quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Memórias de uma Pioneira Bracarense: Josepha Pereira, o Grupo Lasca o Pau e as Raízes da Paixão Vascaína

Reconstituir a trajetória de uma torcedora de futebol na década de 1910 é um desafio complexo. Além da escassez de fontes, há a dificuldade de estruturar uma narrativa coerente com os poucos dados disponíveis. Este cenário analítico mudou a partir de 1950, quando as arquibancadas e seus personagens mais destacados ganharam grande visibilidade na imprensa e em livros de memórias dos clubes. Embora Dulce Rosalina seja frequentemente apontada como pioneira, muitas outras mulheres que construíram a história do Vasco da Gama e de outras agremiações permaneceram esquecidas. Resgatar essas trajetórias permite propor novas possibilidades de narrar a história do futebol a partir da perspectiva daqueles que animam o espetáculo. Foi justamente o resgate dessas memórias que serviu de base para um estudo memorialista da família vascaína de Josepha Maria Pereira, torcedora emblemática do clube no início do século XX. Nascida em 1892, segundo levantamento apresentado pelo historiador Walmer Peres Santana em sua tese de Doutorado intitulada O “lamentavel” Club de Regatas Vasco da Gama: futebol, imigração e antilusitanismo na cidade do Rio de Janeiro (1915–1927), defendida na UERJ em 2025, Josepha e seu irmão, Manoel Félix Pereira, eram imigrantes portugueses naturais da cidade de Braga. Embora não se saiba ao certo a data em que desembarcaram no Brasil, a trajetória dos irmãos confunde-se com a própria consolidação da identidade luso-brasileira do clube. Antes de se consolidar no comércio local, uma reportagem da época revela que Josepha trabalhou como operária em um estabelecimento na própria Região da Leopoldina. Essa vivência fabril antecedeu sua transição para o setor de serviços, quando abriu com o irmão o "Meu Bazar Armarinho", focado em produtos variados. O comércio ficava situado no bairro de Olaria — uma localização estratégica pela proximidade com São Cristóvão e o bairro de Vasco da Gama, colado ao terreno onde seria erguido e inaugurado o futuro Estádio de São Januário em 1927. Boa parte das informações coletadas sobre Josepha foi preservada por duas figuras marcantes do ecossistema cruzmaltino. O primeiro é o jornalista Álvaro Nascimento, o "Cascadura" (ou "Zé de São Januário"), que registrou em suas crônicas, desde os anos 1940, a transformação do Vasco em um gigante do esporte. Nas crônicas de Cascadura, Josepha é exaltada como uma das principais figuras da torcida nos primórdios do futebol do clube, iniciado em 1915. Suas lembrancas recuperam um tempo em que poucos acompanhavam o time pelos campos da segunda e terceira divisões. Para se proteger em contextos hostis, a comunidade vascaína criou o grupo "Lasca o Pau" — possivelmente a primeira torcida organizada do clube. Composto por jovens destemidos, muitos de seus membros eram, na verdade, atletas do remo do próprio Vasco. Dentre eles, destacava-se Antônio Rodrigues Tavares, que viria a ser presidente do clube no final dos anos 1940. Décadas mais tarde, Tavares fez questão de ressaltar a importância crucial daqueles jovens defensores da instituição em seu depoimento para o livro de João Antero de Carvalho, lançado em 1968, intitulado Torcedores de Ontem e de Hoje. O jornalista Cascadura relata que Josepha participava ativamente das frentes de defesa do grupo, brigando literalmente nas arquibancadas contra torcedores rivais que desferiam xingamentos xenofóbicos aos portugueses, protegendo com brio a sua comunidade de origem. [1] Outro cronista a registrar a importância de Josepha foi o benemérito Milton de Castro Menezes. Em crônicas publicadas em jornais no final dos anos 1950, ele resgatou memórias de sua adolescência e fez questão de homenagear os irmãos Josepha e Manoel Pereira. Segundo o benemérito, a dupla bracarense foi responsável por despertar sua paixão pelo Vasco na Enseada de Botafogo, época em que o remo era o esporte mais popular da cidade. A busca por mais dados biográficos avançou na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, onde o registro mais recente sobre as atividades de Josepha localiza a posterior divisão de bens entre os sócios do bazar de Olaria. Pouco antes disso, em dezembro de 1957, um incêndio destruiu completamente a loja. A reportagem da época destaca que, felizmente, o local possuía seguro e que o comércio já funcionava há três décadas. O dado coincide com os registros de 1926, ano em que os irmãos Pereira fundaram o negócio, consolidando sua presença na Zona Leopoldinense. Embora celebrados pelos cronistas na esfera esportiva, Manoel e Josepha não eram comumente identificados nas páginas de esportes dos jornais cotidianos. O nome dos irmãos só aparece formalmente em 1945, por ocasião do falecimento de Manoel. O anúncio fúnebre foi publicado exclusivamente no periódico Diário de Notícias, onde a família registrou suas homenagens em três notas distintas. Como Manoel aparentemente não se casou nem deixou filhos, os textos são assinados por sua irmã, que faz questão de homenagear seu saudoso irmão, além de mensagens de seus afilhados e dos empregados de sua firma, a M. F. Pereira & Cia. O falecimento de Manoel não foi registrado por Álvaro Nascimento, que na ocasião dedicava sua coluna diária no Jornal dos Sports às glórias do "Expresso da Vitória" — o elenco avassalador que colecionava títulos e encantava os vascaínos. Manoel não viveu para ver o tão sonhado título do Campeonato Carioca daquele ciclo vitorioso, mas testemunhou o Vasco levantar as taças do Torneio Municipal e do Torneio Relâmpago. Se teria morrido do coração, não há confirmação documental; contudo, diante de tamanha paixão clubística, a hipótese permanece como parte do imaginário dessa linhagem de torcedores.

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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Josepha Pereira: A operária que comandou a arquibancada e fez o Vasco o Clube do Povo

Dizer que o Vasco da Gama é o legítimo Clube do Povo não é força de expressão, é história escrita com suor e paixão. Na década de 1910, enquanto as arquibancadas dos rivais eram ocupadas pela alta sociedade carioca — com seus trajes finos, chapéus elegantes e aplausos contidos —, o Vasco já desenhava sua revolução cultural. E o nome dessa revolução na arquibancada atende por Josepha Pereira. Afastada do luxo das elites, Josepha era imigrante portuguesa e operária. Ela quebrou o padrão aristocrático da época e se tornou a primeira líder feminina da torcida do Vasco, comandando a massa com a energia e a proximidade que só quem é do povo entende. Lado a lado com seu irmão, Manoel Pereira, Josepha transformou amor em organização. Em 1926, a dupla abriu uma firma de comércio na Zona da Leopoldina. Aquela região, marcada pelos trilhos do trem e pelo suor dos trabalhadores ferroviários, rapidamente se transformou em um caldeirão vascaíno. O comércio dos irmãos Pereira era o ponto de encontro oficial da comunidade, o lugar onde se planejava o apoio ao clube. Essa mobilização popular casava perfeitamente com o momento histórico do clube. O Vasco já havia abalado as estruturas do futebol com o histórico título dos Camisas Negras de 1923. E enquanto a torcida se unia e dava o sangue para construir o nosso templo, o Estádio de São Januário (inaugurado em 1927), a família Pereira consolidava a força da nossa arquibancada no subúrbio. Josepha Pereira provou que o lugar da mulher trabalhadora era onde ela quisesse, inclusive liderando a torcida mais apaixonada do país. Juntos, os irmãos Pereira ajudaram a expandir a Nação Vascaína, fincando raízes profundas na identidade suburbana e operária que carregamos no peito até hoje. Respeito e Tradição!

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terça-feira, 8 de setembro de 2026

Castro Filho - O presidente do Vasco mais progressista

Biografia de Manoel Ferreira de Castro Filho: Arte, Política e o Destino Cruzmaltino Manoel Ferreira de Castro Filho (1910–1986) foi uma das personalidades mais multifacetadas e influentes da história política, cultural e esportiva do Rio de Janeiro no século XX. Bacharel em Ciências e Letras, dividiu sua trajetória entre as artes plásticas, o magistério e a alta gestão institucional. Como pintor formado pela Escola Nacional de Belas Artes, deixou obras notáveis — a exemplo do óleo sobre tela "Anoitecer na Várzea" (1986). Sua relevância no cenário artístico o levou à presidência da Sociedade Brasileira de Belas Artes, além de atuar como professor de Desenho e História da Arte no Colégio Bennett e no Ensino Técnico municipal. No campo cultural, ocupou ainda o prestigiado cargo de Diretor Geral do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. A Presidência do Vasco da Gama e o Esquadrão de 1944 A entrada de Castro Filho na alta política do Club de Regatas Vasco da Gama ocorreu em 10 de abril de 1944. Escolhido pelo Conselho Deliberativo para suceder o icônico mandatário Cyro Aranha — que se afastava temporariamente —, Castro Filho assumiu a presidência administrativa com a missão de dar continuidade ao projeto do lendário "Expresso da Vitória". A parceria entre Castro Filho e Cyro Aranha ia além do futebol; ambos compartilhavam de um profundo espírito cívico. Juntos, lideraram a campanha patriótica que resultou na doação do avião "Vasco da Gama" às Forças Aéreas Brasileiras (FAB) durante a Segunda Guerra Mundial, unindo a capacidade discursiva e emocional do professor ao suporte administrativo do clube. O Comício de Prestes e a Crise de 1945 O ápice da gestão de Castro Filho ocorreu em maio de 1945, em meio ao processo de redemocratização do Brasil e ao fim do Estado Novo de Getúlio Vargas. Com a anistia e libertação do líder comunista Luiz Carlos Prestes, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) buscou um espaço de grande capacidade para realizar seu primeiro grande comício em liberdade. Movido por princípios democráticos e republicanos — e respaldado por Cyro Aranha, então vice-presidente —, Castro Filho autorizou a cessão do Estádio de São Januário para o evento. O comício entrou para a história ao reunir mais de 100 mil pessoas. No entanto, o evento deflagrou uma monumental crise interna no Vasco da Gama. Alas conservadoras, sócios influentes e conselheiros que haviam orbitado em torno da Ditadura Vargas protestaram energicamente contra a abertura dos portões ao comunismo. Diante da insustentável pressão política, Castro Filho apresentou sua renúncia em maio de 1945, sendo sucedido por Jayme Fernandes Guedes. Em sinal de lealdade e solidariedade ao companheiro de diretoria, Cyro Aranha também renunciou ao seu cargo de vice-presidente. CRONOLOGIA DA CRISE DE 1945 Abril/1944 Maio/1945 Maio/1945 Castro Filho ┌───────────────────────┐ Renúncia de Castro Filho assume a │ Comício de L.C.Prestes│ ──> e Cyro Aranha diante da presidência │ (100 mil pessoas) │ pressão conservadora └───────────────────────┘ O Impacto na Crônica e na Intelectualidade Nacional A saída voluntária do Professor Castro Filho reverberou fortemente na intelectualidade brasileira, transformando-se em um marco da literatura esportiva da época:  José Lins do Rego: O célebre escritor defendeu publicamente o dirigente. Para Zé Lins, punir Castro Filho era um ato de "covardia política" e "atraso institucional", argumentando que os estádios pertenciam ao povo e que abrir São Januário havia sido um gesto de grandeza cívica.  Álvaro Nascimento (Cascadura): Principal cronista do Jornal dos Sports, Nascimento dedicou diversos textos para exaltar o perfil culto e idealista do presidente injustiçado. Ele lamentou que as pressões mesquinhas do futebol tivessem sufocado uma gestão tão elegante, imortalizando o gesto de Castro Filho como o sacrifício de um homem que se recusou a negociar seus princípios democráticos. A Liderança e os Grandes Cargos nas Décadas de 1950 e 1960 Mesmo após deixar a presidência executiva, o Professor Castro Filho manteve uma liderança política e institucional gigantesca no Vasco da Gama durante as décadas de 1950 e 1960. Longe de se limitar ao papel de um orador de bastidores, os registros históricos provam que ele continuou sendo uma das mentes mais brilhantes, respeitadas e influentes da política interna vascaína, assumindo cargos de máxima relevância na colina:

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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Francisco Marques da Silva – Um ex-presidente marcante na história do Vasco

Em 1948, quando o Club de Regatas Vasco da Gama celebrava meio século de existência, ergueram-se homenagens que buscavam cristalizar sua memória. Entre quadros e retratos de ex-presidentes, surgia a figura de um comerciante português, vindo de Ovar, no norte de Portugal: **Francisco Marques da Silva**. Não nascera vascaíno, nem fora fundador, mas cedo se tornaria um dos pilares da instituição. Seu coração, inicialmente voltado ao América — clube que atraía a colônia portuguesa —, foi conquistado pelo Vasco em meados da década de 1910. Em dezembro de 1917, assumiu a presidência, e a partir de 1918 sua presença se tornaria constante, até o retorno definitivo à terra natal em 1927. Em 1920, viveu uma eleição acirrada contra Marcílio Telles, disputa que dividiu o clube em duas alas: portugueses ao lado de Marcílio, brasileiros ao lado de Francisco. José da Silva Rocha, memorialista apaixonado, registrou essa batalha como um marco da vida política vascaína. Por razões econômicas e familiares, Marques regressou a Portugal em 1921, mas voltou em 1923, a tempo de testemunhar a consagração do futebol cruzmaltino com o título carioca. Desde sua primeira gestão, empenhou-se em fortalecer o departamento de futebol, enfrentando a resistência dos remadores que viam o Vasco como um clube essencialmente náutico. Com aliados influentes, como o lendário **José Ribeiro de Paiva**, o “Almirante”, abriu espaço para operários e negros, excluídos dos grandes clubes, formando um elenco que mudaria a história. Na Tijuca, Marques e sua esposa Guiomar viviam intensamente: esportes, religião, carnaval. Presidiu clubes sociais como o Everest, o Orfeão Português e o Grupo Dramático do Andaraí, onde Guiomar também brilhava. Engajaram-se em campanhas solidárias, mobilizando recursos para soldados portugueses na Primeira Guerra Mundial. Foi um dos principais articuladores da compra do terreno de São Januário e colaborador ativo na construção do estádio, figurando entre os quinze maiores contribuintes. Recebeu, por isso, o título de **Grande Benemérito**, honraria concedida a apenas três pessoas até 1948. Mas sua vida sofreu um golpe em 1926, com a morte de Guiomar, considerada por muitos como uma das mais fervorosas vascaínas. “Sua casa era uma extensão da sede do clube”, escreveu José da Silva Rocha. Pouco depois da inauguração de São Januário, em 1927, Marques partiu para Portugal, sem jamais retornar ao Brasil. Antes da despedida, doou ao clube seu automóvel para transportar jogadores. Em 1931, quando o Vasco excursionou pela Europa, uma das partidas foi em Ovar, sua cidade natal, onde ele se envolveu com o futebol local e ajudou a erguer um estádio. Em 1948, o Vasco buscou reunir ex-presidentes e fundadores. Marques, debilitado, recusou o convite, mas recebeu homenagens em crônicas de Álvaro Nascimento e José da Silva Rocha. Nascimento descreveu-o como “coração bem formado, tolerante, respeitador das convicções alheias, querido até por adversários”. Em resposta, Marques escreveu: “Se é certo que trago sempre no coração o nome do glorioso Vasco da Gama, a carta evocadora do seu cinquentenário elevou ainda mais em mim a chama de uma amizade que se gerou”. Os últimos dez anos de sua vida foram marcados por problemas de saúde. Faleceu em 1959, aos 77 anos, em Ovar. No Rio de Janeiro, o Vasco lhe prestou homenagens com missas e anúncios nos jornais, perpetuando sua memória como um dirigente que ajudou a moldar o destino do clube.

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domingo, 6 de setembro de 2026

Guiomar Marques da Silva: uma memória centenária (1926-2026)

Em 25 de setembro de 2026, completam-se 100 anos da morte de Guiomar Marques da Silva, uma das grandes torcedoras e figuras femininas dos primeiros anos do Club de Regatas Vasco da Gama. Poucas mulheres tiveram papel tão relevante na história do clube quanto ela. Esposa de Francisco Marques da Silva — presidente do Vasco em três ocasiões (1919 a 1921) — Guiomar esteve sempre na linha de frente das atividades sociais e esportivas da instituição. Embora seu legado ainda seja pouco conhecido, a consulta aos jornais da época revela o quanto sua presença foi decisiva para a consolidação do clube e para o fortalecimento da torcida vascaína. Ao lado de Avelina Portela (primeira mulher benemérita de um grande clube) e Josefa Pereira (primeira chefe de torcida do Vasco, segundo o jornalista Álvaro Nascimento), Guiomar — reconhecida como a primeira sócia remida do Vasco — compõe o “trio de ouro feminino” que marcou os principais momentos da história vascaína antes da construção de São Januário. A presença feminina no Vasco sempre foi marcante: nas arquibancadas acompanhando as regatas, nos piqueniques em Paquetá ou nas festas na sede da Rua Santa Luzia. Essa geração cresceu vendo o clube brilhar no remo, mas ainda como “primo pobre” do futebol. Francisco Marques da Silva, comerciante português e dirigente ousado, foi um dos responsáveis pela criação do departamento de futebol, abrindo espaço para jogadores vindos dos clubes suburbanos — muitos deles negros e operários — que se tornaram craques do time. O casal também se destacava na vida cultural e religiosa da cidade. Francisco presidiu o Orfeão Português, uma das várias associações luso-brasileiras da época, enquanto Guiomar atuava como diretora de noviças na Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores. Entre 1921 e 1923, viveram em Portugal, retornando ao Brasil para celebrar o título inédito de futebol conquistado em 1923. A convivência com atletas e dirigentes era constante, seja na sede de Santa Luzia, no campo da Tijuca (Rua Morais e Silva) ou em sua residência na Rua Barão de Mesquita. Pouco se sabe sobre detalhes pessoais de Guiomar, como sua data de nascimento ou se teve filhos. Mas sua paixão pelo Vasco foi registrada nos jornais: “a distinção dispensada aos vascainos, a fidalgia com que eram recebidos em seu lar, deixam indelével recordação e imperecível saudade”. Sua popularidade ficou evidente no dia do enterro, acompanhado por mais de 100 automóveis até o cemitério. Em 1927, Francisco doou ao clube o automóvel do casal, alegando que o veículo trazia muitas lembranças das viagens às regatas e aos campos de futebol. Um gesto simbólico de uma história de amor que uniu paixão esportiva e afetiva. A memória de Guiomar foi preservada com o batismo de um barco de remo em sua homenagem nos anos 1940, além de sua inclusão no livro *Polyanthea Vascaína* (1927), no volume comemorativo do cinquentenário (1948) e em diversas crônicas de Álvaro Nascimento no *Jornal dos Sports*.

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domingo, 25 de janeiro de 2026

Olimpio Pio - fundador da Torcida Organizada do Vasco

**Pioneiros da Torcida Organizada do Vasco** No início da década de 1940, quando o futebol ainda se confundia com a própria respiração da cidade, a torcida do Vasco ousou inaugurar um novo modo de vibrar: nasceu a primeira torcida uniformizada do Rio de Janeiro. À frente desse movimento estava Olimpio Pio dos Santos, figura discreta, mas incansável, que, ao lado do expansivo João de Luca, transformou arquibancadas em palcos e ruas em rios de gente. Pouco se sabe da vida íntima de Olimpio (1899–1971), mas por uma década sua presença foi chama constante entre os cruzmaltinos. Nas eleições do clube, nos jogos decisivos, nas comemorações que transbordavam do estádio para a cidade, lá estava ele — discreto, mas firme, conduzindo a massa como quem rege uma sinfonia invisível. Ainda nos anos 1930, quando a ausência de Polar, o grande líder da torcida, abriu espaço para novas vozes, a dupla Olimpio e De Luca assumiu o comando natural dos apaixonados. Não havia ainda uma torcida organizada, mas já se percebia o fervor que levava os vascainos a atravessar bairros e fronteiras para acompanhar o time. Em São Januário, um setor pulsava diferente, como se cada grito fosse tambor de guerra. O verdadeiro engajamento veio em 1941, na campanha de Cyro Aranha à presidência. Foi um movimento popular, quase épico, que uniu associados e torcedores em torno de um ideal. A vitória de Cyro abriu um período glorioso: memória preservada, aviões doados ao Brasil, um novo hino ecoando nos salões, festas juninas e carnavais que faziam do clube um coração pulsante da cidade. Em cada iniciativa, lá estavam Olimpio e De Luca — o primeiro nos bastidores, articulando com jornais e rádios; o segundo, com megafone em punho, incendiando arquibancadas ao som do “Casaca!”. No fim de 1942, inspirados pelos cinejornais que mostravam torcidas norte-americanas em êxtase, anunciaram a criação da torcida uniformizada do Vasco. A novidade, já ensaiada em São Paulo, encontrou no Rio seu terreno fértil. Mario Filho, em suas colunas, clamava para que os cariocas aderissem ao estilo. E foi no calor dessa atmosfera que os cruzmaltinos se tornaram pioneiros. O auge veio em 1945, quando o Expresso da Vitória deslizou pelos gramados e a cidade se rendeu. A charge de Lorenzo Molas eternizou o momento, mas foi a torcida que deu corpo à epopeia: bandeiras tremulavam, fogos riscavam o céu, e uma faixa unia milhares de vozes — “Com o Vasco onde estiver o Vasco”. A conquista incendiou a cidade. Uma passeata monumental tomou a Avenida Rio Branco: carros alegóricos, multidões a pé, cantos que misturavam carnaval e devoção. O Vasco, clube do povo, celebrava como nunca antes visto. O êxtase espalhou-se pelas ruas, pelos bares, pelas esquinas — um título que não apenas marcou época, mas gravou na memória coletiva o poder de uma torcida que soube reinventar o ato de torcer.

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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Entre Dor e Orgulho: A Torcida do Vasco em 2025

A torcida do Vasco da Gama, eterna guardiã da Cruz de Malta, atravessou o ano de 2025 como quem vive uma epopeia: feita de fé, dor, esperança e orgulho. Cada jogo foi mais que noventa minutos de futebol — foi um ritual de paixão, uma celebração da identidade vascaína. Foi o ano em que Phillipe Coutinho recuperou o bom desempenho e voltou a ser protagonista nas partidas do Vasco, liderando o meio-campo com jogadas decisivas. Ao seu lado, o atacante Rayan se firmou como uma das principais revelações do clube, destacando-se pela velocidade e pela capacidade de decidir jogos. Mas nem só de glórias se fez o calendário. O fracasso em competições foi a tônica de muitos meses, e os protestos ecoaram como tambores de inconformismo. Fora das quatro linhas, a massa se dividiu: parte apoiava o presidente Pedrinho, enquanto outra se organizava em oposição, fortalecida pelo movimento **“Vasco, o Clube do Povo”**, conduzido por Martinho da Vila. Ali, a democracia vascaína pulsava, reafirmando que o Gigante da Colina é, antes de tudo, popular e plural. São Januário, templo da paixão, foi palco de momentos simbólicos. O padre **Júlio Lancellotti** recebeu a camisa cruzmaltina em cerimônia comovente, reafirmando o caráter solidário da instituição. A **Feira Vascaína** transformou o estádio em mercado de afetos e economia popular, onde mãos vascaínas criavam e vendiam, e corações se encontravam. O ano também trouxe luto. Partiu o jornalista **Áureo Ameno**, voz respeitada e apaixonada pelo clube. Sua ausência deixou silêncio, mas sua memória ecoou em homenagens e cânticos. Também se despediram Tia Sueli, guerreira da Força Jovem, e Zeca, liderança dos Pequenos Vascaínos. Cada perda foi uma ferida aberta, mas também um testemunho da força comunitária que sustenta o Vasco. Entre lágrimas e lembranças, nasceu também reflexão. O livro **“Vascainidades”**, de André Garone, mergulhou na identidade e memória do clube, enquanto o **Centro de Memória** promoveu debates que entrelaçaram história, política e paixão. O Vasco reafirmava-se como mais que futebol: um fenômeno cultural. Nas redes sociais, a torcida mostrou sua potência. Hashtags como **#GiganteEmCadaCanto** e **#VascoÉResistência** incendiaram os trending topics, levando o espírito vascaíno para além dos estádios. Memes, transmissões e vídeos multiplicaram vozes, conectando gerações em tempo real. E se houve um símbolo maior, foi Gui. O menino de 11 anos, portador de epidermólise bolhosa, tornou-se amuleto e inspiração. Em novembro, recebeu das mãos de Bebeto o prêmio de “Melhor Torcedor” no The Best Football Awards. Sua história emocionou milhões, lembrando que o Vasco é feito de humanidade, não apenas de vitórias ou derrotas. O destino reservou ainda ironias aos rivais. Enquanto o Vasco mostrava sua força no Maracanã, eles caíam ao longo do ano diante de gigantes europeus como Bayern e Chelsea. Para os vascaínos, foi mais um motivo de cantar alto. E eterno foi também o espetáculo da final da Copa do Brasil. O Maracanã, tomado por uma maré cruzmaltina, viu erguer-se um **mosaico monumental**: a Cruz de Malta em vermelho e preto, acompanhada da frase “Gigante da Colina, eterno”. A imagem correu o mundo. Dentro de campo, o Vasco lutou com bravura. Nuno Moreira marcou no primeiro tempo, mas o Corinthians venceu por 2 a 1. A derrota não apagou a chama. Bandeiras tremulavam como ondas, vozes uníssonas estremeciam o concreto, e lágrimas se misturavam entre tristeza e orgulho. O Maracanã foi testemunha de que o Vasco não é apenas um clube: é uma paixão que atravessa gerações, uma história que nunca se apaga.

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