elites institucionais do Rio de Janeiro no século XX. 10. Morte e memória Antônio Rodrigues Tavares morreu em 1990, aos 90 anos. O obituário utilizado nesta pesquisa informa que nasceu em 23 de agosto de 1899 e que chegou ao Brasil em março de 1914. Registra também suas principais posições institucionais: presidente do Vasco da Gama, do Real Gabinete Português de Leitura e da Câmara de Comércio Brasil-Portugal, além de sua atuação no Rotary e na Associação Comercial do Rio de Janeiro. Sua longevidade permitiu que sua trajetória atravessasse diferentes gerações da história vascaína. Quando morreu, Tavares pertencia a uma geração que havia acompanhado a transformação do Vasco de associação esportiva de imigrantes em uma das maiores instituições esportivas brasileiras. 11. Considerações finais A trajetória de Antônio Rodrigues Tavares permite compreender a história do Vasco a partir de uma perspectiva que ultrapassa a narrativa tradicional dos títulos e dos grandes jogadores. Sua biografia articula imigração, comércio, associativismo, torcida, administração esportiva, cultura portuguesa e participação institucional. Particularmente importante é sua condição simultânea de torcedor e dirigente. Sua presença em Torcedores de ontem e de hoje, de João Antero de Carvalho, publicado em 1968, demonstra que Tavares já era reconhecido naquele momento como personagem da memória das torcidas cariocas. Ao mesmo tempo, sua trajetória institucional havia ultrapassado o espaço das arquibancadas: ele se tornara conselheiro, benemérito e presidente do Vasco. Essa passagem permite pensar a história da torcida vascaína não como um fenômeno separado da vida institucional do clube, mas como parte de uma cultura associativa mais ampla. Nesse sentido, Tavares é um personagem especialmente importante para uma história social do Vasco. Ele foi, simultaneamente, imigrante português, empresário, torcedor, associado, conselheiro, benemérito, dirigente esportivo, presidente do Vasco e dirigente de instituições culturais e cívicas. Sua biografia revela, portanto, a existência de múltiplos caminhos de participação na construção histórica do clube. Mais do que o presidente do Vasco no ano do título sul-americano de 1948, Antônio Rodrigues Tavares pode ser compreendido como um personagem de longa duração na formação da comunidade vascaína, cuja trajetória permite conectar as arquibancadas, o associativismo e as estruturas dirigentes do clube às redes mais amplas da sociedade carioca e da comunidade portuguesa no Brasil. 12. Fontes e referências iniciais Fontes primárias ACERVO DIGITAL DO CLUB DE REGATAS VASCO DA GAMA. Crônica biográfica sobre Antônio Rodrigues Tavares. Recorte jornalístico utilizado nesta pesquisa. CARVALHO, João Antero de. Torcedores de ontem e de hoje. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1968. A referência bibliográfica é confirmada pela historiografia sobre a formação das torcidas cariocas. (SciELO) REAL GABINETE PORTUGUÊS DE LEITURA. Fundamentos e atualidades do Real Gabinete Português de Leitura. Edição comemorativa do 140º aniversário de fundação. Direção de António Rodrigues Tavares. Rio de Janeiro, 1977. (Convergência Lusíada) REAL GABINETE PORTUGUÊS DE LEITURA. Relação de presidentes da instituição. (RGPL) HEMEROTECA DIGITAL BRASILEIRA. Jornais e periódicos do Rio de Janeiro a serem utilizados para reconstrução da trajetória de Tavares. Referências historiográficas HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. Estudos sobre torcidas, futebol e cultura popular. MEDEIROS, Jorge. Estudos e pesquisas sobre a história social das torcidas vascaínas. Trabalhos recentes sobre a formação histórica das torcidas cariocas, particularmente a análise de Torcedores de ontem e de hoje como fonte para a história do torcedor. (SciELO)

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Sérgio Cabral, futebol, samba e a construção de uma memória popular do Vasco da Gama

Este artigo analisa a trajetória do jornalista, escritor e pesquisador da música popular brasileira Sérgio Cabral e sua relação com o Clube de Regatas Vasco da Gama. A partir de sua produção jornalística e de sua atuação como memorialista do futebol e do samba, procura-se compreender como Cabral contribuiu para a construção de uma representação do Vasco associada à cultura popular carioca, ao subúrbio e à diversidade social da cidade. Nascido em Cascadura e criado em Cavalcante, Cabral construiu sua trajetória profissional em importantes órgãos da imprensa brasileira, entre eles o Jornal dos Sports, a Última Hora e O Globo. Sua condição de jornalista e torcedor permitiu-lhe ocupar uma posição particular no debate sobre a imprensa esportiva e sobre as representações dos grandes clubes cariocas. Ao valorizar a presença do samba e da música popular na história vascaína e ao recuperar a memória de ídolos como Ademir Menezes e Barbosa, Cabral contribuiu para uma narrativa do Vasco que ultrapassa a explicação baseada exclusivamente na presença portuguesa. Argumenta-se que sua trajetória constitui importante evidência para o estudo da dimensão popular, suburbana e culturalmente diversificada da identidade vascaína. Palavras-chave: Vasco da Gama; Sérgio Cabral; futebol; samba; torcidas; memória social; subúrbio; imprensa esportiva. 1. Introdução A história dos grandes clubes de futebol do Rio de Janeiro também pode ser compreendida como uma história de identidades sociais. Os clubes não constituíram apenas instituições esportivas destinadas à prática do futebol. Ao longo do século XX, transformaram-se em espaços de pertencimento, sociabilidade e representação simbólica para diferentes grupos da população carioca. O Clube de Regatas Vasco da Gama ocupa posição particularmente significativa nesse processo. Sua história tem sido frequentemente relacionada à presença portuguesa e à participação de imigrantes na constituição da instituição. Essa dimensão é inegável e representa parte importante de sua trajetória. Entretanto, uma análise mais ampla da composição de seus jogadores, dirigentes, torcedores, associações de bairro, grupos de arquibancada, artistas e intelectuais revela uma realidade social consideravelmente mais diversificada. É nesse contexto que a trajetória de Sérgio Cabral adquire especial importância. Jornalista, escritor, pesquisador da música popular brasileira e vascaíno declarado, Cabral construiu uma carreira profundamente vinculada à cultura carioca. Nascido em Cascadura e criado em Cavalcante, no subúrbio do Rio de Janeiro, tornou-se uma das figuras importantes da imprensa brasileira e um dos principais pesquisadores da história do samba. Sua relação com o Vasco, entretanto, não se limitou à condição de torcedor. Ao longo de décadas, Cabral escreveu sobre o clube em diferentes jornais, recuperou a memória de seus jogadores e estabeleceu uma associação recorrente entre Vasco, samba e cultura popular. Participou ainda da produção do livro comemorativo do centenário do clube, publicado em 1998. Este artigo parte da hipótese de que Sérgio Cabral constitui uma personagem particularmente reveladora para compreender a dimensão social e cultural da identidade vascaína. Sua própria biografia — brasileiro, suburbano, jornalista, pesquisador do samba e torcedor do Vasco — representa uma experiência que não pode ser explicada exclusivamente pela presença portuguesa no clube. Mais do que reconstruir uma biografia, pretende-se analisar como Cabral ajudou a produzir e preservar uma determinada memória do Vasco: a memória de um clube profundamente inserido na cultura popular carioca. 2. O subúrbio como lugar de formação A trajetória de Sérgio Cabral precisa ser relacionada ao espaço social em que ocorreu sua formação. Nascido em Cascadura e criado em Cavalcante, Cabral pertenceu a uma geração de cariocas cuja experiência urbana estava profundamente marcada pelos bairros suburbanos, pelo transporte ferroviário, pelas escolas, pelos clubes, pelas associações recreativas e pelas manifestações da cultura popular. Essa dimensão é importante porque o subúrbio não deve ser compreendido apenas como espaço geográfico. Ele constituiu também um espaço de produção cultural e de sociabilidade. Foi nesse ambiente que diferentes manifestações da cultura carioca se encontraram: futebol, samba, carnaval, música popular, associações recreativas e organizações comunitárias. A própria trajetória profissional de Cabral expressa essa circulação. Antes de se transformar em jornalista consagrado, trabalhou na antiga Central do Brasil. Posteriormente, ingressou no jornalismo e passou por diferentes órgãos da imprensa. Essa experiência ajuda a compreender a particularidade de seu olhar sobre o futebol. Cabral não era um observador externo da cultura popular carioca. Ele próprio fazia parte de um universo social no qual futebol e música popular se encontravam cotidianamente. Nesse sentido, sua condição de vascaíno não pode ser separada de sua experiência social. 3. O jornalista vascaíno e a imprensa esportiva A carreira de Sérgio Cabral na imprensa esportiva ganhou importância a partir da década de 1960. Durante a Copa do Mundo de 1962, aproximou-se da chamada Resenha Facit, convivendo com jornalistas e cronistas como João Saldanha, Armando Nogueira e Nelson Rodrigues. Posteriormente, trabalhou no Jornal dos Sports, na Última Hora e em O Globo. No Jornal dos Sports, assumiu papel de destaque na década de 1970, tornando-se uma das vozes importantes da imprensa esportiva carioca. Sua posição era particularmente interessante porque Cabral não escondia sua condição de torcedor. Ao contrário de uma tradição jornalística que procurava construir uma imagem de absoluta neutralidade, sua produção revelava uma relação afetiva com o Vasco. Isso não significa que sua escrita possa ser reduzida à propaganda clubística. O aspecto mais relevante é justamente observar como um jornalista assumidamente vascaíno ocupou espaços importantes dentro da grande imprensa. Sua atuação também deve ser situada no contexto das disputas entre as diferentes representações dos clubes cariocas produzidas pela imprensa. Ao longo de décadas, torcedores de diferentes clubes denunciaram aquilo que percebiam como tratamentos diferenciados na cobertura esportiva. No universo vascaíno, consolidou-se uma tradição de crítica àquilo que posteriormente passou a ser denominado de “Flapress”, expressão utilizada para caracterizar a percepção de favorecimento do Flamengo e, em determinados contextos, da dupla Flamengo-Fluminense por setores da grande imprensa. Não se pretende aqui transformar essa percepção em conclusão apriorística sobre a imprensa carioca. O que interessa historicamente é estudar a existência dessa disputa de representações e o papel desempenhado por jornalistas vascaínos na construção de uma narrativa alternativa. Sérgio Cabral é um personagem importante dessa história justamente porque ocupou simultaneamente dois lugares: o de profissional da grande imprensa e o de torcedor identificado publicamente com o Vasco. 4. O Vasco como “clube do povo” Uma das dimensões mais significativas da produção de Cabral é a representação do Vasco como clube profundamente relacionado à cultura popular carioca. Essa interpretação dialoga com uma tradição mais antiga da própria história vascaína. Desde os anos 1920, a presença de jogadores negros e trabalhadores, a resistência à exclusão racial e social e a formação de uma torcida numerosa contribuíram para a construção de uma identidade popular do clube. A trajetória posterior de Cabral permite observar a permanência dessa representação durante a segunda metade do século XX. Para ele, a identidade vascaína não estava restrita à história administrativa do clube ou aos seus títulos. Ela também estava presente nas manifestações culturais produzidas por seus torcedores. Essa perspectiva aparece de maneira particularmente evidente quando Cabral aproxima o Vasco do samba. Sua famosa relação de artistas vascaínos inclui alguns dos nomes mais importantes da música popular brasileira. Pixinguinha, Clementina de Jesus, Nelson Cavaquinho, Ismael Silva, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Jamelão e Zé Keti, entre outros, aparecem associados ao universo vascaíno. Essa relação é sociologicamente significativa. Não se trata simplesmente de afirmar que “artistas famosos torciam pelo Vasco”. A operação realizada por Cabral é mais profunda: ele utiliza a presença desses artistas para construir uma determinada interpretação cultural do clube. O Vasco aparece como parte do universo social que produziu o samba carioca. Dessa maneira, futebol e música deixam de ser fenômenos separados. A arquibancada e a roda de samba passam a integrar um mesmo universo de sociabilidade popular. 5. Vasco e samba: uma interpretação da cultura carioca A aproximação entre Vasco e samba constitui provavelmente uma das contribuições mais originais de Sérgio Cabral para a memória do clube. Como pesquisador da música popular brasileira, Cabral possuía uma autoridade intelectual particular para estabelecer essa relação. Sua produção sobre o samba não era circunstancial. Durante décadas, dedicou-se à pesquisa, documentação e preservação da memória da música popular brasileira. Quando transferia esse conhecimento para suas reflexões sobre o Vasco, produzia uma interpretação cultural do clube. A crônica publicada no Jornal dos Sports em 21 de agosto de 1983 constitui um exemplo fundamental. Nela, Cabral relaciona o Vasco a numerosos nomes da música popular e apresenta o clube como parte integrante da cultura carioca. Essa perspectiva pode ser interpretada como uma tentativa de deslocar a discussão sobre identidade vascaína. Em lugar de perguntar apenas “quem fundou o Vasco?” ou “qual era a origem de seus dirigentes?”, Cabral permite formular outra pergunta: que grupos sociais encontraram no Vasco uma forma de pertencimento cultural? A resposta aponta para um universo muito mais amplo do que a colônia portuguesa. O Vasco aparece, nessa perspectiva, como clube de trabalhadores, suburbanos, negros, artistas, sambistas e diferentes setores da população brasileira. 6. Ademir e Barbosa: memória, identidade e idolatria A relação de Sérgio Cabral com Ademir Menezes e Barbosa constitui outro elemento fundamental de sua trajetória. Os dois jogadores pertenciam ao imaginário da infância vascaína de Cabral. Posteriormente, transformaram-se também em objetos de sua produção memorialística. Essa passagem da experiência pessoal para a memória pública é particularmente importante. O menino que acompanhava os ídolos do Vasco tornou-se o jornalista que, décadas depois, ajudaria a manter esses personagens presentes na memória das novas gerações. Ademir representa, nesse processo, a dimensão gloriosa do Vasco. Artilheiro, integrante do Expresso da Vitória e personagem central da história da Seleção Brasileira, tornou-se um dos maiores ídolos do futebol nacional. Barbosa, por sua vez, apresenta uma dimensão diferente. Sua trajetória permite discutir raça, memória e injustiça no futebol brasileiro. O goleiro vascaíno foi transformado, durante décadas, em um dos principais símbolos da derrota brasileira na Copa de 1950. A recuperação de sua trajetória é, portanto, também uma disputa pela memória. Ao valorizar Barbosa, Cabral participava de um movimento mais amplo de revisão das narrativas que haviam reduzido o goleiro a uma derrota. Nesse sentido, a memória vascaína construída por Cabral não era simplesmente uma memória de vitórias. Era também uma memória de personagens, experiências e sujeitos que haviam sido submetidos a diferentes formas de esquecimento. 7. Sérgio Cabral e a memória do centenário vascaíno A participação de Sérgio Cabral na elaboração do livro comemorativo do centenário do Clube de Regatas Vasco da Gama, em 1998, representa um momento particularmente importante de sua relação com a instituição. O centenário constitui um momento privilegiado de produção da memória coletiva. Ao completar cem anos, o clube precisava selecionar personagens, acontecimentos, imagens e interpretações capazes de representar sua trajetória. A participação de Cabral nesse processo possui significado especial porque ele não era apenas um jornalista esportivo. Era também um dos principais pesquisadores da cultura popular brasileira. Sua presença permite compreender o Vasco dentro de uma perspectiva mais ampla da história cultural do Rio de Janeiro. O clube não aparece apenas como uma instituição esportiva fundada no final do século XIX. Surge como parte de uma cidade que se transformou profundamente durante o século XX e na qual futebol, samba, carnaval, imprensa e cultura popular se desenvolveram conjuntamente. 8. Para além da identidade portuguesa Um dos principais problemas historiográficos que a trajetória de Sérgio Cabral ajuda a enfrentar é a tendência de reduzir a identidade vascaína à presença portuguesa. A influência portuguesa é fundamental e não deve ser negada. Entretanto, transformar essa influência na explicação central da composição social do Vasco pode produzir uma imagem incompleta do clube. A própria trajetória de Cabral oferece uma evidência em sentido contrário. Cabral era brasileiro, nascido e criado no subúrbio carioca, e encontrou no Vasco um dos principais símbolos de sua identidade esportiva. Sua experiência não foi excepcional. Ao longo do século XX, milhares de brasileiros sem origem portuguesa passaram a identificar-se com o Vasco. Entre eles estavam negros, trabalhadores, suburbanos, artistas, jornalistas e integrantes das classes médias e populares. A história das torcidas vascaínas demonstra esse processo de maneira ainda mais evidente. Personagens como Afonso Silva, o Polar; Ramalho; Josepha Pereira; Dulce Rosalina; os integrantes das antigas torcidas organizadas e diversos outros personagens revelam uma composição social extremamente diversificada. Sérgio Cabral deve ser inserido nesse conjunto. Sua importância reside justamente no fato de que sua própria trajetória confirma, em escala individual, uma característica mais ampla da história social do clube. 9. Futebol, samba e memória social A contribuição de Sérgio Cabral pode ser compreendida teoricamente a partir do conceito de memória social. A memória coletiva não é apenas a conservação passiva do passado. Ela envolve seleção, interpretação e atribuição de significado. Ao escrever sobre o Vasco, Cabral selecionou determinados personagens e acontecimentos. Ao aproximar o clube do samba, selecionou determinados artistas. Ao recuperar Ademir e Barbosa, contribuiu para manter determinados ídolos presentes no imaginário vascaíno. Ao participar do livro do centenário, ajudou a institucionalizar determinada narrativa histórica. Seu trabalho pode, portanto, ser entendido como uma forma de produção de memória. Essa perspectiva é especialmente relevante para o estudo das torcidas. A identidade de uma torcida não se constitui apenas pela presença física nos estádios. Ela também é produzida através de histórias contadas, fotografias preservadas, jornais, livros, crônicas, músicas, símbolos e personagens. Sérgio Cabral foi um desses produtores de memória. 10. Considerações finais A trajetória de Sérgio Cabral permite compreender uma dimensão particularmente rica da história social do Vasco da Gama. Jornalista de grande circulação, pesquisador do samba, escritor e torcedor declarado, Cabral estabeleceu ao longo de décadas uma relação entre futebol e cultura popular que contribuiu para ampliar a compreensão sobre a identidade vascaína. Sua biografia possui, por si mesma, valor documental. Nascido e criado no subúrbio carioca, brasileiro e profundamente ligado à música popular, Cabral não correspondia ao modelo que procura explicar o vascaísmo exclusivamente a partir da imigração portuguesa. Sua experiência demonstra que o Vasco também foi apropriado culturalmente por brasileiros de diferentes origens sociais. Mais do que isso, sua produção jornalística ajudou a formular essa interpretação. Ao associar Vasco e samba, ao recuperar artistas vascaínos, ao valorizar Ademir e Barbosa e ao participar da construção da memória do centenário do clube, Cabral ajudou a consolidar uma narrativa na qual o Vasco aparece como parte da própria história cultural do Rio de Janeiro. Nesse sentido, estudar Sérgio Cabral significa estudar não apenas um jornalista vascaíno, mas um produtor da memória social do Vasco. Sua trajetória permite compreender como o clube foi representado por um intelectual que transitava entre diferentes mundos: a imprensa, o futebol, o samba, o carnaval, o subúrbio e a cultura popular. A imagem do Vasco construída por Cabral é, portanto, uma imagem plural. É a imagem de um clube que teve portugueses entre seus fundadores e dirigentes, mas que também foi apropriado por brasileiros; que teve grandes jogadores negros e trabalhadores; que construiu uma das maiores torcidas do país; que encontrou no subúrbio uma de suas principais bases sociais; e que estabeleceu, ao longo do século XX, relações profundas com o samba e com a cultura popular carioca. Por essa razão, Sérgio Cabral merece ser incorporado à historiografia social do Vasco da Gama e ao estudo das relações entre futebol, cultura popular e identidade no Rio de Janeiro. Sua obra oferece uma chave para compreender o Vasco não somente como clube de futebol, mas como espaço de pertencimento, memória e representação social. Referências preliminares CABRAL, Sérgio. O clube que todos cantam. Jornal dos Sports, Rio de Janeiro, 21 ago. 1983. CABRAL, Sérgio. Livro do Centenário do Clube de Regatas Vasco da Gama. Rio de Janeiro, 1998. CARVALHO, João Antero de. O negro no futebol brasileiro. Rio de Janeiro, 1968. FILHO, Mário Rodrigues. O negro no futebol brasileiro. Rio de Janeiro: Mauad, diversas edições. HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. O clube como vontade e representação: o jornalismo esportivo e a formação das torcidas organizadas de futebol do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008. NASCIMENTO, Álvaro. Crônicas esportivas e vascaínas. Jornal dos Sports. Rio de Janeiro. [Acervo Digital do Vasco]. ROCHA, José da Silva. Documentação histórica sobre o Club de Regatas Vasco da Gama. Rio de Janeiro. Acervo Digital do Clube de Regatas Vasco da Gama. Rio de Janeiro. Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. Acervo Sérgio Cabral. Fontes para aprofundamento Jornal dos Sports, década de 1970. O Globo, década de 1980. Última Hora, década de 1960. Acervo Digital do Vasco da Gama. Acervo Sérgio Cabral — Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro.

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