sexta-feira, 6 de novembro de 2026

JOAQUIM MELLO DA CUNHA ## Um empresário, uma liderança e uma vida dedicada ao Vasco da Gama

# Na história do Club de Regatas Vasco da Gama, muitos personagens tiveram sua importância reconhecida pelos cargos que ocuparam, pelas conquistas esportivas ou pelos serviços prestados à instituição. Outros, entretanto, exerceram uma influência que ultrapassou as funções administrativas, tornando-se referências na vida política e associativa do clube. Joaquim Mello da Cunha pertence a esse segundo grupo. Empresário do ramo de calçados, homem de reconhecida posição social e uma das principais lideranças da política vascaína de seu tempo, Joaquim Mello da Cunha construiu uma trajetória profundamente ligada ao Vasco. Grande Benemérito da instituição, foi vice-presidente em diferentes administrações, chegou a exercer interinamente a presidência e teve participação importante em iniciativas relacionadas à preservação da memória e ao desenvolvimento do clube. De origem portuguesa, estabeleceu-se no Brasil, onde se tornou brasileiro naturalizado e desenvolveu suas atividades empresariais. Industrial do setor de calçados, esteve ligado às empresas Polar e D.N.B., alcançando posição de destaque no meio comercial carioca. Seu perfil foi retratado em uma reportagem da revista *Manchete*, que apresentou um homem de hábitos refinados, educado e integrado à vida social do Rio de Janeiro. Era sócio do Jockey Club, do Itanhangá Golf Club e do Ginástico Português. Gostava de praticar golfe, jogar voleibol e realizar frequentes viagens à Europa. Aos sábados, costumava reunir os cunhados para partidas de voleibol em sua quadra particular. Apesar dos compromissos empresariais e sociais, mantinha uma rotina de presença em São Januário, onde comparecia diariamente, geralmente entre 18h30 e 19h30. Sua ligação com o Vasco, entretanto, vinha de muito antes de alcançar os postos de direção. Entre 1920 e 1935, participou diversas vezes de regatas íntimas promovidas pelo clube, demonstrando que sua identificação com a instituição estava associada às próprias raízes esportivas do Vasco, ainda fortemente ligadas ao remo. ### A vida administrativa e a contribuição ao clube A participação de Joaquim Mello da Cunha na administração vascaína ganhou maior expressão a partir da década de 1950. Ocupou a vice-presidência nos períodos de 1952–1953 e 1967–1968, além de ter exercido interinamente a presidência do clube, substituindo Ciro Aranha. Sua atuação não se limitava às questões administrativas. Em 1955, teve participação de destaque na construção do Museu do Vasco, iniciativa de grande significado para a preservação da memória institucional e das conquistas esportivas do clube. A importância dessa contribuição merece ser lembrada, pois demonstra sua preocupação com a história vascaína e com a transmissão de seu patrimônio às gerações seguintes. Também esteve envolvido em decisões importantes para o fortalecimento esportivo da instituição. A reportagem da *Manchete* o aponta como um dos grandes responsáveis pela aquisição do jogador Pinga, contratação que marcou uma fase de importantes investimentos no futebol vascaíno. Em reconhecimento aos serviços prestados, recebeu o título de Grande Benemérito, distinção que expressava o respeito e a consideração conquistados ao longo de sua trajetória. ### A Tradição Vascaína e a liderança política Talvez uma das dimensões mais importantes de sua história esteja relacionada à política interna do Vasco da Gama. Joaquim Mello da Cunha foi uma das principais lideranças da Tradição Vascaína, corrente política que exerceu influência significativa na vida institucional do clube entre 1958 e 1979. Sua formação esteve ligada ao movimento de reorganização administrativa que buscava renovar o Conselho Deliberativo e estabelecer uma nova orientação para a presidência vascaína. Nesse processo, Joaquim esteve ao lado de Ciro Aranha e Antônio Ceppas, dois personagens de grande expressão na vida política do clube. Sua relação com Antônio Ceppas era particularmente próxima, assim como a amizade e a confiança que mantinha com Ciro Aranha. A crônica intitulada *Uma pedrinha na chuteira*, assinada por Álvaro Nascimento e publicada no *Jornal dos Sports* em setembro de 1969, constitui um dos testemunhos mais importantes sobre essa atuação. Ao recordar a trajetória de Joaquim, o jornalista destacou sua participação ao lado de Ciro Aranha e Antônio Ceppas na campanha de reorganização do Vasco. Segundo o cronista, Joaquim foi um dos principais sustentáculos da Tradição Vascaína desde seus primeiros anos, contribuindo para a consolidação de uma corrente que reunia figuras representativas da comunidade vascaína. Álvaro Nascimento ressaltou seu idealismo e sua maneira particular de exercer a liderança. Embora fosse uma figura de grande influência, Joaquim não era descrito como um dirigente autoritário ou impositivo. Sua força estava na serenidade, na capacidade de articulação e na confiança que inspirava entre seus companheiros. A crônica revela também uma característica importante de sua personalidade política: Joaquim acreditava no trabalho coletivo e na força dos grandes grupos vascaínos. Sua liderança não dependia de ocupar permanentemente o primeiro plano, mas de participar ativamente das decisões e contribuir para os rumos da instituição. A Tradição Vascaína permaneceria influente até 1979, uma década depois de sua morte. Assim, embora não tenha acompanhado o encerramento daquele ciclo político, Joaquim foi um dos personagens fundamentais de sua formação e consolidação. ### O reconhecimento de seus contemporâneos A dimensão humana e institucional de Joaquim Mello da Cunha também ficou registrada em outra homenagem publicada em setembro de 1969, desta vez por José Araújo, em *O Jornal*. O jornalista destacou a perda representada por seu falecimento, ressaltando sua condição de Grande Benemérito e os serviços inestimáveis prestados ao Vasco da Gama. Recordou suas passagens pela vice-presidência e sua atuação como presidente interino. Ao descrevê-lo, José Araújo ressaltou a serenidade e a tranquilidade de Joaquim, qualificando-o como um autêntico líder, que não precisava impor sua autoridade para ser respeitado. Destacou também o homem dedicado à família, aos negócios e ao Vasco. A homenagem ganhou um significado especial quando o jornalista propôs que o Conselho Deliberativo sugerisse à diretoria administrativa a inclusão do nome de Joaquim Mello da Cunha no Museu de Troféus de São Januário. Era uma maneira de perpetuar a memória de alguém que havia contribuído para a própria construção daquele espaço de preservação histórica. As duas manifestações jornalísticas, publicadas por ocasião de sua morte, oferecem testemunhos complementares. Enquanto José Araújo enfatizou o homem, o dirigente e sua dedicação ao Vasco, Álvaro Nascimento procurou explicar a importância de sua liderança na política interna do clube. ### Família e memória Por trás do empresário e do dirigente havia também um homem de família. Joaquim Mello da Cunha foi casado desde 1939 com Maria Elisa Pádua Soares Mello da Cunha com quem teve filhas ( uma delas Ana Lucia Soares Mello da Cunha 1942-1988) e um filho, Joaquim Soares Mello da Cunha, nascidem 1940 e falecido em 2025. Faleceu em setembro de 1969, aos 74 anos, e foi sepultado no Cemitério de São João Batista, no Rio de Janeiro. Sua morte representou uma perda significativa para o ambiente vascaíno, que naquele período também lamentava o desaparecimento de outras importantes figuras ligadas à instituição. A dimensão de sua importância pode ser percebida justamente pelas homenagens publicadas por ocasião de seu falecimento. Não se tratava apenas da despedida de um ex-vice-presidente ou de um Grande Benemérito, mas da perda de uma liderança que havia participado ativamente da construção política e institucional do Vasco. Joaquim Mello da Cunha foi um personagem de múltiplas dimensões: empresário de sucesso, homem de hábitos sociais refinados, esportista, dirigente e articulador político. Sua participação na construção do Museu do Vasco, sua presença na administração do clube, sua proximidade com Ciro Aranha e Antônio Ceppas e, sobretudo, sua liderança na Tradição Vascaína constituem elementos fundamentais para compreender sua contribuição. Resgatar sua trajetória é também recuperar parte de uma época em que a vida do Vasco da Gama era construída por dirigentes cuja atuação ultrapassava os limites do futebol, alcançando o associativismo, a política institucional e a preservação da memória histórica. Grande Benemérito, Joaquim Mello da Cunha deixou sua marca em São Januário e na história política do Club de Regatas Vasco da Gama. Seu nome merece ocupar um lugar de destaque entre aqueles que ajudaram a construir a identidade e a grandeza da instituição.

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quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Antonio Ceppas: o grande amigo do Vasco e guardião de sua memória

# **Castanheira de Pêra, 26 de fevereiro de 1895 – Rio de Janeiro, 9 de outubro de 1979** A trajetória de Antonio Ceppas confunde-se com a história de uma geração de imigrantes portugueses que encontrou no Brasil oportunidades para construir uma vida de realizações empresariais, sociais e associativas. Empresário de sucesso, dirigente esportivo, benemérito da comunidade portuguesa e uma das figuras mais respeitadas do Club de Regatas Vasco da Gama, Ceppas dedicou décadas de sua existência à construção e à preservação de instituições que considerava parte de sua própria vida. Nascido em Castanheira de Pêra, em Portugal, em 26 de fevereiro de 1895, chegou ao Brasil em 1910. Iniciou sua trajetória profissional na Casa José Silva & Cia., empresa na qual construiu carreira sólida e alcançou posições de destaque, participando de sua expansão e consolidação entre as mais importantes organizações comerciais ligadas à colônia portuguesa no Rio de Janeiro. Sua ligação com o Vasco da Gama teve início ainda na década de 1910. Associado desde a juventude, acompanhou praticamente toda a evolução do clube ao longo do século XX. Viveu os anos pioneiros da agremiação, testemunhou a construção de São Januário e assistiu ao crescimento do Vasco como uma das maiores instituições esportivas do país. Muito antes de receber os títulos honoríficos pelos quais seria lembrado, Ceppas participou ativamente da administração vascaína. Em 1933, durante a gestão de Visconde de Morais, exerceu a Vice-Presidência do clube, demonstrando que sua dedicação ao Vasco ia além da condição de associado ou torcedor. Sua presença nos órgãos dirigentes refletia a confiança que inspirava entre os principais líderes da instituição. Em 1942, ingressou no Conselho Deliberativo, iniciando uma longa trajetória de participação na vida política do clube. O reconhecimento veio de forma natural. Em 1949 recebeu o título de Benemérito e, em 1954, foi elevado à condição de Grande Benemérito, uma das maiores distinções concedidas pelo Vasco da Gama. Embora tenha exercido funções administrativas relevantes, sua contribuição mais duradoura foi a preservação da memória vascaína. Em uma época em que poucos clubes brasileiros se preocupavam com seus acervos históricos, Antonio Ceppas compreendeu a importância de conservar os símbolos materiais da trajetória do Vasco. Essa visão se materializou nos trabalhos de reorganização e modernização da Sala de Troféus de São Januário. Inaugurado em 1951, o espaço passou por uma profunda reformulação concluída em agosto de 1960, conduzida principalmente por Antonio Ceppas e Joaquim Melo da Cunha. Mais do que organizar objetos e conquistas esportivas, o trabalho representava a preservação da identidade de uma instituição já então detentora de uma história excepcional. Graças a iniciativas como essa, parte importante da memória vascaína foi preservada para as gerações futuras. A dedicação à história do clube estava associada ao seu compromisso com as tradições vascaínas. Patrono da corrente Tradição Vascaína, era respeitado por diferentes grupos políticos e reconhecido como voz de equilíbrio e experiência. Apesar da influência que exercia nos bastidores, evitava protagonismos. Uma reportagem publicada em 1972, intitulada *Antonio Ceppas – Um Grande Amigo do Vasco*, registrou uma característica que marcaria sua imagem pública: “o trabalho silencioso era o seu lema”. A influência de Ceppas ultrapassava os limites do clube. Na comunidade portuguesa destacou-se por sua atuação na Real e Benemérita Sociedade Portuguesa de Beneficência. Como presidente da Comissão de Obras, desempenhou papel relevante nos esforços que resultaram na construção, ampliação e modernização do Hospital Santa Maria. Seu trabalho foi reconhecido com a concessão da Cruz Humanitária em 1960. O jornalista Pedro Nunes, em homenagem publicada no Jornal dos Sports após seu falecimento, definiu Antonio Ceppas como um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento do Hospital Santa Maria, destacando sua dedicação à Beneficência Portuguesa e às causas assistenciais da comunidade luso-brasileira. A mesma crônica revelou um aspecto importante de sua personalidade: a capacidade de reunir pessoas. Proprietário da Casa Benfica, uma ampla chácara em Teresópolis, Ceppas transformou o local em ponto de encontro de amigos, empresários, dirigentes esportivos e representantes da colônia portuguesa. Segundo Pedro Nunes, a propriedade recebia frequentemente companheiros vascaínos como Cyro Aranha, Cordinha, Oswaldo Moreira, Joaquim Melo da Cunha e Antônio Souza Lemos. Foi também em sua Casa Benfica que promoveu recepções para grupos folclóricos vindos de Portugal, fortalecendo os laços culturais entre sua terra natal e o Brasil. Esses encontros revelam um homem que valorizava tanto as instituições quanto as relações humanas construídas em torno delas. Entre suas paixões pessoais estava o golfe, esporte que praticava regularmente. Pedro Nunes recordou que, durante os encontros em Teresópolis, era comum que Ceppas se ausentasse para jogar enquanto os convidados desfrutavam da programação social organizada na propriedade. Frequentador dos círculos sociais mais tradicionais da cidade, mantinha igualmente vínculos com o Jockey Club Brasileiro, participando ativamente da vida social carioca. Sua residência no Leblon também ocupou lugar de destaque em sua trajetória. Projetada pelo arquiteto Jorge Machado Moreira, com paisagismo de Roberto Burle Marx e interiores de John Graz, a Casa Antonio Ceppas tornou-se referência da arquitetura moderna brasileira. Concluída em 1958, recebeu reconhecimento na VI Bienal Internacional de São Paulo, em 1961. A residência entrou igualmente para a história vascaína. Após a conquista do Super-Supercampeonato Carioca de 1958, um dos títulos mais marcantes da história do clube, foi ali que dirigentes, atletas e convidados se reuniram para as comemorações da conquista, evidenciando o prestígio de Antonio Ceppas no universo vascaíno. Antonio Ceppas faleceu no Rio de Janeiro em 9 de outubro de 1979. Sua morte mobilizou representantes do empresariado, do esporte, da comunidade portuguesa e do associativismo carioca. As homenagens prestadas por amigos e contemporâneos deixaram evidente a dimensão de sua trajetória. Mais do que empresário, dirigente ou benemérito, Antonio Ceppas foi um construtor de instituições. Participou da administração do Vasco, ajudou a preservar sua memória histórica, colaborou para o fortalecimento da Beneficência Portuguesa e cultivou uma extensa rede de amizades que aproximava o clube da comunidade portuguesa e da sociedade carioca. Seu legado permanece associado não apenas às realizações materiais que ajudou a construir, mas também aos valores que orientaram sua vida: discrição, generosidade, espírito associativo e dedicação permanente às instituições que amava. Entre elas, nenhuma ocupou lugar tão especial quanto o Club de Regatas Vasco da Gama, ao qual dedicou cerca de sete décadas de sua existência e parte significativa de seu trabalho silencioso.

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quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Artur Braga Rodrigues Pires: um dirigente entre a glória esportiva e os desafios da história vascaína

*Presidente do Vasco da Gama na década de 1950, Artur Pires esteve ligado à conquista do Campeonato Carioca de 1956, ao início da construção da Capela de Nossa Senhora das Vitórias e a episódios que revelam diferentes dimensões da vida institucional e social do clube.* A história do Club de Regatas Vasco da Gama foi construída não apenas pelos atletas que defenderam suas cores e pelas equipes responsáveis por grandes conquistas, mas também por dirigentes que participaram de diferentes momentos da vida administrativa, política e associativa da instituição. Entre eles, Artur Braga Rodrigues Pires, conhecido como Artur Pires, ocupou posição de destaque na década de 1950 e permaneceu ligado à vida vascaína por muitos anos depois de deixar a presidência. Nascido em 28 de abril de 1907, Artur Pires desenvolveu uma trajetória profissional que ultrapassou os limites do esporte. Um perfil biográfico publicado pela revista portuguesa *Duas Pátrias*, em 1955, registra o início de suas atividades no comércio em 1924 e informa que se formou pela Faculdade de Medicina da Universidade do Rio de Janeiro em 1927. A mesma publicação destaca sua participação em entidades empresariais e instituições relacionadas à organização do trabalho e à formação profissional. Esses registros ajudam a compreender o perfil de um dirigente que transitava por diferentes ambientes da sociedade brasileira. Sua atuação também esteve ligada à representação do setor comercial e à assistência social. Exerceu funções de direção no Serviço Social do Comércio do Rio de Janeiro (SESC-RJ) e presidiu a Federação do Comércio Atacadista do Estado do Rio de Janeiro, conforme as informações biográficas reunidas para esta pesquisa. Em um período marcado pela expansão das atividades econômicas, pelo crescimento urbano e pelas transformações nas relações de trabalho, a participação nessas entidades colocava seus dirigentes em contato com debates importantes sobre desenvolvimento, organização empresarial e bem-estar dos trabalhadores. Sua projeção alcançou igualmente o cenário internacional. Em 1952, integrou, segundo os registros reunidos, a delegação brasileira à 35ª Conferência Internacional do Trabalho, realizada em Genebra, no âmbito da Organização Internacional do Trabalho. Também teria representado o Brasil no X Congresso Internacional de Medicina do Trabalho, em Lisboa. A confirmação documental dessas participações e a identificação precisa de suas funções nesses eventos poderão ampliar o conhecimento sobre sua trajetória profissional para além do futebol. Foi, entretanto, no Vasco da Gama que Artur Pires deixou uma marca particularmente significativa para a memória esportiva do Rio de Janeiro. ## A presidência e a conquista de 1956 Artur Pires assumiu a presidência do Vasco em 16 de março de 1954 e foi reconduzido ao cargo em 14 de março de 1956. As cronologias consultadas situam suas gestões entre 1954 e 1957, embora algumas referências indiquem 1958 como o ano de encerramento de sua passagem pela presidência. A definição exata do término do mandato deverá ser conferida nas atas e nos registros oficiais do clube. Sua administração atravessou um período importante do futebol vascaíno. Em 1956, o clube conquistou o Campeonato Carioca, reafirmando sua posição entre as grandes forças do futebol do Rio de Janeiro. A conquista ocorreu em uma década na qual o Vasco procurava preservar a tradição de suas equipes e manter sua capacidade de competir em alto nível. A vitória no campeonato constitui um dos principais marcos esportivos associados à sua presidência. Para avaliar com maior precisão a participação de Artur Pires nesse resultado, porém, é necessário examinar a documentação administrativa e esportiva da época, identificando as decisões da diretoria, as condições de funcionamento do departamento de futebol e as circunstâncias que acompanharam a campanha da equipe. O período também coincidiu com acontecimentos de grande repercussão nacional. A morte de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954, provocou intensa comoção política e social no país, situando o início da administração de Artur Pires em um momento de profundas tensões na vida brasileira. ## A Capela de Nossa Senhora das Vitórias Entre as iniciativas associadas à sua gestão, destaca-se o lançamento da pedra fundamental da Capela de Nossa Senhora das Vitórias, no complexo de São Januário. A cerimônia ocorreu em 15 de agosto de 1955 e contou com a presença de Dom Hélder Câmara, então bispo auxiliar do Rio de Janeiro, além do presidente vascaíno. A iniciativa representou um marco na história do clube, pois incorporou ao patrimônio de São Januário um espaço de caráter religioso, ampliando as dimensões simbólicas e associativas do complexo esportivo. A capela expressa um aspecto importante da vida institucional vascaína: a sede do clube não se limitava às atividades esportivas, constituindo também um espaço de convivência, identidade e manifestação das tradições de seus associados. As obras iniciadas durante a presidência de Artur Pires prosseguiram após sua saída do cargo. A inauguração oficial ocorreu em 26 de agosto de 1961, demonstrando como projetos concebidos em uma administração podiam atravessar diferentes gestões e permanecer na memória coletiva do clube. ## A tentativa de contratar Pelé Outro episódio associado à presidência de Artur Pires é a tentativa de contratar Pelé, então jovem jogador do Santos e ainda no início de uma carreira que o transformaria em um dos maiores nomes da história do futebol mundial. Segundo as informações reunidas para esta pesquisa, Artur Pires chegou a viajar a Santos para negociar a contratação com o clube paulista. A transferência não se concretizou, e Pelé permaneceu no Santos, onde alcançou projeção internacional. O episódio foi posteriormente abordado em uma crônica de Mario Filho, publicada em 1977, dedicada a Pelé e à sua relação com o Vasco. O texto constitui uma pista relevante para reconstruir a história da negociação e compreender as ambições esportivas da direção vascaína em meados dos anos 1950. A leitura integral da crônica, acompanhada da consulta aos jornais publicados na época, poderá esclarecer as circunstâncias da viagem, os termos eventualmente discutidos e as razões que impediram o acordo. Até que esses elementos sejam documentados, é prudente tratar os detalhes da negociação como informações ainda sujeitas a confirmação. Mesmo sem a concretização da transferência, a tentativa revela a disposição da direção vascaína de buscar jogadores capazes de fortalecer a equipe. O episódio também oferece uma oportunidade para estudar as relações entre grandes clubes brasileiros em um período no qual as negociações de atletas começavam a adquirir crescente importância econômica e esportiva. ## A Barreira do Vasco: uma dimensão social controversa A trajetória de Artur Pires não pode ser examinada exclusivamente a partir das conquistas esportivas e das iniciativas institucionais. Uma reportagem publicada em 1957, intitulada “Vasco avança na área: desaloja cem pessoas”, apresenta outra dimensão da relação entre o clube e a comunidade situada nas imediações de São Januário. Segundo a matéria, uma área de aproximadamente três mil metros quadrados da Barreira do Vasco seria destinada à construção de um estacionamento ligado aos interesses do clube. A iniciativa ameaçava a permanência de famílias que viviam no local, entre elas moradores idosos e pessoas com poucos recursos para encontrar outra moradia. A reportagem menciona Elias Pedro Ferreira de Souza, então com 71 anos, e registra a preocupação dos moradores diante da possibilidade de perderem suas casas. Também faz referência à atuação da Justiça e da Fundação Leão XIII no contexto do conflito. O episódio merece atenção especial por revelar tensões entre os interesses patrimoniais de uma grande instituição esportiva e as condições de vida da população que residia nas proximidades de sua sede. A história do Vasco, como a de outras instituições de grande dimensão, também foi marcada por questões relacionadas à ocupação do espaço urbano, à propriedade e às relações com as comunidades vizinhas. A matéria atribui a Artur Pires participação na iniciativa que deu origem ao conflito. Uma avaliação histórica definitiva, entretanto, exige a análise integral da reportagem e a consulta a outras fontes que permitam esclarecer a situação jurídica do terreno, as decisões administrativas envolvidas, a atuação das autoridades públicas e o desfecho da ameaça de desalojamento. Incorporar esse episódio à biografia não significa reduzir a trajetória do dirigente a um único acontecimento. Significa reconhecer que uma narrativa histórica consistente deve considerar também os conflitos e as consequências sociais das decisões institucionais, mesmo quando eles contrastam com a memória construída em torno das conquistas esportivas. ## Benemérito, grande benemérito e presidente do Conselho Deliberativo A relação de Artur Pires com o Vasco não terminou com sua saída da presidência. Reconhecido pelos serviços prestados ao clube, recebeu os títulos de benemérito e grande benemérito, distinções que o mantiveram entre as figuras reconhecidas pela instituição. Em 1960, foi eleito presidente do Conselho Deliberativo, ampliando sua participação na vida política vascaína. A posição demonstra a importância desse órgão na estrutura associativa do clube e a continuidade da atuação de antigos dirigentes nos debates sobre seus rumos administrativos. A permanência de Artur Pires nesse ambiente também permite observar como as relações pessoais e políticas construídas durante uma gestão podiam atravessar diferentes gerações de dirigentes. O exercício da presidência constituía apenas uma etapa de uma trajetória associativa que, no caso de antigos presidentes, frequentemente prosseguia por meio de conselhos, campanhas eleitorais e outras funções institucionais. ## A participação nas disputas políticas vascaínas Nas décadas seguintes, Artur Pires continuou participando das disputas políticas do Vasco. Em 1976, esteve ligado à campanha de Medrado Dias, que concorreu à presidência do clube. Medrado havia sido diretor de futebol durante a primeira gestão de Artur Pires, em 1954, relação que evidencia a continuidade de vínculos estabelecidos no interior da administração vascaína. Em 1985, Artur Pires voltou a se posicionar no cenário eleitoral do clube, apoiando Eurico Miranda. A identificação precisa de sua participação nessas campanhas, das chapas envolvidas e das posições defendidas por ele depende de documentação adicional, especialmente notícias de jornais e registros das eleições. Esses episódios são relevantes porque permitem acompanhar a permanência de antigas lideranças nos debates institucionais do Vasco muito depois do encerramento de seus mandatos executivos. A história política de um clube não se limita às sucessões presidenciais: envolve alianças, divergências, grupos de associados e disputas sobre os caminhos da instituição. ## O associativismo português Outra dimensão da trajetória de Artur Pires foi sua participação em associações ligadas à comunidade portuguesa no Brasil. Em 1970, ocupou a vice-presidência da Casa de Trás-os-Montes, entidade representativa das tradições e dos vínculos culturais da comunidade originária daquela região de Portugal. Sua presença nesse espaço amplia a compreensão de suas relações sociais para além do universo vascaíno. As associações de origem portuguesa desempenharam papel importante na vida comunitária do Rio de Janeiro, promovendo encontros, preservando tradições e criando redes de sociabilidade entre seus membros. A participação de Artur Pires nesse ambiente também abre caminho para investigar as conexões entre o associativismo português e as instituições esportivas. A identificação de outras entidades das quais participou, bem como a documentação de suas funções e atividades, poderá esclarecer melhor a extensão de sua atuação comunitária. ## A representação do Vasco na Espanha Um dos últimos episódios conhecidos de sua trajetória ligada ao clube ocorreu em 1987, quando Artur Pires representou o Vasco na Espanha durante a disputa do Troféu Ramón de Carranza. A viagem demonstra que continuava associado à representação institucional vascaína décadas depois de assumir pela primeira vez a presidência. Sua presença nesse compromisso internacional constitui um registro significativo da permanência de antigos dirigentes na vida do clube e da importância atribuída à experiência acumulada por essas lideranças. A confirmação dos detalhes da viagem, de sua função específica na delegação e dos registros fotográficos ou jornalísticos correspondentes poderá enriquecer esse capítulo final da biografia. ## Uma trajetória entre a administração, o esporte e a vida associativa A biografia de Artur Braga Rodrigues Pires permite acompanhar diferentes dimensões da história do Vasco da Gama na segunda metade do século XX. Sua presidência esteve associada à conquista do Campeonato Carioca de 1956, ao lançamento da pedra fundamental da Capela de Nossa Senhora das Vitórias e à tentativa de contratação de Pelé. Sua trajetória também inclui o reconhecimento como benemérito e grande benemérito, a presidência do Conselho Deliberativo e a participação nas disputas políticas vascaínas das décadas posteriores. Ao mesmo tempo, o episódio da Barreira do Vasco mostra que a memória institucional precisa considerar questões que ultrapassam os resultados esportivos. A relação entre o clube e a população que vivia no entorno de São Januário constitui parte da história social da região e merece ser examinada com o mesmo rigor dedicado às conquistas e às realizações administrativas. Sua participação em entidades empresariais, instituições sociais e associações portuguesas acrescenta outra dimensão ao personagem. Artur Pires integrava um universo de dirigentes cuja atuação se estendia por diferentes espaços da sociedade, reunindo experiência profissional, vida associativa e administração esportiva. A data de seu falecimento ainda não foi estabelecida com segurança. As informações reunidas até o momento apontam para um intervalo entre 1988 e 1994, que deverá ser esclarecido por meio da consulta a jornais, registros civis, atas e documentos do clube. Reconstruir sua trajetória é, portanto, mais do que recuperar a biografia de um antigo presidente. É também investigar as continuidades da vida política vascaína, as relações entre esporte e sociedade e os desafios administrativos e sociais que marcaram a história do clube. O aprofundamento da pesquisa documental permitirá distinguir com maior precisão os fatos comprovados das memórias posteriores, contribuindo para uma compreensão mais completa de Artur Braga Rodrigues Pires e de seu lugar na história do Vasco da Gama.

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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Antonio Teixeira de Lemos: um paraense na história do Vasco luso-brasileiro

*Advogado, orador e dirigente esportivo, Antonio Teixeira de Lemos ocupou posições de destaque no Vasco da Gama e nas instituições do esporte brasileiro. Sua trajetória ajuda a compreender a diversidade regional das lideranças que participaram da construção da história vascaína.* A história do Club de Regatas Vasco da Gama não pode ser compreendida apenas a partir de sua origem portuguesa ou de sua trajetória esportiva. Desde as primeiras décadas do século XX, o clube também se constituiu como espaço de participação de brasileiros de diferentes procedências, que encontraram no Rio de Janeiro e na instituição vascaína um lugar de atuação profissional, associativa e política. A trajetória de Antonio Teixeira de Lemos, nascido em Belém do Pará, oferece um exemplo significativo dessa dimensão luso-brasileira do Vasco. Advogado de formação, Teixeira de Lemos estabeleceu-se no Rio de Janeiro e construiu uma carreira que o levou a ocupar algumas das posições mais importantes da estrutura dirigente vascaína. Foi vice-presidente em diferentes oportunidades, presidiu interinamente o clube e exerceu a presidência do Conselho Deliberativo. Em reconhecimento à sua contribuição, recebeu o título de Grande Benemérito. Sua atuação, entretanto, não se limitou à administração do Vasco. Teixeira de Lemos tornou-se também um personagem conhecido nos meios esportivos brasileiros, participando de organismos responsáveis pela organização e pela disciplina das competições. Foi vice-presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e membro do Tribunal Superior de Justiça Desportiva, além de integrar, segundo o testemunho de seus contemporâneos, a comissão responsável pela elaboração do Código Brasileiro de Disciplina Desportiva. ## A força da palavra nas assembleias vascaínas Um dos testemunhos mais expressivos sobre sua personalidade foi publicado por Vargas Neto na revista *O Cruzeiro*, em 1953, poucos meses depois de sua morte. O cronista dedicou-lhe uma homenagem na qual ressaltou sua formação intelectual e sua capacidade de argumentação: “Advogado brilhante, orador de largos recursos, argumentador ágil e lógico, fazia de sua inteligência e da sua dialética dois tremendos elementos de combate em prol das idéias que defendia.” A descrição permite compreender a importância da palavra na vida política do clube. As assembleias e os debates entre conselheiros eram espaços de disputa de projetos e de definição dos rumos institucionais do Vasco. Nesse ambiente, Teixeira de Lemos conquistou reputação pela capacidade de sustentar suas posições e convencer interlocutores. Vargas Neto recordou, com humor, a preocupação que seus argumentos provocavam entre adversários de determinadas propostas. Segundo a crônica, houve quem preferisse não ouvir o advogado a correr o risco de ser convencido por ele. A anedota, além de revelar a imagem que o dirigente projetava entre os vascaínos, oferece um retrato de uma cultura associativa na qual a oratória e a participação nos debates tinham papel relevante. ## Amizades e redes de dirigentes A trajetória de Teixeira de Lemos também esteve ligada a dirigentes como Cyro Aranha e Luiz Aranha, de quem era amigo. Essas relações ajudam a compreender as redes de sociabilidade que participavam da condução do Vasco em meados do século XX. A aproximação entre Teixeira de Lemos e Cyro Aranha é particularmente interessante para a interpretação da diversidade regional das lideranças vascaínas. Enquanto Teixeira de Lemos nasceu no Pará, Cyro Aranha veio do Sul do Brasil. Ambos construíram suas trajetórias no Rio de Janeiro e participaram da vida institucional do clube. Esses percursos permitem observar que a tradição portuguesa, fundamental para a história do Vasco, não impediu a incorporação de brasileiros de outras regiões à sua direção. A identidade vascaína foi formada por essa convivência entre referências luso-brasileiras, experiências urbanas cariocas e trajetórias individuais que ultrapassavam os limites da cidade. Não se tratava de apagar as diferenças de origem, mas de compreender como elas podiam coexistir em uma instituição que reunia associados, dirigentes e desportistas em torno de interesses comuns. ## Do Vasco à organização do esporte brasileiro A experiência jurídica de Teixeira de Lemos encontrou espaço também nas instituições esportivas nacionais. Sua passagem pela vice-presidência da CBD e pelo Tribunal Superior de Justiça Desportiva demonstra que sua atuação ultrapassava os interesses imediatos do clube. O período em que construiu sua carreira foi marcado por transformações importantes na organização do futebol brasileiro, especialmente pelos debates em torno do profissionalismo e pela necessidade de estabelecer normas para as competições e as relações entre os diferentes agentes do esporte. Teixeira de Lemos participou desse universo de discussões, combinando sua experiência como advogado com a atuação dirigente. A documentação reunida até aqui ainda precisa ser ampliada para identificar suas intervenções específicas nos debates sobre o profissionalismo, mas sua presença nas instituições esportivas permite situá-lo entre os personagens envolvidos na construção das estruturas administrativas e jurídicas do futebol brasileiro. Em 1950, sua reconhecida capacidade de oratória também foi mobilizada em uma cerimônia vascaína: Teixeira de Lemos atuou como orador oficial na homenagem que marcou a instalação do busto de Antonio Campos. O episódio constitui mais um indício do prestígio que desfrutava e de seu papel na representação pública do clube. ## A morte e a memória de um dirigente Antonio Teixeira de Lemos faleceu em dezembro de 1952, quando ocupava a vice-presidência do Conselho Deliberativo do Vasco. A notícia publicada pelo jornal *A Noite* registrou suas diferentes funções na vida vascaína e no esporte nacional, incluindo a vice-presidência da CBD e sua participação na justiça desportiva. As homenagens recebidas após sua morte demonstram o reconhecimento conquistado ao longo de sua trajetória. Entre elas, destaca-se a crônica de Vargas Neto, publicada em *O Cruzeiro* no início de 1953. Mais do que enumerar cargos, o texto procurou preservar a memória de um homem cuja inteligência, capacidade oratória e participação na vida associativa marcaram seus contemporâneos. Teixeira de Lemos era irmão de Celina Teixeira Lemos, não se casou e não deixou filhos. Sua história é recuperada, sobretudo, por meio de sua atuação pública, dos registros da imprensa e das lembranças preservadas por outros vascaínos. ## Uma instituição de encontros A biografia de Antonio Teixeira de Lemos contribui para ampliar a compreensão da história do Vasco da Gama. Sua origem paraense, assim como a trajetória sulista de Cyro Aranha e a presença de dirigentes ligados à comunidade portuguesa, permite observar a diversidade regional que participava da construção institucional do clube. O caráter luso-brasileiro do Vasco não deve ser entendido como uma identidade estática, limitada à origem de seus fundadores. Ao longo do tempo, essa tradição conviveu com a participação de brasileiros de diferentes regiões, que passaram a integrar suas redes de sociabilidade e seus espaços de decisão. Recuperar a trajetória de Teixeira de Lemos é, portanto, mais do que resgatar a biografia de um Grande Benemérito. É reconhecer a contribuição de um paraense que encontrou no Vasco um espaço de atuação e se tornou um de seus dirigentes de destaque, participando também da organização do esporte brasileiro. Sua história ajuda a revelar um Vasco formado por múltiplas experiências regionais e culturais, no qual a herança portuguesa se articulou à participação de brasileiros de diferentes origens. Essa diversidade, documentada nas trajetórias de seus dirigentes, constitui uma dimensão importante para compreender a formação histórica do clube. ### O que eu considero central nesta versão - A crônica de Vargas Neto funciona como eixo biográfico, pois oferece um retrato da personalidade de Teixeira de Lemos e de sua influência nas assembleias. - A trajetória do dirigente é relacionada à presença de brasileiros de outras regiões na direção vascaína, sem minimizar a importância da comunidade portuguesa. - A atuação na CBD e na justiça desportiva amplia o texto para além da história interna do clube. - As informações ainda não inteiramente documentadas são apresentadas com cautela, deixando espaço para incorporar novos recortes. Esta seria minha versão inicial de trabalho para a revista de história. A próxima etapa seria inserir as referências completas dos jornais e da revista O Cruzeiro, além de precisar a cronologia dos cargos exercidos por Teixeira de Lemos. Isso permitiria transformar o texto em um artigo histórico com documentação e referências adequadas à publicação. A seguir está uma versão integrada que mescla seu texto com o tom historiográfico solicitado, destacando a trajetória de Antônio Teixeira de Lemos dentro da formação de uma elite dirigente vascaína de caráter luso‑brasileiro. Advogado, orador e dirigente esportivo, Antônio Teixeira de Lemos ocupou posições de destaque no Club de Regatas Vasco da Gama e em instituições do esporte brasileiro. Sua trajetória, marcada por trânsito entre diferentes espaços sociais e políticos, ajuda a compreender a diversidade regional das lideranças que participaram da construção da história vascaína — uma elite que, embora fortemente associada à imigração portuguesa, incorporava também brasileiros de várias regiões do país. A história do Vasco não pode ser compreendida apenas a partir de sua origem portuguesa ou de sua trajetória esportiva. Desde as primeiras décadas do século XX, o clube se constituiu como um espaço de sociabilidade luso‑brasileira, reunindo comerciantes, profissionais liberais, atletas e dirigentes que compartilhavam vínculos culturais, redes de amizade e projetos de ascensão social. Nesse ambiente, a presença de um paraense como Teixeira de Lemos revela a amplitude dessa elite dirigente, que não se limitava ao eixo Rio–Portugal, mas se expandia para outras regiões do Brasil. A crônica de Vargas Neto, uma das principais fontes sobre sua personalidade, descreve Teixeira de Lemos como um homem de palavra fácil, convicções firmes e grande habilidade de articulação. Seu talento como orador o projetou rapidamente no cenário vascaíno, permitindo que assumisse funções de liderança em momentos decisivos da vida institucional do clube. Vargas Neto o retrata como alguém capaz de transitar entre o universo esportivo e o mundo político, sempre atento às disputas internas e às demandas externas que moldavam o futebol brasileiro. Ao acompanhar sua atuação pública, percebe‑se que Teixeira de Lemos não era apenas um dirigente esportivo: era parte de um grupo que buscava modernizar o clube, ampliar sua influência e consolidar o Vasco como instituição de alcance nacional. Sua trajetória ilumina, portanto, um processo mais amplo — o da formação de uma elite vascaína que combinava origens diversas, mas compartilhava um projeto comum de afirmação social e cultural. Revisitar sua história é compreender como indivíduos como Teixeira de Lemos ajudaram a moldar o Vasco e, ao mesmo tempo, foram moldados pelas transformações do esporte e da sociedade brasileira. Sua presença no clube, vinda de tão longe geograficamente, reforça a ideia de que o Vasco sempre foi mais do que um clube de origem portuguesa: foi um espaço de encontro, negociação e construção de identidades luso‑brasileiras. Agora temos os dois textos. O Texto 1 oferece a base documental e biográfica, enquanto o Texto 2 apresenta a interpretação histórica que deve orientar o artigo: a trajetória de Antônio Teixeira de Lemos como parte da formação de uma elite dirigente vascaína de caráter luso-brasileiro. Na versão abaixo, procurei preservar a linguagem mais ensaística e interpretativa do Texto 2, incorporando os episódios, os cargos e os testemunhos do Texto 1. A ideia é que a biografia não se transforme em uma simples lista de funções, mas que a trajetória individual ajude a explicar a formação institucional do Vasco. # Antonio Teixeira de Lemos: um paraense na formação da elite dirigente do Vasco luso-brasileiro *Advogado, orador e dirigente esportivo, Antonio Teixeira de Lemos ocupou posições de destaque no Club de Regatas Vasco da Gama e nas instituições do esporte brasileiro. Sua trajetória permite compreender a formação de uma elite dirigente vascaína de caráter luso-brasileiro, fortemente vinculada à comunidade portuguesa, mas aberta à participação de brasileiros de diferentes regiões do país.* A história do Club de Regatas Vasco da Gama não pode ser compreendida apenas a partir de sua origem portuguesa ou de sua trajetória esportiva. Desde as primeiras décadas do século XX, o clube constituiu um espaço de sociabilidade no qual se encontravam comerciantes, profissionais liberais, atletas e dirigentes, reunidos por vínculos associativos, relações de amizade e projetos de afirmação institucional. Nesse universo, a comunidade portuguesa desempenhou papel fundamental, mas a formação da liderança vascaína não se limitou aos homens ligados diretamente à imigração lusitana. Brasileiros de diferentes procedências também encontraram no Vasco um espaço de atuação e reconhecimento. A trajetória de Antonio Teixeira de Lemos, nascido em Belém do Pará e estabelecido no Rio de Janeiro, oferece um exemplo significativo dessa dimensão luso-brasileira. Advogado de formação, ele conquistou posições de destaque na estrutura dirigente do clube e participou também de organismos responsáveis pela organização do esporte nacional. Sua história permite observar como a elite vascaína se formou a partir de diferentes origens regionais, articuladas em torno de uma instituição que ampliava progressivamente sua influência na sociedade brasileira. Teixeira de Lemos não era apenas um dirigente esportivo. Sua formação jurídica, sua capacidade de argumentação e sua habilidade nas relações institucionais fizeram dele um personagem importante na vida política do Vasco. Foi vice-presidente em diferentes oportunidades, presidiu interinamente o clube e exerceu a presidência do Conselho Deliberativo. Em reconhecimento à sua contribuição, recebeu o título de Grande Benemérito. A sequência de funções que ocupou revela uma presença duradoura nos espaços em que se discutiam os rumos da instituição e se construíam as relações de poder que sustentavam sua organização. ## A força da palavra na política vascaína A reputação de Teixeira de Lemos estava estreitamente ligada à sua capacidade de oratória. Em uma associação na qual as assembleias e os debates entre conselheiros constituíam momentos importantes da vida institucional, saber argumentar, defender propostas e conquistar adesões era também uma forma de exercer liderança. Um dos testemunhos mais expressivos sobre sua personalidade foi publicado por Vargas Neto na revista *O Cruzeiro*, em 1953, poucos meses depois de sua morte. Ao recordar o dirigente, o cronista destacou suas qualidades intelectuais e sua habilidade nos debates: “Advogado brilhante, orador de largos recursos, argumentador ágil e lógico, fazia de sua inteligência e da sua dialética dois tremendos elementos de combate em prol das idéias que defendia.” A descrição permite compreender a importância da palavra na trajetória de Teixeira de Lemos. Sua atuação não dependia apenas dos cargos que ocupava, mas também da capacidade de intervir nas discussões e influenciar decisões. Vargas Neto recordou, com humor, o receio que seus argumentos provocavam entre adversários de determinadas propostas. Segundo a crônica, havia quem preferisse não ouvi-lo a correr o risco de terminar convencido por sua argumentação. A anedota revela mais do que uma característica individual. Ela oferece um vislumbre da cultura política de uma associação esportiva na qual a reputação pessoal, o domínio da palavra e as relações entre os dirigentes podiam ser decisivos para a condução dos assuntos internos. O prestígio de Teixeira de Lemos foi construído nesse ambiente, em que a capacidade de argumentar se combinava com a participação continuada na vida institucional. Sua presença também se manifestava nas cerimônias públicas do clube. Em 1950, atuou como orador oficial na homenagem que marcou a instalação do busto de Antonio Campos. A escolha demonstra o reconhecimento de que desfrutava e a confiança depositada em sua capacidade de representar o Vasco para além das reuniões internas. A crônica de Vargas Neto, portanto, constitui uma fonte importante não apenas para reconstituir a personalidade do dirigente, mas também para compreender os valores que contribuíam para conferir prestígio à elite vascaína. A competência profissional, a eloquência e a habilidade política eram atributos que podiam transformar um associado em uma liderança reconhecida. ## Redes de sociabilidade e diversidade regional A trajetória de Teixeira de Lemos esteve ligada a uma rede de dirigentes que participavam da condução do Vasco em meados do século XX. Entre seus amigos estavam Cyro Aranha e Luiz Aranha, personagens igualmente importantes para a história institucional do clube. Essas relações ajudam a identificar os vínculos pessoais que aproximavam homens de diferentes trajetórias e contribuíam para a formação de uma elite associativa. A aproximação com Cyro Aranha é particularmente reveladora. Enquanto Teixeira de Lemos nasceu no Pará, Cyro Aranha veio do Sul do Brasil. Ambos construíram suas trajetórias no Rio de Janeiro e encontraram no Vasco um espaço de participação e projeção pública. Suas origens distintas não impediram que compartilhassem a vida institucional do clube e participassem de suas redes de sociabilidade. Esses percursos ajudam a compreender o caráter luso-brasileiro da liderança vascaína sem reduzir essa expressão a uma simples oposição entre portugueses e brasileiros. A presença portuguesa constituiu uma referência fundamental na história do Vasco, mas a instituição também incorporou brasileiros de diferentes regiões, cujas experiências profissionais e sociais passaram a integrar sua vida associativa. A elite dirigente vascaína não deve ser entendida, portanto, como um grupo inteiramente homogêneo. Suas relações eram construídas por meio de vínculos pessoais, interesses institucionais, experiências profissionais e formas compartilhadas de participação. A diversidade de origem coexistia com a formação de uma identidade associativa própria. Ser dirigente do Vasco significava participar de um universo no qual a tradição do clube, as relações entre seus membros e a projeção pública da instituição se articulavam continuamente. Nesse sentido, a trajetória de Teixeira de Lemos permite ultrapassar uma interpretação da história vascaína concentrada exclusivamente na origem de seus fundadores. Seu percurso demonstra que a consolidação institucional do clube também dependeu da participação de homens que, vindos de outras regiões, passaram a ocupar posições de influência e a integrar as redes de poder da associação. ## Do Vasco às instituições do esporte brasileiro A atuação de Teixeira de Lemos não ficou restrita à política interna do clube. Sua formação jurídica abriu caminho para uma participação mais ampla na organização do esporte nacional. Foi vice-presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e integrou o Tribunal Superior de Justiça Desportiva. Segundo os registros e testemunhos reunidos na pesquisa, também participou da comissão responsável pela elaboração do Código Brasileiro de Disciplina Desportiva. Essas funções ampliaram o alcance de sua atuação e situaram sua trajetória no processo de organização administrativa e jurídica do esporte brasileiro. O dirigente vascaíno transitava entre diferentes espaços institucionais, levando para os organismos esportivos a experiência adquirida na vida associativa e, ao mesmo tempo, trazendo para o clube a familiaridade com as questões jurídicas e administrativas que envolviam as competições. O período em que desenvolveu sua carreira foi marcado por transformações importantes no futebol brasileiro. A consolidação do profissionalismo, o crescimento da importância das competições e a necessidade de estabelecer normas para as relações entre clubes e demais agentes do esporte ampliaram o papel dos dirigentes e das instituições responsáveis pela organização das atividades esportivas. Embora ainda seja necessário aprofundar a pesquisa para identificar suas intervenções específicas nesses debates, a presença de Teixeira de Lemos na CBD e na justiça desportiva demonstra que sua atuação ultrapassava os interesses imediatos do Vasco. Ele participava de um universo no qual a experiência dos clubes, a formação jurídica e a construção de organismos nacionais se encontravam. Esse trânsito institucional é relevante para compreender a própria formação da elite vascaína. Alguns de seus integrantes não se limitavam à administração do clube: também ocupavam posições em entidades esportivas e outros espaços da vida pública. A trajetória de Teixeira de Lemos permite observar como a participação associativa podia se converter em reconhecimento para além dos limites da instituição de origem. ## A morte e a construção da memória Antonio Teixeira de Lemos faleceu em dezembro de 1952, quando ocupava a vice-presidência do Conselho Deliberativo do Vasco. A notícia publicada pelo jornal *A Noite* registrou suas funções no clube e sua participação nas instituições esportivas nacionais, incluindo a vice-presidência da CBD e sua atuação na justiça desportiva. Poucos meses depois, a homenagem de Vargas Neto em *O Cruzeiro* procurou preservar a memória de um homem cuja inteligência e capacidade oratória haviam marcado seus contemporâneos. A crônica acrescentou aos registros dos cargos e das funções uma dimensão pessoal, recuperando o estilo de atuação de um dirigente que fazia da palavra um dos principais instrumentos de sua participação na vida associativa. Teixeira de Lemos era irmão de Celina Teixeira Lemos, não se casou e não deixou filhos. Sua trajetória é recuperada principalmente por meio dos registros da imprensa, das funções que exerceu e das lembranças preservadas por outros vascaínos. Esses vestígios permitem reconstituir parte de sua atuação e situá-lo entre os personagens que participaram da consolidação institucional do clube em meados do século XX. A memória de dirigentes como Teixeira de Lemos é importante porque amplia a compreensão da história vascaína para além dos resultados esportivos e das grandes conquistas. Os clubes também são construídos por aqueles que participam de suas assembleias, administram seus interesses, estabelecem relações com outras instituições e contribuem para definir sua posição na sociedade. ## Um paraense na história do Vasco luso-brasileiro Revisitar a trajetória de Antonio Teixeira de Lemos é reconhecer a participação de um paraense na formação de uma elite dirigente que teve papel importante na consolidação do Vasco da Gama. Sua carreira reúne elementos que ajudam a compreender esse processo: a formação profissional, a capacidade de articulação, a presença nos espaços de decisão do clube e a atuação em instituições nacionais do esporte. Sua história também permite compreender melhor a expressão *luso-brasileiro* quando aplicada à formação institucional vascaína. Não se trata de apagar a importância da imigração portuguesa ou de supor que todos os integrantes da direção compartilhassem as mesmas origens e interesses. Trata-se de reconhecer que a tradição portuguesa conviveu com a participação de brasileiros de diferentes procedências, incorporados às redes de sociabilidade e aos espaços de decisão do clube. A trajetória de Teixeira de Lemos, assim como a de Cyro Aranha e a de outros dirigentes de origens distintas, revela uma instituição cuja identidade se formou por meio de encontros, negociações e experiências compartilhadas. A herança portuguesa permaneceu como referência importante, mas o desenvolvimento do Vasco também dependeu da participação de homens que trouxeram outras trajetórias regionais e profissionais para sua vida associativa. Mais do que um registro biográfico, sua história constitui uma oportunidade para investigar como se formou a elite dirigente vascaína, quais atributos conferiam prestígio aos seus integrantes e de que maneira as relações construídas no clube se conectavam a espaços mais amplos da sociedade brasileira. O percurso de Antonio Teixeira de Lemos mostra que a história do Vasco não foi feita apenas por aqueles que lhe deram origem, mas também por aqueles que, vindos de diferentes lugares, passaram a participar de sua construção. isso, a interpretação em termos de formação institucional e redes de sociabilidade, sem transformar hipóteses em fatos comprovados.

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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O Vasco pulsava em iniciativas: grupos, sociabilidade e renovação nos anos 1920

Quando se fala na história do Club de Regatas Vasco da Gama na década de 1920, é comum destacar a campanha contra a discriminação racial e social no futebol, a afirmação de jogadores negros e de origem popular e a construção do estádio de São Januário. Esses acontecimentos foram fundamentais para a trajetória do clube. Mas a renovação vascaína não se limitava ao campo de futebol. O Vasco pulsava em iniciativas, grupos de associados, encontros e experiências de convivência que ajudavam a construir uma instituição cada vez mais forte e plural. As crônicas do jornalista Álvaro Rodrigues, conhecido como Zé de São Januário, oferecem pistas valiosas para conhecer esse universo. Ao registrar personagens e acontecimentos da vida cotidiana vascaína, o cronista nos permite observar um clube que não se resumia aos seus dirigentes, às equipes e aos resultados esportivos. Havia uma intensa movimentação de associados que criavam grupos, organizavam atividades, cultivavam amizades e participavam de diferentes dimensões da vida social. Uma dessas iniciativas foi a Turma do Traço de União, formada em um contexto no qual, segundo Álvaro Rodrigues, existiam divergências entre os adeptos do remo e os praticantes do futebol. Até 1922, esses segmentos mantinham relações difíceis, com pouca disposição para a convivência. A criação do grupo procurava aproximar os dois universos, estabelecendo vínculos entre os vascaínos ligados às atividades náuticas e aqueles que frequentavam os espaços esportivos terrestres. O campo da Rua Moraes e Silva tornou-se um dos cenários dessa aproximação. Ali se praticavam futebol, atletismo e basquetebol, e eram organizados torneios internos que reuniam os participantes em um ambiente de amizade e camaradagem. Em outra passagem, Zé de São Januário atribuiu àquele campo um papel importante no desenvolvimento do futebol vascaíno, recordando jogadores e associados que posteriormente alcançariam destaque. A descrição dos frequentadores é especialmente reveladora. O cronista menciona homens como Vitorino Carneiro Dias, José Ribeiro de Paiva, conhecido como Almirante, e Adriano Rodrigues dos Santos, além de diversos outros participantes da vida do clube. Recorda também Albertino Moreira Dias, que mantinha uma mesa reservada para beber cerveja e oferecer aos amigos. É uma cena aparentemente simples, mas que nos aproxima de uma dimensão frequentemente esquecida pela história institucional: os espaços de encontro, as relações pessoais e os hábitos cotidianos por meio dos quais se construíam laços de pertencimento. Outra manifestação dessa vitalidade era o grupo Lasca o Pau, associado à antiga sede vascaína da Rua Santa Luzia e à Praia de Santa Luzia. Seus integrantes também participavam das festividades carnavalescas. A crônica registra a organização do bloco Baianas da Orgía, relacionado a Rafael Verri, mostrando que as experiências de sociabilidade dos vascaínos podiam ultrapassar os limites do clube e se conectar às manifestações culturais da cidade. A presença de nomes como Rafael Verri e Adão Antônio Brandão em relatos sobre diferentes grupos sugere a existência de redes de relações que se cruzavam. As fronteiras entre esses agrupamentos não parecem ter sido necessariamente rígidas: um mesmo indivíduo podia participar de diferentes círculos de convivência, aproximando pessoas e atividades. Essas experiências ajudam a compreender que a renovação vascaína dos anos 1920 não deve ser examinada apenas pela transformação ocorrida dentro das quatro linhas. A afirmação de jogadores negros e de origem popular representou um marco na história do futebol brasileiro, mas a vida do clube era igualmente movimentada por iniciativas sociais, esportivas e recreativas que contribuíam para sua expansão. É importante não confundir, contudo, a existência desses grupos com a comprovação de que todas as barreiras raciais e sociais haviam sido superadas. As crônicas aqui examinadas não permitem, por si sós, determinar a composição racial e social de cada agrupamento. Elas revelam, antes, uma instituição atravessada por diferentes interesses, relações e formas de participação, cuja diversidade precisa ser investigada por meio de outras fontes. Nesse contexto, a construção de São Januário, inaugurado em 1927, pode ser compreendida como parte de um processo mais amplo de crescimento institucional. O estádio simbolizou a capacidade de mobilização do Vasco, mas essa força também se manifestava nas iniciativas dos associados, nas atividades esportivas, nos grupos de convivência e na formação de vínculos entre diferentes setores do clube. Ao recuperar as crônicas de Zé de São Januário, podemos enxergar um Vasco que pulsava para além dos jogos e das decisões de seus dirigentes. Um clube em movimento, no qual diferentes grupos criavam experiências de participação e contribuíam para consolidar uma identidade coletiva. Investigar esses personagens e suas iniciativas é também reconhecer que a história vascaína foi construída não apenas pelos grandes acontecimentos, mas pelas muitas pessoas que, em seu cotidiano, deram vida à instituição.

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Milton de Castro Menezes (1905–1999): medicina, política e associativismo na história do Vasco da Gama

A história dos clubes esportivos brasileiros não pode ser compreendida apenas a partir dos resultados alcançados em competições, dos títulos conquistados ou das trajetórias de seus atletas. As instituições esportivas também foram construídas pela atuação de dirigentes, associados, profissionais liberais, jornalistas e homens públicos que, por meio de diferentes atividades, participaram de sua organização e de suas disputas internas. A trajetória de Milton de Castro Menezes constitui um exemplo significativo dessas múltiplas relações entre esporte, política e sociedade. Médico, dentista, jornalista e parlamentar, Milton de Castro Menezes manteve uma longa ligação com o Club de Regatas Vasco da Gama, instituição à qual se associou em 1917 e na qual exerceu diversas funções administrativas. Sua atuação atravessou diferentes períodos da história vascaína, desde os anos de consolidação de São Januário até as transformações institucionais e políticas da segunda metade do século XX. A singularidade de sua trajetória está na convergência de diferentes espaços de atuação. Ao mesmo tempo que desenvolvia sua carreira profissional e política, participava da administração do clube e escrevia sobre o esporte na imprensa carioca. Essa presença em campos distintos permite investigar as relações entre o associativismo esportivo, a atividade parlamentar e a formação de redes de sociabilidade na antiga capital federal e, posteriormente, no Estado da Guanabara. O objetivo deste artigo é reconstituir a trajetória de Milton de Castro Menezes, destacando sua participação na vida administrativa do Vasco, sua atuação no jornalismo esportivo e sua carreira política. Mais do que apresentar uma sucessão de cargos e homenagens, busca-se compreender como sua experiência individual se relacionou com a história de uma instituição que ocupou lugar relevante na vida social e esportiva do Rio de Janeiro. 1. Uma vida ligada ao Vasco Nascido em 6 de junho de 1905, Milton de Castro Menezes ingressou no quadro social do Vasco da Gama em 1917, quando ainda era adolescente. A associação ocorreu em um período de transformações importantes para o clube, que consolidava sua presença no futebol carioca e desenvolvia um projeto institucional que encontraria em São Januário uma de suas principais expressões. Segundo os registros biográficos preservados pelo Acervo do Vasco, Menezes acompanhou a passagem dos tempos da antiga sede da Rua da Saúde para a fase de consolidação do estádio vascaíno. Sua memória pessoal atravessou, assim, diferentes momentos da história da instituição, permitindo aproximar a experiência de um associado das mudanças vividas pelo clube ao longo do século XX. Essa longevidade associativa é um aspecto importante de sua biografia. O Vasco não era apenas um espaço de lazer ou de acompanhamento das competições esportivas, mas também um ambiente de participação coletiva, formação de vínculos e disputa por posições na vida institucional. A presença de Menezes em diferentes órgãos administrativos indica que sua relação com o clube ultrapassou a condição de torcedor ou associado, tornando-se parte ativa de sua organização. A investigação de sua trajetória permite, portanto, considerar o papel desempenhado por associados que construíram suas vidas profissionais fora do esporte, mas encontraram nos clubes um espaço importante de atuação pública. No caso de Menezes, a medicina, o jornalismo e a política constituíram dimensões complementares de uma trajetória que teve no Vasco uma referência permanente. 2. Medicina e administração esportiva Uma das funções mais relevantes exercidas por Milton de Castro Menezes no Vasco foi a chefia do Departamento Médico, cargo que ocupou entre 1937 e 1949, conforme os registros biográficos reunidos pelo clube. O período coincide com uma fase de transformações no esporte brasileiro, marcada pela crescente organização das competições, pela ampliação da estrutura dos clubes e pela valorização de conhecimentos especializados relacionados à preparação e à saúde dos atletas. A presença de um médico em posição administrativa permite situar a trajetória de Menezes no processo de profissionalização e especialização das atividades esportivas. A análise dessa atuação poderá esclarecer como se organizavam os serviços médicos do Vasco, quais eram as responsabilidades atribuídas ao departamento e de que maneira a medicina se incorporava ao funcionamento cotidiano de uma grande associação esportiva. Para tanto, será importante localizar relatórios, atas, notícias e outros registros contemporâneos que permitam reconstituir concretamente sua atividade. Menezes também participou de outras instâncias administrativas do clube, incluindo o Conselho Fiscal, além de exercer diferentes funções diretivas. Os documentos biográficos disponíveis mencionam ainda sua participação em iniciativas relacionadas ao desenvolvimento patrimonial de São Januário, aspecto que merece investigação específica. A construção e a ampliação das instalações de um clube exigiam mobilização de recursos, articulação entre dirigentes e participação de associados. Identificar a contribuição efetiva de Menezes nessas iniciativas permitirá compreender melhor sua posição na estrutura administrativa vascaína e evitar que a referência genérica à sua participação seja confundida com uma responsabilidade individual ainda não demonstrada pelas fontes. 3. O jornalista e os debates sobre o esporte A atuação de Milton de Castro Menezes não se restringiu à medicina e à administração. Ele também desenvolveu uma carreira no jornalismo esportivo, utilizando pseudônimos como Antônio Conselheiro, Conselheiro Urtiga e Galho da Urtiga, conforme as informações biográficas reunidas até o momento. Sua colaboração com a imprensa carioca, incluindo o jornal vascaíno Voz de São Januário, constitui uma dimensão especialmente relevante para a pesquisa. Por meio da escrita jornalística, dirigentes e associados podiam comentar acontecimentos esportivos, expressar posições sobre a administração dos clubes e participar das disputas públicas em torno do futebol. O estudo de seus textos poderá revelar como Menezes interpretava os conflitos e as transformações do Vasco, quais personagens destacava e que concepções de clube e de esporte defendia. Também permitirá examinar a relação entre sua posição institucional e sua atividade como jornalista, sem pressupor que as duas dimensões fossem necessariamente coincidentes. A identificação dos pseudônimos utilizados em cada publicação é fundamental para essa análise. Será necessário verificar em quais periódicos aparecem, em que períodos foram empregados e quais textos podem ser atribuídos com segurança ao autor. Esse levantamento poderá constituir uma contribuição importante para a preservação da memória da imprensa esportiva carioca. A imprensa deve ser considerada, nesse sentido, não apenas uma fonte de informações sobre a trajetória de Menezes, mas também um espaço no qual se produziam interpretações sobre a vida associativa e a identidade dos clubes. 4. A trajetória política e o trabalhismo carioca Paralelamente à sua atuação profissional e esportiva, Milton de Castro Menezes desenvolveu uma carreira política vinculada ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Os registros reunidos para esta pesquisa indicam sua participação na vida legislativa carioca, inicialmente no contexto do antigo Distrito Federal e, posteriormente, no Estado da Guanabara. A transferência da capital federal para Brasília, em 1960, provocou mudanças institucionais importantes no Rio de Janeiro. A antiga capital passou a constituir o Estado da Guanabara, com organização política própria. Essa transformação deve ser considerada na reconstrução da carreira parlamentar de Menezes, sobretudo para distinguir os cargos ocupados antes e depois da mudança. As informações disponíveis mencionam eleições em 1950, 1954, 1958, 1962 e 1967. A natureza exata de cada mandato, sua duração e as respectivas legislaturas ainda precisam ser verificadas nos registros eleitorais e parlamentares. Essa conferência permitirá estabelecer uma cronologia política precisa e compreender a posição de Menezes no trabalhismo carioca. Sua formação médica e sua atuação no serviço público de saúde também merecem atenção. O cruzamento dessas atividades poderá esclarecer as relações entre sua experiência profissional, sua participação política e os temas que mobilizavam sua atuação pública. A presença simultânea no Parlamento e na administração de um clube esportivo abre outra possibilidade de investigação: compreender como o associativismo esportivo se relacionava com as redes de sociabilidade e os espaços de participação política da cidade. Essa relação, entretanto, deve ser demonstrada documentalmente, sem presumir que os vínculos com o Vasco tenham determinado suas escolhas eleitorais ou sua atuação parlamentar. 5. Reconhecimento institucional e memória vascaína A dedicação de Milton de Castro Menezes ao Vasco foi reconhecida formalmente pelo clube. Em 1959, recebeu o título de Benemérito, conforme os dados reunidos na pesquisa. Posteriormente, alcançou a condição de Grande Benemérito, distinção que o inseriu entre os associados homenageados pelos serviços prestados à instituição. Esses títulos constituem fontes importantes para a história do associativismo vascaíno. Mais do que homenagens individuais, permitem investigar os critérios pelos quais o clube reconhecia a contribuição de seus associados, os serviços considerados relevantes e as formas de construção de uma memória institucional. A longa convivência de Menezes com diferentes gerações de dirigentes também pode ajudar a reconstituir continuidades e transformações na administração do Vasco. Entretanto, a identificação das relações pessoais e institucionais precisa ser acompanhada pela análise de documentos que esclareçam a natureza de sua participação em cada período. O próprio testemunho retrospectivo de Menezes, preservado nos registros do Acervo do Vasco, constitui uma fonte valiosa para essa investigação. Como ocorre com todo depoimento de memória, deve ser lido considerando o momento em que foi produzido, a posição ocupada pelo depoente e a maneira pela qual acontecimentos passados foram selecionados e narrados. O confronto entre essas lembranças, a imprensa contemporânea e a documentação administrativa permitirá construir uma interpretação mais consistente de sua trajetória. Considerações finais Milton de Castro Menezes reúne características que tornam sua biografia relevante para a história social do esporte brasileiro. Médico, dentista, jornalista, parlamentar e dirigente, participou de diferentes espaços da vida pública carioca e manteve uma ligação com o Vasco da Gama que atravessou grande parte do século XX. Sua trajetória oferece a oportunidade de investigar o clube para além das competições, observando as relações entre atividade profissional, participação política, produção jornalística e administração esportiva. A chefia do Departamento Médico entre 1937 e 1949, a colaboração com a imprensa e o reconhecimento como Benemérito e Grande Benemérito constituem pontos de partida para essa análise. Ao mesmo tempo, sua carreira parlamentar permite situar o personagem em um contexto político mais amplo, marcado pelas transformações institucionais do Rio de Janeiro e pela atuação do trabalhismo. O cruzamento dessas dimensões poderá contribuir para uma compreensão mais aprofundada das relações entre os clubes esportivos e a sociedade em que estavam inseridos. Falecido em 27 de agosto de 1999, aos 94 anos, Milton de Castro Menezes deixou uma trajetória que merece ser examinada tanto pela duração de sua participação na vida vascaína quanto pela diversidade de suas atividades. Reconstruir sua história significa também recuperar a experiência de um associado cuja atuação ultrapassou os limites do campo esportivo e integrou diferentes dimensões da vida pública carioca. A documentação disponível permite iniciar esse trabalho, mas o aprofundamento das fontes será decisivo para esclarecer os detalhes de sua carreira política, dimensionar sua participação nas iniciativas administrativas do clube e recuperar sua contribuição para o jornalismo esportivo. É nesse cruzamento entre biografia e história institucional que reside o principal potencial de sua trajetória como objeto de pesquisa histórica.

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terça-feira, 20 de outubro de 2026

José do Amaral Osório: o médico, empresário e grande benemérito que dedicou a vida ao Vasco

Quando faleceu, em novembro de 1984, na véspera da decisão do Campeonato Brasileiro entre Vasco e Fluminense, o Dr. José do Amaral Osório deixou um pedido que resumiu toda a sua existência: desejava que um punhado da terra de São Januário fosse colocado em seu caixão. O gesto, lembrado pelo jornalista Sérgio Cabral, simbolizava uma ligação que ultrapassara os limites do associativismo esportivo e se confundia com a própria história do Club de Regatas Vasco da Gama. [docvirt.com] Poucos homens serviram ao Vasco por tanto tempo e em tantas funções quanto José do Amaral Osório. Médico, cirurgião, empresário, conselheiro, dirigente e Grande Benemérito, esteve presente em alguns dos momentos mais importantes da vida do clube ao longo de mais de quatro décadas. Sua trajetória atravessou os anos do crescimento institucional de São Januário, o período do Expresso da Vitória, as grandes disputas políticas internas e as transformações do futebol brasileiro. Formado em Medicina, Osório construiu sólida reputação profissional. Como médico, colocou frequentemente seus conhecimentos a serviço do Vasco, atendendo atletas, associados e familiares, muitas vezes sem qualquer remuneração. A dedicação aos pacientes tornou-se uma de suas marcas pessoais e ajudou a consolidar o respeito que conquistaria dentro e fora dos limites de São Januário. [docvirt.com] Paralelamente à medicina, desenvolveu bem-sucedida carreira empresarial. A experiência adquirida como empresário complementaria suas qualidades de administrador e dirigente, transformando-o numa figura de enorme prestígio nos círculos esportivos e associativos do Rio de Janeiro. [docvirt.com] Desde muito cedo sua vida confundiu-se com a do Vasco. Sócio antigo da agremiação, tornou-se um dos homens mais atuantes dos quadros associativos do clube. Em 1942 já integrava o Conselho Deliberativo e participava de diversas comissões administrativas. Também exerceu a direção do Departamento Infanto-Juvenil e prestou colaboração em inúmeras iniciativas voltadas para o desenvolvimento da instituição. [docvirt.com] Foi justamente nesse período que se fortaleceu a amizade que marcaria sua trajetória: a relação com o dirigente Cyro Aranha. Mais do que aliados políticos, os dois tornaram-se amigos inseparáveis. Moravam na mesma rua, a tradicional Rua Marquês de Pineda, em Laranjeiras, e compartilhavam não apenas ideias sobre o futuro do Vasco, mas também uma convivência pessoal construída ao longo de décadas. A parceria ganhou destaque durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1942, quando o Vasco aderiu aos esforços cívicos promovidos no país, Osório participou da organização de um amplo serviço de enfermagem em colaboração com a Cruz Vermelha Brasileira. O clube colocou dependências de São Januário à disposição da iniciativa, e José Amaral Osório figurou entre os médicos encarregados de representar oficialmente o Vasco junto à instituição humanitária. [docvirt.com] Seu nome também esteve ligado a importantes realizações da década de 1940. Em 1945, foi apontado como o idealizador da colocação da primeira estrela de ouro no pavilhão vascaíno, símbolo destinado a representar as extraordinárias conquistas alcançadas pelo clube naquele período de glórias. A proposta acabou transformando-se num dos marcos simbólicos da identidade cruz-maltina. [incondicio...dpress.com] Os serviços prestados ao Vasco renderam-lhe sucessivos reconhecimentos. Tornou-se Benemérito em 1938 e, posteriormente, recebeu em 1953 o título de Grande Benemérito, uma das mais elevadas honrarias concedidas pela instituição. [docvirt.com] A influência de Osório não se limitava a São Januário. Sua experiência levou-o a desempenhar funções relevantes no futebol brasileiro, chegando à presidência do Conselho Fiscal da CBF. Simultaneamente, continuou atuando na política vascaína, inclusive na presidência do Conselho Deliberativo do clube. [docvirt.com] Apesar dos cargos e responsabilidades, permaneceu sempre o mesmo torcedor apaixonado. Uma carta enviada a Cyro Aranha em 1952, durante viagem pela Europa, revela esse sentimento. De Barcelona, escrevia ao amigo confessando saudades do Vasco e relatando que acompanhava diariamente as notícias do clube pelos jornais europeus. Mesmo distante, permanecia emocionalmente ligado ao cotidiano cruz-maltino. [docvirt.com] Na vida política interna, caracterizou-se pela independência. Em 1969 esteve entre os poucos dirigentes que defenderam a não cassação do presidente Reinaldo Reis, durante uma das mais graves crises institucionais do clube. Em 1976 apoiou a candidatura de Medrado Dias, mantendo-se fiel às próprias convicções mesmo quando elas o colocavam em posição minoritária. No plano familiar, construiu uma sólida tradição vascaína. Casado com Maria Regina Neves Osório, foi pai de Roberto Osório e José Carlos Osório. A ligação da família com o Vasco tornou-se tão intensa que documentos do próprio clube registrariam a participação de três gerações dos Osório na vida associativa cruz-maltina. [docvirt.com] Ao todo, deixou nove netos. Em uma curiosa e simbólica homenagem, uma publicação oficial do Vasco apresentou os nove netinhos de José do Amaral Osório formando uma equipe infantil vestindo a camisa cruz-maltina, uma imagem que ilustra perfeitamente a transmissão de valores e tradições dentro da família. [docvirt.com] Quando faleceu, em 1984, as homenagens vieram de todos os setores do clube e da imprensa esportiva. Cronistas como Sérgio Cabral, Luiz Orlando e Carlos Lima ressaltaram sua lealdade, seu caráter conciliador, sua generosidade e seu amor incondicional pelo Vasco. Todos concordavam em um ponto: desaparecia não apenas um dirigente, mas um dos grandes guardiões da memória e dos valores da instituição. Seu enterro ocorreu poucas horas antes da decisão do Campeonato Brasileiro daquele ano. Enquanto o Vasco entrava em campo para uma partida histórica, familiares, amigos, dirigentes e antigos companheiros despediam-se de um homem que havia dedicado praticamente toda a sua vida ao clube. Médico respeitado, empresário bem-sucedido, dirigente influente e vascaíno apaixonado, José do Amaral Osório pertence à rara categoria daqueles personagens cuja biografia se confunde com a própria história da instituição que serviram. Seu legado permanece vivo não apenas nos documentos e homenagens, mas na memória de São Januário, local que escolheu amar até o último dia de vida.

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